@brendasafra@atombombgirl Eu acho que sempre fomos criados pra ver o "Eu" acima de todos o tempo todo ao mesmo tempo que temos que ter vergonha do que os outros vão pensar de nós.
Faltavam quatro meses para o casamento. Seis anos namorando, um ano de noivado, tudo por detalhes.
- Queria conversar uma coisa contigo, amor - ela disse num dia aleatório.
Além de jornalista, sou fotógrafo profissional há 14 anos. O nú artístico de homens, mulheres e casais, incluindo do universo LGBTQIPNA+ são minhas especialidades. Quando ela me conheceu, eu já fotografafa. Dizia gostar do meu trabalho, elogiava as fotos, mas ficava tímida para posar. Fez uns mini ensaios, mas nunca algo completo. Tudo bem, não me incomodava.
Nos encontramos para conversar.
- Eu queria que você parasse de fotografar. Nao me sinto confortável - ela revelou após sete anos de relacionamento e com quase tudo pago do nosso casório.
Fiquei incrédulo, argumentei sobre as inúmeras vezes que a chamei para acompanhar as sessões. Ela se mostrou irredutível e usava o casamento como uma arma para me pressionar. Eu não acreditava no que estava acontecendo. Tentei acolher suas inseguranças à minha maneira, mas a diálogo piorou.
- Eu morro de vergonha quando seus amigos ou algum conhecido toca no assunto do seu trabalho. Odeio ver as fotos daquelas putas e dos viados que você exibe com orgulho! Eu nunca conto pras pessoas que você é fotógrafo, apenas jornalista.
Sete anos de relacionamento, nenhuma discussão mais acalorada até então, nenhum caso tosco de traição, tirando os primeiros meses quando ainda nem éramos namorados e nos permitamos sair com outros.
A magia de sete anos morreu em sete frases. Ou menos. Eu não recuei. Estava com um sentimento de culpa que não conseguia entender, apesar de não ter feito, dentro da minha perspectiva, algo que justificasse. Eu a amava. Ela dizia que me amava. Era tudo perfeito, não? Mas não havia respeito pelo que eu fazia, tampouco por quem se permitia contratar meus serviços. Eu estava diante do caos, encoberto pelo fogo. Praticamente tudo pago, presentes recebidos, lua de mel definida, danças ensaiadas e playlist quase fechada.
Faltando um mês, quando já tinha encerrado até o contrato com o fotógrafo do casamento, ela me liga.
- Eu refleti nos últimos tempos. A gente tem que se casar. A gente se ama. Não pode terminar assim. Eu sofro em silêncio quando você estiver fazendo as suas fotos, mas a gente se casa.
"Sofro em silêncio?". Aquilo ficou ecoando tanto na minha cabeça que parecia uma martelada infinita. Eu projetei em um minuto o que não tinha visualizado ao longo do nosso tempo juntos. Jamais aceitaria alguém que sofresse enquanto eu faço o que amo. Não fazia sentido pra mim. Era tão bobo de longe de tão profundo de perto que ouvia piadas de supostos amigos.
A resposta mais dolorosa da minha vida, até então, por um motivo que tive de trabalhar em terapias e nas mesas dos bares da vida, mesmo sem beber.
O óbvio precisa realmente ser dito. O silêncio dela sobre o que pensava do meu trabalho no início da minha carreira - aliado a minha irredutibilidade de não querer deixar de fazer uma das coisas que mais amo -, calou nosso futuro.
Ninguém morreu, mas nesse dia eu matei o amor.