Foi numa aula de equitação que a Rebeca acabou tudo comigo. Implorei-lhe: "Rebeca, pensa nos nossos filhos!" E ela: "Que filhos? Namoramos há uma semana!" E do estábulo saíram três crianças pequenas com as cabeças do tamanho de abóboras gigantes: "Mãe, pensa em nós!"
Tinha um tio que passava o tempo a mandar palpites. Mandava-os mesmo quando sozinho, em voz alta, o céu e as nuvens apenas ouvindo-o. Um dia perguntei-lhe, "Tio, qual é a tua comida favorita?". Ao que ele respondeu, arroz e batatas. Era um homem simples. Morreu de diarreia.
Todos os dias, à mesma hora, ligava o rádio e ouvia as notícias sobre futebol. Apontava aquelas que considerava mais relevantes, sublinhando as que não poderia jamais esquecer. Achava o desporto abominável e acreditava ser capaz de o provar se o compreendesse na totalidade.
Tinha um sorriso independente. Por vezes, de manhã ao acordar, notava-se carrancuda e sabia que o sorriso lhe havia fugido. Encontrava-o no parapeito da janela da cozinha observando o sol, fitando-o sem queimar os olhos que não tinha.
Acordei tarde, olhos como espinafres mirrados. Ouvi o barulho do comboio passando, com força, rumo ao destino que desconhecia. Pensei no que me cabia na palma da mão: talvez, se a esticasse muito, uma pedra colhida na praia.
Uma vez perguntei à minha professora de matemática qual era o sinal dos tempos e ela atirou-me o apagador à cabeça. Já não se faz serviço público como dantes.
Bebida a bebida, José de Matos alçou uma perna e retirou uma borboleta de entre as nádegas. Já não era a primeira vez que o fazia e até já tinha sido repreendido por tal façanha. Vivemos num país de bons costumes, disseram-lhe. Infelizmente era verdade.
A minha mãe do lado do meu pai virou-se para mim e disse: "De todas as estradas no mundo não há uma que me leve a casa." Ignorei-a e continuei a jogar gamão com o meu tio que em vez de braços tem patas. Nisto entra um ladrão: "Mãos ao ar!" Levantámos logo, menos o meu tio.