É HOJE! A Copa do Mundo vai começar e, enfim, os nossos dois guias estão completos!
- 48 Guias Históricos, com um mergulho nos principais momentos do passado e nos grandes ídolos de cada seleção, resgatando também episódios não tão lembrados assim e até aqueles personagens importantes que nunca chegaram à Copa: https://t.co/QeYYe1mDOx
- 48 Guias de Origens, com os mapas dos locais de nascimento de todos os jogadores convocados para 2026 e outras informações sobre suas raízes, como seus ascendentes: https://t.co/5JnmK5smbQ
São 270 páginas de arquivo, mais de 140 mil palavras, mais de 800 mil caracteres.
Tudo isso feito com muito carinho e esmero, após dias intensos de escrita e pesquisa. Aproveite!
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Queridos,
O Almanaque da Copa é feito pelo exército de um homem só, com muito carinho, muita dedicação e também muito suor. São horas e horas de pesquisa e escrita todos os dias.
Se você vem gostando do trabalho, por favor, ajude mais gente a conhecer. Viralizar é mais difícil quando a ideia são textos longos, mas quem realmente gosta de ler sobre futebol e de boas histórias pode curtir.
A cada dia, até a véspera da Copa, serão dois guias: o Guia Histórico e o Guia de Origens. Até o momento, sete textos de cada guia (e 14 seleções de cada) já estão no ar.
Bora fortalecer? =)
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Tricolores paulistas mais extravagantes conhecem alguém que, na arquibancada do Morumbi, afirma que o craque do time do Telê não era nem Raí nem Müller, mas Palhinha. Acho que ficou deixado pra lá o tamanho dele, de fato. Palhinha, titular e camisa 10 na Copa América de 93, fez parte ativa das eliminatórias do Tetra, sendo seu mais destacado jogo aquele contra a Venezuela, 4 a 0 no Mineirão, no qual o ataque foi formado por Valdeir e Evair - Romário seguia exilado graças a um Parreira que só muda de ideia quando falta o ar. Palhinha estava no álbum da Copa. A Panini apostou no moço de Carangola, e quer saber? Cabia bem. Faria a do Zinho com qualidade similar, mas um pouco mais ofensivo. Ele sente dor por ficar fora da festa - era ele na do Paulo Sérgio, ou do Ronaldo, ou do Viola, pela lógica.
Ele andou insinuando, em mesa de videocast, que não participou do Tetra por "trairagem e algo mais". Eu não vou me meter nesse tipo de pendenga, porque já tenho os meus próprios problemas.
Dor similar, mas mais ressentida, tem o Mozer, moço de Nova Iguaçu, zagueiro reconhecido com orgulho por usar as travas de chuteira mais altas e dispostas a assinar canelas pelo mundo. Mozer era puro vigor, saltava muito alto, pancava muito forte, mas perdeu os mundiais de 86 e 94. Em 86, teve problema no joelho, cortado sem contestação. Ele contesta o corte de 94, pois se julgava recuperado de uma lesão que ainda preocupava, e acha que, como diria Chaves, ninguém teve paciência com ele. O engraçado está em 90, única Copa que jogou - e constou devidamente no álbum. Na primeira rodada, deu uma chegada pelas costas do sueco Brolin, totalmente desnecessária, perigosa, com o selo Mozer de qualidade. Na segunda rodada, nos acréscimos, deixou o braço no rosto de Brenes, da Costa Rica, outro lance evitável, ainda mais naquela minutagem. Foi suspenso com os dois cartões, e perdeu a posição. Foi para o banco contra a Argentina. Meu tio gostava muito do Mozer, reclamou da ausência por alguns anos.
No shopping Ibirapuera, perto de onde morávamos, rolou, em 1994, a farra dos sonhos. Entrei, como um cachorro no pet shop, no hall onde, a pretexto de promover a brincadeira do "bafo" para a criançada, figurinhas da Copa eram distribuídas de graça. Eu, que não tinha o menor interesse em jogar bafo, fiquei pegando a fila quantas vezes fosse possível. Ninguém parecia se importar. Levei pra casa mais figurinhas do que conseguia carregar, lotei a bolsa da minha mãe. A Panini foi esperta e a maioria das figurinhas distribuídas era de brasileiros, de modo que me acharam mentiroso quando disse "tenho 35 Romários" na escola. Tive que levá-las no dia seguinte, porque não gostava de mentira. Romário de barba, nunca entendi aquela figurinha, diga-se de passagem. Não tem uma outra foto do atleta Romário de barba, só aquela.
O Gabriel já era meu amigo de fé irmão camarada. Acho que peguei o álbum dele emprestado e nunca devolvi. Mancada. Eu nem curtia o álbum em si, era só cobiça. Também peguei emprestado sem nunca devolver uma fita VHS com o teipe de Romênia x Suécia, mas pelo menos assisti a fita umas duzentas vezes, conheço decór os lances, pode me perguntar. Ele e o Sema, irmão dele e meu por tabela, colecionavam juntos, como bons irmãos, mas brigavam para decidir quem colaria os melhores jogadores. Pequenas pelejas engraçadas para eu, filho único, assistir. Eu não colava em álbum, nunca colei. Preferia que elas ficassem soltas, me eram mais úteis para montar times, arquibancadas, arrastá-las no tapete como uma espécie de futebol de botão. Passava horas arqueado no tapete brincando, e, quando gostava de um jogador, pimba: passava corretor de caneta, o famoso branquinho, na camisa do sujeito, e pintava, por cima, uma camisa do Palmeiras.
Como tinha umas vinte figurinhas do Palhinha, um dia tive uma ideia: pintei cada uma delas com a camisa de um time, e levei para meu avô sortear o "próximo clube" dele no meu mundo. Deu Goiás. Aí contratei Marcelinho Carioca, Caniggia, Tiba, Klinsmann, um pacotão para o Palmeiras. Foi uma boa gestão. Ganhamos até um mundial, 1 a 0 sobre o Ajax recortado de um guia da Champions, e quem achar que houve arbitragem tendenciosa, que busque seus direitos. Voltando à única coisa que queria contar. O primeiro jogo que vi ao vivo do Brasil foi naquela eliminatória do Tetra, Morumbi, 2 a 0 sobre o Equador, gol do Dunga, organizadas dos times todos na arquibancada, e o Raí foi substituído pelo Palhinha. Saudação dupla são-paulina. O tricolor excêntrico que citei no começo do texto estava atrás de mim, e, enquanto a torcida dona do estádio aplaudia ambos, ele gritava "Esse que é o bom! Esse que é o bom!", caramba, o Palhinha é que era o bom.
O Palhinha era bom mesmo, leveza pura, o jogo no pé dele saía limpinho. Se fosse inglês, tinha jogado três Copas. O Mozer também era bom, técnico inclusive, embora não gostasse muito de sê-lo, mas custava, tinha o seu risco, daria pane em qualquer cabine do VAR. Não tive a figurinha dele. Logo após perder o bonde do Tetra, Palhinha foi o vilão dos pênaltis na final da Libertadores, que seria o seu tetra. Entregou na mão do Chilavert. Até o Pagliuca pegava. "O futebol é minha vida. Hoje, eu deixei um pouquinho dela aqui", disse. Forte. Palhinha não marcou época no meu Goiás.
🇦🇷Sempre que um brasileiro falar da, digamos assim, psiquê argentina, o ponto de partida precisa ser assumir a incapacidade de acessá-la por inteiro. A gente não alcança a excepcionalidade existencial deles, talvez seja vice-versa, não me meto jamais a entender o peronismo, por exemplo, tem coisa que não dá pra assimilar sem ter uma vida lá dentro. Maradona, Messi, "aquele troço todo", como diria o professor Simas.
(excepcionalidade existencial, que cascata a minha)
Tem um texto do Jorge Valdano sobre o Messi, nunca mais achei, li na rede tantos anos atrás, escrito antes da Argentina começar a ganhar taças com o tampinha genial, no qual, mais ou menos com essas palavras, ele definia Messi como alguém que "atua pela seleção não para ser querido, e sim para ser perdoado de um crime que ele não sabe bem qual é". O Valdano é campeão do mundo em 86 e virou, depois da bola, um cronista especial, daqueles que você para e lê e sabe que, no mínimo, o cara passou um café antes de pensar no que vai dizer. Um Tostão deles. O Messi, naquela época que hoje parece outra vida, entrando em parafuso a cada desgosto com a camisa nacional enquanto tudo dava certo em Barcelona, era pauta irresistível. Você olhava nos olhos do Messi e ele parecia perguntar "o que mais vocês querem de mim? Que eu seja outra pessoa?".
Estive na Argentina na Copa América de 2011 para acompanhar a Seleção do Mano Menezes, jogos em Córdoba, quinze paraguaios pra cada brasileiro, 2 a 2, gol do Fred no fim, era o começo do ciclo que acabaria no 7 a 1. Assim que cheguei, a notícia era: "Murió Facundo Cabral". Era tipo um Belchior deles, foi baleado na Guatemala, uma pequena comoção. E tinha eleição em Buenos Aires também, e greve de lixeiros, cidade suja de santinhos. Digressões. Em Córdoba, o jornal sugeria, na manchete, um debate: "Messi é um apátrida?", assim, sem molho. Discutia-se o fato de ele não cantar o hino nacional na partida de estreia. Talvez fosse por aí o caminho do tal "crime" que Valdano mencionara. O crime de sair cedo do país, gostar de Barcelona, ter até algum sotaque de lá, não comprar as brigas que esperavam dele, etc, qual o quê: Raphael Prates diria que é tudo questão da bola entrar na casinha.
Foi podre atrás de podre pra ele, nem sempre por culpa dele, porque convenhamos: a Copa dele em 2014, por exemplo, foi muito boa. Deu Alemanha no detalhe do detalhe, e nunca faltou Messi na campanha. Quando vieram as derrotas para o Chile em finais consecutivas de Copa América, ele quis parar, acheu que era algo pessoal de Deus contra ele, destino, quis ficar na dele na Catalunha, mais precisamente em Castelldefels, aprazível bairro afastado onde construiu uma pequena Rosario de amigos, parças e familiares. Na Copa de 2018 já estreou perdendo pênalti para um goleiro islandês (não pode), e ali, na Rússia, com o Sampaoli naquele climinha, olha, ali era um poço fundo, um baixo-astral de deprimir até o mais eloquente "hincha". Ali ajustava-se, por gentileza doída, o discurso de perdão: "tantos gênios também ficaram sem Copa...".
Não é que não bancassem Messi. Na ambivalência do fanatismo, nunca faltou idolatria. Só era um pouco de carência reativa, um jeito torto de mostrar (ou esconder) amor, uma mistura de temperos que formam a tal psiquê que a gente não acessa. A caceta da bola tinha que entrar numa final. Sob o argumento de Jorge Valdano, Messi tinha um contraponto invencível pela frente: Diego Maradona não foi somente um campeão, genial, insolente, rebelde, que não coube em Barcelona, nunca pisou em Castelldefels, se achou em Nápoles e trouxe a Copa, e Nápoles, pro país. Maradona foi, acima de tudo, o homem perdoado por tudo. Má educação, noites em claro, profissionalismo duvidoso, violência doméstica, infidelidade, paternidade negada, dependência química, tiro em jornalista, todo tipo de excesso que você imaginar: perdoado. "Dessa vez o povo vai me odiar", e o povo o bancava ainda mais.
A bola do Messi, ufa, entrou em uma final. Uma semana antes, Messi atacou verbalmente um holandês em sotaque-quase-dialeto rosarino, e o som de sua voz em tom argentiníssimo, não catalão, caiu como uma bomba atômica de identidade no país que ainda o espera. "Qué mirá, bobo? Andá pa allá". Vaza de Miami, Messi, porra.
Em Córdoba, em 2011, tinha um moleque, porteiro do minúsculo hotel de estrada, Quebin Mujica era o nome dele, do moleque, não do hotel, não esqueci sei lá porquê, que me forneceu um pendrive 3G pra eu mandar textos pro Blog do Birner. Ele tinha o pé engessado, machucou jogando basquete. Uns amigos adolescentes colaram no hall, tomaram fernet. Ele torcia para o River Plate e para o Belgrano, clube da cidade. Dias antes, o River Plate foi rebaixado jogando justamente contra o Belgrano. Vexame, climão. Perguntei pra quem ele torceu.
"Para los dos. No trate de entenderlo". Eu, que não tento entender os argentinos, só os admiro perdidamente, aceitei.