Cristã, conservadora, anti comunista.
Liberdade, direito a propriedade e amor ao nosso chão, não são negociáveis. acaso lhe incomode, seu lugar n é aqui!
A Consciência Histórica e o Esquecimento Deliberado
Como ter consciência histórica desprezando a própria história? A pergunta, ainda que pareça carregar em si uma contradição íntima, impõe-se com a lucidez cruel de quem observa o presente e nele descobre o cadáver ainda quente do passado recente. A dificuldade real não estaria em conservar o que se passou há duzentos anos, tempo que a pátria, em seus surtos de amnésia seletiva, já aprendeu a transformar em lenda ou em nada. O drama, aqui, é outro: lutamos, ou fingimos lutar, para manter vivo o que se desenrolou ontem, quase anteontem. Um homem de conduta ilibada, avesso aos poderosos, marginal ao sistema que o repelia, chega, por milagre ou por acidente da História, ao poder supremo. Não se passaram oito anos e já uma multidão apressada deseja declará-lo morto, sepultá-lo em vida, simplesmente porque o incomunicável permanece incomunicável.
Num país minimamente afeito à cultura, habituado à preservação do que tem densidade, um personagem de tal quilate seria matéria diária de reflexão. Justamente por estar silenciado, sua figura se imporia como enigma e lição: legado a ser interrogado, não mumificado. Seria pedir demasiado? Seria utópico? Não, se tivéssemos olhos para o que se passa alhures. Na África do Sul, a aura de Nelson Mandela resistiu intacta a quase vinte e sete anos de prisão. Não se discute aqui a sua ideologia. Discute-se a lealdade de um povo à própria memória. A estranha coincidência, que já nem surpreende, é que só os “heróis” da esquerda parecem merecer tal conservação devota. Pepe Mujica, por exemplo, passou treze anos encarcerado e nem um único dia a sua “memória revolucionária” foi deixada ao desamparo: regada, cultivada, transformada em hagiografia permanente. A direita, ao contrário, revela-se singularmente hábil em sepultar o seu herói de anteontem, na ilusão pueril de que hoje mesmo gestará o salvador de amanhã.
Aqui reside a diferença gritante. A esquerda não se atormenta com a urgência de substitutos; aceita que os seus líderes envelheçam, quase centenários, sem que o mito se desgaste, vide Fidel e Lula. A direita, por sua vez, é pródiga em novos messias: quantos não tentaram, nos últimos quatro anos, suplantar o herói de 2018? Essa febre de substituição revela o que realmente nos falta: memória. Matamos a memória a intervalos regulares, como quem cumpre um ritual bárbaro. Rompemos a corda que nos liga ao passado e seguimos, cambaleantes como bêbados, esbarrando nos muros que nós mesmos erguemos no escuro.
O herói incomunicável disse, com clareza cortante, o que deveríamos fazer e em quem votar. Disse: votem em Flávio! Ponto! Nada mais idiota, nada mais suicida, do que desrespeitá-lo agora, fingindo esquecer quem ele foi e é e o que representou e representa.
Recuperar a memória não é gesto de nostalgia: é condição de sobrevivência. Ou ouvimos o herói de ontem, ou não teremos amanhã. O resto é ruído, ilusão e a velha, a eterna, a brasileira arte de enterrar vivos os nossos melhores.