Uma boa noticia que penso homenagear dizendo que o grande antropólogo baiano Antonio Risério faz escola na sua luta contra o identitarismo de certos setores das esquerdas e defesa da mestiçagem da população brasileira e miscigenação da nossa sociedade
Movimentos negam o mestiço porque veem o branco como inimigo, diz autora de 'Parditude'
Beatriz Bueno defende que miscigenação é uma potência da sociedade brasileira
Desassociar pardos dos negros representa um avanço na ideia de diversidade, diz ela
Artigo de Paola Ferreira Rosa
Editora-assistente de Diversidade, escreve sobre raça, gênero e diversidade.
A escritora Beatriz Bueno, 28, afirma que movimentos progressistas colocam o branco como inimigo supremo e, por isso, negam o fruto da miscigenação. Para ela, desassociar a identidade parda da categoria "negros" não representa um retrocesso nas discussões raciais no Brasil, mas um avanço a partir do entendimento das diferentes experiências entre indivíduos lidos como negros e os que habitam o que chama de "limbo racial".
Fruto de uma família miscigenada, ela é autora de "Parditude: Um Guia para te Resgatar do Limbo Racial" (Planeta), em que busca explicar as individualidades da experiência parda.
A autora afirma que pessoas mestiças, como escolhe falar, habitam uma espécie de fronteira, em que são "brancas demais para serem negras e negras demais para serem brancas", ainda que sejam contabilizadas pelo Estatuto da Igualdade Racial como parte dos negros, categoria que inclui pardos e pretos.
Para ela, somente a aceitação de que pardos são descendentes de diferentes grupos raciais, incluindo os brancos, pode criar uma união entre as identidades no Brasil.
Expulsa da Universidade Federal Fluminense em janeiro deste ano, Bueno afirma que "estão atacando a mensageira para empurrar a sujeira para debaixo do tapete". Neste caso, "a exclusão dos pardos das políticas públicas", especialmente por meio das bancas de heteroidentificação racial.
Segundo a pesquisadora, a maioria de seus fãs e haters não entendem o que ela diz. "Vejo pessoas apoiando e falando coisas que não falo nem defendo. É um problema contemporâneo, as pessoas não leem tanto", diz.
Um desses equívocos seria o de que ela defende o conceito de pureza racial. Para Bueno, porém, tal ideal é um mito e gera preconceitos contra os pardos.
Você identifica a existência de oito tipos de parditude, considerando desde misturas étnico-raciais até a leitura fenotípica. Mas também reconhece que o racismo no Brasil é marcado pela leitura fenotípica.
Por que misturar marca e origem ?
Crio essa categorização para as pessoas entenderem onde se encaixam. Não é uma coisa científica, rígida. Eu vi a necessidade do público de entender a amplitude da questão da parditude. As pessoas que eu cito como indiscutivelmente brancas ou negras são as mestiças que têm poucos traços ambíguos e, na sociedade brasileira, são identificadas como brancas ou negras.
A Taís Araújo, por exemplo, tem traços fortes e demarcados. No Brasil, ela não fica sendo jogada para branca, por mais que as pessoas saibam que ela tem traços de miscigenação. Não estou falando da origem, mas do fenótipo. Ela não vive o que eu descrevo como parditude.
Existem pessoas brancas que na Europa não são lidas como brancas e me procuram confusas, porque os europeus conseguem identificar esses traços; no Brasil, devido ao contexto muito miscigenado, não conseguimos.
Você classifica como "novíssimos movimentos sociais" mobilizações que discutem questões relacionadas à identidade. O que você faz é um desses movimentos?
Sim, eu sempre falo no Instagram que estou inserida numa geração. Esses estudos foram baseados nos textos do Rodrigo Perez [professor da Universidade Federal da Bahia]. Ele estuda como eram os movimentos revolucionários antes, mais focados na classe trabalhadora, como isso vai se transformando e o que tem a ver com o tempo histórico de diferentes gerações.
Eu me incluo na geração dos novíssimos movimentos sociais, a mesma do identitarismo. Me incluo nas discussões sobre o direito de definir uma identidade. Eu faço críticas à forma como os movimentos têm trabalhado, querendo definir essas classificações de forma binária. Estudei a partir do movimento negro, faço uma coisa muito parecida. Só proponho uma classificação para as pessoas mestiças que dê conta da realidade delas de forma mais completa.
Esses movimentos, na sua opinião, têm um espectro político predominante? Se sim, qual?
São tradicionalmente progressistas. O "parditude" é um movimento progressista. Sempre defendeu as políticas afirmativas e o direito das pessoas mestiças, da mesma forma que as mulheres defendem o direito das mulheres e os negros, os direitos dos negros. Eu parto da interseccionalidade, que aprendi estudando Djamila Ribeiro.
Quando as mulheres negras percebem que têm necessidades diferentes das brancas, interseccionam [gênero e raça] e criam o feminismo negro. Por décadas, elas tiveram dificuldade para explicar isso, porque as acusavam de estar separando as mulheres.
Mas o fato de entender as especificidades de uma experiência não significa que só vai aparecer mulher branca ou negra se tiver uma manifestação pelo direito das mulheres. O mesmo acontece na questão dos pardos e dos negros. Precisamos entender o que abarca, o que há em comum entre eles, e o que são as especificidades.
Quando seus vídeos furam a bolha, críticos te associam à direita, como parte de um movimento conservador. Por que isso acontece?
Porque vivemos uma polarização muito grande. O nicho progressista me coloca como uma conservadora de extrema direita, bolsonarista, enquanto os conservadores me colocam como uma militante do PSOL. Eu fico, também aqui, num limbo. Por trazer uma visão moderada, as pessoas me veem como o outro.
Relaciono isso à questão da parditude, que também se encontra numa fronteira. Pessoas brancas me veem como preta, pessoas pretas me veem como branca, e eu só estou tentando fazer justiça para pessoas pardas.
Vivi tanto isso que tento não defender candidato político. Defendo o direito de uma pessoa parda que foi negada injustamente numa banca. Isso é esquerda ou direita?
A Frente Negra Brasileira lutava contra o racismo junto com conservadores. Há divergência de opiniões, mas, assim como nos casos de violência contra mulheres e crianças, se acharmos que isso tem que ser de esquerda ou de direita, nos perdemos como sociedade.
Você fala sobre a "necessidade de autocrítica sobre as formas como se escolhe mobilizar em torno de discussões sobre identidade, para evitar fragmentações e não enfraquecer projetos políticos mais amplos de transformação social". Como vê o impacto de suas propostas a respeito da parditude?
Futuramente, discutindo a parditude, conseguiremos voltar a ter uma unidade. Acredito que, entendendo que o Brasil é um país mestiço, com as pessoas realmente mobilizadas a lutar por justiça, vamos conseguir resgatar uma identidade nacional, nos unir e parar de gerar fragmentações.
Uma crítica que faço aos movimentos atuais é que eles colocam o branco como o opressor, o inimigo supremo, e por isso querem negar o mestiço, porque o mestiço relembra que o branco pode ser a vovozinha que faz o bolo que você ama.
Querem ter o inimigo bem estabelecido, sem entender a complexidade da realidade brasileira. Acredito que, olhando para essa perspectiva, tendemos a gerar mais unidade no futuro e entender que a miscigenação é uma potência da nossa sociedade, e não uma coisa horrível, que deve ser cancelada.
Qual é o perfil das pessoas que te seguem e das pessoas que te criticam?
As pessoas que me seguem são muito diversas. Há pessoas de todas as cores, de todos os posicionamentos políticos, de diversas famílias, mas a maioria são mães de filhos pardos que encontraram o meu trabalho. E as próprias pessoas pardas.
As pessoas que não gostam também são diversas. Geralmente são esses identitários mais ferrenhos, que são completamente contra qualquer outro tipo de opinião. Se você muda um pouco a cartilha que eles propõem, te colocam como perigoso. Tem muito a ver com a censura, com a expulsão que eu tive da universidade. E aí tem de todos os perfis: pessoas brancas, pretas, pardas, todas com esse perfil de intolerância com o pensamento diferente do delas.
Representantes do movimento negro e pesquisadores dizem que você está criando um racha no entendimento de negritude no Brasil, que poderia afetar as conquistas de pessoas negras e indígenas. Por que te definem dessa forma?
Porque sou a mensageira de um problema que ninguém tem coragem de falar. Mas não sou responsável pelo que acontece. Todos os dias pessoas são rejeitadas nas bancas de heteroidentificação e vivem crises materiais, porque têm que abrir processo judicial para entrar na vaga delas. Passam por crises de pertencimento, se perguntam o que são. Tudo isso acontece, mas ninguém fala, aí parece que o problema não existe e que pardos e negros concordaram com isso.
Eu mostro que há um problema para resolver, e eles querem colocar a questão embaixo do tapete. Mas aconteceu de novo, uma mulher parda foi exonerada de um cargo do Itamaraty [em junho, ela foi readmitida pós acordo com a AGU].
Vejo as pessoas sofrendo, pensando em suicídio, porque são perseguidas nas universidades, acusadas de fraude sem serem fraudadoras. É uma confusão em que ninguém quer botar a mão, todos têm medo de ser acusados de tudo o que eu sou [acusada]. Eu entendo, porque tentaram destruir a minha vida.
O que o indeferimento de pessoas autodeclaradas pardas nas bancas de heteroidentificação diz sobre a questão racial no Brasil?
Os indeferidos nas bancas são pessoas pardas que alguns consideram de pele clara, outros consideram de pele escura, e elas ficam numa insegurança, porque o mestiço é ambíguo.
Se a banca entendesse a realidade do brasileiro e avaliasse que a cota é para o pardo, seria uma coisa, mas a banca avalia a partir do negro. Se tem uma banca de cinco pessoas, duas falam que o candidato é apto, três falam que não é, ele está fora.
Mas de onde dois avaliadores tiraram que a pessoa é apta ?
Da ambiguidade. Se não, os cinco iam falar: "É branco", e tchau.
Nos concursos públicos, o que está em jogo é a profissão de alguém que estudou anos. É um erro considerar o pardo como negro, fica abstrato. Não tem objetividade nessas bancas e vira um problema.
As histórias são revoltantes. São pessoas pobres, vulneráveis, que estão passando por uma humilhação absurda. Isso é negligenciado porque acham que discutir isso vai destruir as políticas públicas.
O que seria o perigo da pureza racial, a que você se refere?
Aí abordo hostilidades que surgem quando os movimentos progressistas reforçam a narrativa de que o mestiço estaria atrapalhando e tem que se encaixar, ou para branco ou para negro. É quando pessoas que não estão interessadas em combater o racismo, que têm uma visão superficial, militantes de Twitter, pessoas reativas, pegam essa questão para produzir o racismo contra o mestiço.
Não é o racismo que eu sofri na infância, contra características negras, mas o racismo por não ser pura. Isso é reproduzido de diversas formas. Falar que miscigenação é extermínio, ou que o mestiço é filho do estupro, expressa uma narrativas extremamente hostis e pejorativas, e uma forma de racismo. Quando as pessoas não estão conscientes, podem favorecer esse tipo de narrativa.
Você propõe "encarar a herança branca para avançar plenamente na luta antirracista". De que forma isso poderia ajudar?
Os brancos fazem parte do nosso contexto. São pais, mães. Quando alguém nega parte da sua realidade e fala "não, eu sou negro" ou "sou branco", mas é um pardo que não quer se identificar por alguma razão, não está enfrentando aquele problema tal como é.
Está num estado de negação. Para mudar as coisas, precisamos reconhecer. Eu não vejo as pessoas brancas como inimigas. Existem pessoas brancas que são ótimas. Os brancos e a colonização negaram completamente a cultura e a aparência negra e indígena. Isso aconteceu historicamente, mas ir para o outro extremo também não é a solução.
Eu acredito na integração. É claro que nela é preciso entender quem foram os escravizados, quem foram os oprimidos, e reparar isso. Mas reparar não significa apagar e fingir que uma pessoa não é mestiça para se adequar a uma narrativa que não se encaixa na realidade.
O capítulo final do livro defende que o pardo deveria ser uma categoria única. No IBGE isso já acontece, enquanto o Estatuto da Igualdade Racial une pretos e pardos na categoria "negros". Por que você propõe isso?
Essa é a proposta do "Parditude". Reconstruir essa categoria é um direito. O IBGE mantém a categoria "pardo" porque é um órgão rígido, que trabalha com ela há muito tempo, mas a pressão dos movimentos sociais era para que não tivesse mais.
Buscaram fazer essa anulação com o Estatuto da Igualdade Racial, que acaba sendo simbólica e institucional, porque o levam em consideração como se o IBGE não falasse que pardos são mestiços.
Por isso eu defendo que, se as bancas de heteroidentificação entendessem a categoria do meio, não teriam que encaixar uma pessoa parda em dois extremos. Ela não disputaria vaga com uma pessoa preta, cuja identidade não se discute. As pessoas pretas teriam seu lugar reservado. O mesmo em termos de representatividade, em que pessoas pretas se incomodam com as pardas falando que são negras. Cada um falaria a partir da sua experiência.
Isso não geraria um risco de pretos e pardos se enfraquecerem enquanto grupos raciais ?
De forma alguma. Hoje existem estatísticas distorcidas. Quando falam que a maior parte das mulheres vítimas de violência doméstica é negra, imaginam todas com características negras fortes. E a maioria é parda, porque 45% da população é parda.
Aí aquela mulher ribeirinha, de características indígenas, que não tem o fenótipo que o senso comum enxerga como negro, fica apagada. Quando há apagamento de uma parcela, não tem como gerar uma união justa. Só dá para fazer isso reconhecendo a diversidade. Se todos são respeitados e vistos, vamos nos unir de forma harmônica.
Hoje temos uma união artificial, mas, nos ambientes de convivência, a pessoa parda está sempre subordinada a pessoas pretas, vista como um negro menos negro, uma subcategoria. Isso não gera uma união legítima, gera mais visibilidade para um grupo que é minoria, enquanto pessoas pardas são invisibilizadas.
A partir do momento em que se dá visibilidade para essa injustiça e se reconhecem as diferenças, a gente consegue gerar uma união, não só entre pardos e negros, mas também com os indígenas. Para se unir, não precisa ter a mesma identidade.
Se acontecesse da forma que você imagina, os pardos que se diriam negros seriam apenas aqueles que não estão nesse lugar de dúvida ?
A gente não tem esse termo "pardo negro". Dentro do estudo da parditude, negro é uma categoria que compreende as pessoas com características predominantemente pretas. E pardo é o mestiço, a pessoa de características ambíguas —os mulatos, os caboclos. Senão você acaba mudando o significado da palavra "mestiço".
Mas aí não cai na ideia dessa pureza racial que você está criticando ?
Porque até as pessoas retintas podem ter uma mistura racial dentro da família.
Não cai na pureza racial, porque eu estou falando de fenótipo. Eu não estou falando da origem, como o movimento negro faz. A pessoa com aparência ambígua é a pessoa parda, e a que não tem ambiguidade é uma pessoa negra. Isso é [pensamento do sociólogo] Oracy Nogueira. A questão é que o fenótipo mestiço é diferente do negro e do branco. É um meio-termo.
O que estão dizendo sobre seu livro?
Confesso que gostaria de ter mais pessoas que leram o livro falando sobre ele, porque, infelizmente, o que mais tem são pessoas criticando ou apoiando sem saber exatamente o que é. Eu vejo pessoas apoiando e falando coisas que eu não falo nem defendo. É um problema contemporâneo, as pessoas não leem tanto.
@JEOVANEADODI@folha Engraçado criticar ‘parditude’ por ser um conceito inventado enquanto negritude e branquitude também são construções teóricas criadas para enquadrar relações raciais. Se o critério é ‘foi inventado’, então vale pra todos.
Quer entender como a esquerda se afastou do povo? Uma deputada federal está reclamando que "só" vai receber 2,3 milhões de reais para a campanha. E ainda usa a cartada de ser mulher trans negra para se blindar de críticas. E tem um monte de gente defendendo.
O comentário de Gabriel Fontenelle, filho de Astrid Fontenelle, sobre o apoio de famosos (inclusive a mãe dele) a Rodrigo Branco e seu pronunciamento sobre a condenação do crime de danos morais e racismo que ele sofreu por parte de Thelma Assis.