JOÃO SEVERIANO
Assim como ocorreu com Airton "Pavilhão", Alcindo "Bugre" e Juarez Teixeira, o "Tanque", ídolos da história do Grêmio, há alguns anos tive a honra de ser recebido por João Severiano em sua casa, no bairro Partenon. Mesma casa onde cresceu e onde morava quando defendia o Grêmio na década de 60, em Porto Alegre.
A ideia era bater um papo para uma matéria em alguma antiga publicação do Grêmio. Acho que para Revista 1903.
Contar um pouco as histórias do passado e conhecer pessoalmente ídolos do meu pai, dos meus tios, sempre foi uma honra muito grande e um prazer pra mim.
Porém, dessa vez a emoção extrapolou.
Em uma de suas respostas, Joãozinho desabafou:
- Logo quando eu comecei no Grêmio, a torcida pegava muito no meu pé, me vaiava a cada jogada errada e isso me deixava chateado. Tinha um jornalista na época que escrevia no Correio do Povo. Assinava como Dom Luis e a coluna dele só era publicada em ocasiões especiais: quando o Grêmio conquistava um título ou quando estava mal e precisava amenizar a crise interna. Após um jogo em que fui vaiado, saiu uma coluna dele no dia seguinte me elogiando, falando das minhas qualidades e pedindo paciência ao torcedor que eu era um jogador promissor. Você não faz ideia de como isso me ajudou. Passei a atuar com mais tranquilidade e, aos poucos, fui ganhando o carinho do torcedor.
Ouvi o depoimento calado e contei:
- O Dom Luis era o meu avô. Sempre gostou muito do senhor. Fico muito feliz em saber dessa história.
Imediatamente, seus olhos se encheram d'água. Ele se aproximou de mim, segurou meu rosto com carinho e perguntou:
- Não acredito que tu és neto do "seu" Adail? Teu avô é responsável direto pelo meu sucesso no Grêmio! - Confessou me dando um afetuoso abraço como se eu fosse um mensageiro do agradecimento.
Tive que controlar as lágrimas.
A partir deste dia, ficamos grandes amigos. Pesquisei a fundo sua história no Grêmio, sua passagem pelo Independente/ARG e sua atuação na política gaúcha.
Cada vez que ele me via, gritava:
- Ó lá o neto do Adail! - E repetia a história para quem tivesse por perto, me enchendo de orgulho.
Na tarde deste sábado, na Arena, confesso que fiquei surpreso com sua presença no gramado após a conquista do Heptacampeonato.
Suas lágrimas genuínas na emoção pelo reconhecimento do Clube ao ser escolhido para entregar a taça ao capitão no pódio tocaram o meu coração.
Se você é um daqueles que perguntou "quem é esse velhinho que tá atrapalhando a foto do troféu?", tem a obrigação de estudar só um pouquinho mais a história do Grêmio.
Que essa homenagem fique para sempre marcada no coração do Pequeno Polegar e que seu sorriso represente todos aqueles que, de alguma forma, honraram as nossas cores.
É o mínimo.
Parabéns ao Tricolor pela iniciativa.