Arquiteto, empresário e escritor. Articulista de dezenas de jornais e blogs em todo o país. Conservador, católico e autor de quatro livros sobre política.
UM DIA QUE JAMAIS ESQUECEREMOS
Percival Puggina
Domingo, 25 de outubro de 2026. Para o bem ou para o mal, um dia que jamais esqueceremos. Converge para ele mobilização intensa dos cidadãos. Enquanto se nacionalizam disputas locais, antagonismos nacionais chegam aos bairros. É a política em teses e antíteses tão rudimentares quanto essenciais. A realidade mostra os dentes. Utopias sacodem as nuvens onde habitam e, entre raios e trovões, regam fantasias. Há uma incerteza no ar: a história projeta a perenidade do passado ou um futuro que estende os braços para resgatar a nação dos sofrimentos do tempo presente?
Domingo tem eleição. Enquanto as horas passam em direção a ela, presenciamos o dispersivo vendaval das mentiras e a atividade febril na usina de narrativas. Uma e outra, mentiras em estado bruto e narrativas produzidas com engenhosa mistificação, nos arrastam ao inevitável dilaceramento de laços de confiança preciosos ao convívio social.
A história, contudo, tem vértices. As linhas que a orientam têm pontos de encontro além dos quais não existe continuidade sem mudança. Após esta eleição, a tirania ou tira a roupa e se assume de modo escrachado e despudorado ou cai, para que a soberania popular se afirme, a liberdade abra as asas sobre nós e a democracia seja reconstruída.
Observe a realidade destes dias. Os mesmos que tudo fazem para desacreditar a atividade política e provocar hostilidade entre as pessoas de bem e o processo eleitoral, voltam às ruas após longo e envergonhado retiro para estimular seus próprios eleitores. Tudo fizeram para impor silêncio às ruas, censurar a divergência e restringir nossas liberdades. Transformaram a rede de ensino do país em fabriquetas de militantes, emburreceram o ambiente cultural, saquearam a população por meios diretos e indiretos.
Domingo tem eleição. Não fique em casa. Quem governou o país em cinco das seis eleições deste século nos trouxe ao fundo do poço das possibilidades e a este miserável ponto de ruptura. Dê seu voto à mudança. Aposte na esperança.
* Imagem ChatGPT
LULA AFUNDOU NOS SUPERLATIVOS
Ontem, Lula afundou no estravagante mundo dos superlativos. Qualquer que fosse o tema, qualquer que fosse a região do país, qualquer que fosse a pergunta ou a resposta a retrucar, la vinha ele para perto da câmera, sacudindo os braços de modo enfático, em divórcio litigioso da realidade, proclamar que nenhum governo fez mais, nem melhor, nem mais oportunamente, nem mais eficientemente, nem mais transparentemente, nem mais virtuosamente que o governo dele. Durante duas horas, sacudiu e tirou o pó do surrado e desacreditado: “Nunca antes neste país...”. Putz!
@marcelvanhattem É bom ver gente boa querendo e sabendo exercer a representação política da sociedade. O Brasil viveu um vácuo de qualidade muito perigoso, por longo tempo.
O MURO
Percival Puggina
O muro de que vou falar não é o habitado pela mistura nada homogênea dos omissos e dos oportunistas, nem é um dos tantos em que a moçada acadêmica descarrega seu chorume ideológico. Tampouco é o trecho berlinense da velha Cortina de Ferro, atrás da qual, a partir de 1946, a Rússia capturou um pacote de desafortunadas nações outrora livres. Para quem nunca ouviu falar, vai a explicação: após duas décadas, ficou tão intenso o êxodo do lado oriental, dominado pelos comunistas e apavorado pela Stasi, que o regime soviético precisou reforçar a Cortina de Ferro com um muro dentro da cidade de Berlim. A simples mudança de CEP para o outro lado da Ebertstrasse significava a liberdade.
Tanto a cortina quanto o muro são bons temas, mas não, não é deles que vou tratar. O muro de que falo me foi sugerido por um leitor à espera da definição brasileira no próximo dia 25. Ele viu a história se redesenhar enquanto a mancha azul se veio derramando sobre o mapa da Ibero-América (até recentemente um continente vermelho). Para esse seguidor, a derrota do petismo debilitará o esquerdismo, de péssima influência na formação cultural, política, econômica e social da região. Será como proclamar a queda de um outro muro, construído pela perniciosa atuação dos partidos que se foram agregando ao grupo constituinte original do Foro de São Paulo. No pico das adesões, segundo o Google, teriam sido 128 partidos de 28 países. Em 22 deles, legendas do grupo exerceram o poder.
Gostei do tema. Logo após os jovens da Alemanha Oriental dançarem sobre o Portão de Brandemburgo festejando a queda do Muro, Fidel, Lula e outros que tais criaram o Foro de São Paulo. Em diversas ocasiões, no início deste século, tive oportunidade de conversar com o saudoso Olavo de Carvalho sobre esse assunto, a respeito do qual dizia ter herdado do amigo Graça Wagner “um colossal patrimônio de pesquisa”. Estávamos, então, nos anos 2002 ou 2003 e Olavo era acusado, pela mídia, de “teoria da conspiração” por se referir, com insistência, em seus textos e locuções, à atuação dessa federação de organismos partidários de esquerda.
Quem buscar informações sobre o movimento revolucionário nesta porção do Ocidente precisa ler o Olavo e os livros de Graça Salgueiro, Heitor de Paola e Paulo Henrique Araújo. Indo somente pelas fontes usuais, abastecidas por conteúdos da mídia, os leitores serão levados a crer que qualquer referência à organização e às suas relações com crime organizado, narcotráfico e terrorismo é mera “teoria da conspiração”, etiqueta sempre presente nas análises militantes e no marketing revolucionário.
Os piores reflexos dessas mistificações se fazem sentir no descrédito das instituições e na insegurança pública. O “camarada malfeitor” é apresentado como vítima do capitalismo e agente da política feita por outros modos; é alguém a meter o pé na porta para o ambiente revolucionário. Ele é parceiro de todos os construtores de narrativas alheias aos fatos. É companheiro, também, dos servidores públicos ativistas nas carreiras de Estado a desacreditar as instituições. Que o plim-plim das máquinas de votação nos mantenha atentos para as responsabilidades desta hora.
TANTAS FIZERAM QUE AGORA TANTO FAZ...
Percival Puggina
O que as urnas de outubro tornaram conhecido, na operosidade das máquinas, não é diferente do que vimos nos longos corredores e filas de votação, Brasil afora. Era o povo, consciente de que seu voto deveria proclamar um basta! Era necessário e só o povo poderia efetivá-lo, jogando a água fria das urnas nas quatro patas de barro do poderoso belzebu: sigilos, silêncios, censura e sanções.
“Supremo é o povo”, proclamavam algumas faixas em recentes manifestações. Naquilo que chamei de “supremo tribunal do cidadão e sua consciência” era impossível não sentir – em cada zona eleitoral, seção de votação ou cabine – as teclas sendo digitadas para expressar a convicção de um eleitor proferindo, democraticamente, seu veredicto. Do lado oposto, sentavam-se pessoas de carne e osso, indivíduos reais, sendo julgados pelos próprios excessos cometidos no manuseio do tabuleiro político. Nunca antes presenciei algo assim.
Aquela eleição, a já histórica eleição de 2026, apenas num viés secundário julgou políticos, parlamentares e governantes. Em sua essência, julgou julgadores! Julgou juízes. Julgou votos monocráticos. Julgou precedentes e jurisprudências. Julgou casos reais, injustiças reais, abusos reais. Julgou blindagens e casuísmos, julgou inquéritos sem fim neste mundo. Para salvar o futuro, julgou o passado.
Tantas fizeram os autoproclamados “supremos”, que agora tanto faz: de livre vontade, ocuparam o epicentro de um imenso universo de decisões e consequências. No dia 4, todo voto popular arrastava consigo uma convicção sobre – digamos assim – os excessos de autoestima e as estratégias políticas majoritárias no Supremo Tribunal Federal destes últimos anos.
O poder, seja qual for seu tipo ou fonte, quando escapa dos controles usuais, se torna uma droga a exigir overdoses crescentes. Uma vez construída a narrativa era preciso seguir em frente. Quanto mais instáveis se revelassem seus fundamentos, mais recorrentes eram a coerção, a imposição do medo e as violações de direitos humanos. Infelizmente, vimos isso acontecer e, assim, qual patas do cavalo de Átila, a brutalidade foi deixando vítimas pelo caminho. Os autores, calorosamente aplaudidos em ambientes fechados, mal podiam sair às ruas. Daí os jatinhos, como cobiçados meios de transporte. Daí o conforto da hotelaria internacional, como aprazível lugar de estar. Daí as derrotas políticas que o dia 4 de outubro, simetricamente, impôs aos controladores dos ambientes controlados.
Os meios de Inteligência Artificial disponíveis ao usuário brasileiro não têm registro histórico de anomalia semelhante à que aconteceu no Brasil. Ministros de uma Suprema Corte ou Tribunal Constitucional assumindo o protagonismo do jogo político, atropelando preceitos, códigos, regimentos e legislação consolidada no país? Impondo obediência aos poderes políticos do Estado com o intuito de preservar o próprio poder de mando, se auto proteger e se blindar? Não, isso só no Brasil.
Eis aí outra exclusividade nacional, punhado de jabuticabas, colhidas na safra de 2026, para Lula levar a Trump em próxima visita.
ABRIDO MEU VOTO
Relaciono, como sugestão pessoal, os candidatos nos quais votarei aqui no Rio Grande do Sul e acrescento outros a quem conheço pessoalmente e nos quais também poderia votar se mais votos tivesse a dar:
Presidente – votarei em Flávio Bolsonaro (22)
Governador do RS – votarei em Luciano Zucco (22)
Senado Federal – votarei em Marcel Van Hattem (300) e Ubiratan Sanderson (222)
Deputado Federal – votarei em Felipe Camozzato (3030) e também poderia votar em Fernanda Barth (2210), Osmar Terra (2215), Maurício Marcon (2277), Felipe Pedrí (2228), Jesse Sangalli (2230), Tiago Albrecht (3026), entre outros.
Deputado Estadual – votarei em Ramiro Rosário (30000)e também poderia votar, entre outros, em Giuseppe Riesgo (30500), Guilherme Pasin (11333), Marcus Vinícius (11211), Samila Monteiro (30222), Comandante Nádia (22190), Professor Claudio Branchieri (22777), Rodrigo Cassol Lima (22321), e Matheus Ayres (11500).
O castelo de cartas marcadas
Percival Puggina
* Para publicação nos dias anteriores à eleição de 4 de outubro, o jornal Poder 360 pediu a alguns autores que respondessem à pergunta sobre em quem votariam para presidente e por que o fariam. Meu artigo foi publicado na edição do dia 30 setembro, sob o título “Por que votarei em Flávio Bolsonaro”. O texto abaixo, sem o primeiro parágrafo ambientado em dias anteriores à eleição, reproduz, na íntegra, o restante do artigo e é inteiramente aplicável ao atual momento político.
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Flávio Bolsonaro tem o mais vulnerável adversário que um candidato a presidente gostaria de enfrentar. Qualquer cidadão que preze a Liberdade, a Justiça, a Ordem, o Progresso e a Segurança percebe que Lula, ao longo de sua extensa carreira, nada fez para preservar esses bens pelos quais todo indivíduo sensato tem apreço.
Num curto lapso de 27 anos, o partido que comanda busca a sexta vitória em sete eleições presidenciais havidas neste século. Isto não é produto do acaso. Sem jamais ter lido Nietzsche ou Heidegger, Lula intuiu ou alguém o ensinou que a destruição das estruturas de sustentação de uma sociedade é o melhor meio de dominá-la. Ele nunca escondeu seu sonho de obter e preservar o poder mediante tais instrumentos. São evidências disso:
- A asfixia da Liberdade: A autonomia do indivíduo é constrangida pelo cerceamento da expressão e pelo controle cirúrgico da informação;
- A instrumentalização da Justiça: Os tribunais são convertidos emextensões políticas do Estado, gerando ativismo ideológico e o colapso da segurança jurídica;
- A sabotagem da Ordem: A convivência pacífica e a estabilidade social são tratadas como inimigas estratégicas a serem combatidas;
- O desinteresse pelo Progresso: A prosperidade econômica e o bem-estar são travados para manter os cidadãos dependentes de assistencialismo e reféns do voto de cabresto;
- O colapso da Segurança: O anseio por paz pública não pode ser viabilizado por um corpo político revolucionário que precisa do caos para justificar sua própria existência.
A receita que abastecerá o poder no futuro é a mesma que define o poder no presente. Quanto piores forem as condições de vida numa sociedade, maior será o espaço que ela franqueia a discursos messiânicos e práticas revolucionárias que criam a fome para prometer pratos de comida.
A flacidez da democracia brasileira é produto semipronto da destruição planejada. O voto na oposição não é uma escolha partidária, mas uma barreira democrática, política e moral. Por isso, darei meu voto na candidatura que se revela capaz de antagonizá-la para que se promovam, aqui, as recomendações do Promotor de Justiça Robert H. Jackson no Tribunal de Nuremberg: “O bom senso da humanidade exige que a lei não se limite a punir crimes menores cometidos por pessoas comuns. Ela deve alcançar também aqueles que detêm grande poder e dele fazem uso deliberado e concertado para desencadear males que não poupam nenhum lar no mundo”.
Isso, Lula nunca fez nem fará. Nem ele, nem Hugo Motta, nem Davi Alcolumbre, nem metade do STF, nem a PGR, nem a Faria Lima, nem a falsa intelectualidade brasileira. Só o eleitor o fará, votando no candidato que pode derrubar o castelo de cartas marcadas.
@CleberBenvegnu@zucco Queridos amigos! Orgulho de vocês! Parabéns pela espetacular vitória. O bom povo do Rio Grande entendeu a mensagem de salvação do Estado e da União. Ontem, quem prestasse atenção ouviria a voz do Senhor da História.
Parabéns, querido amigo. Parabéns a ti, ao Zucco, à equipe da Critério e ao bom povo gaúcho que majoritariamente percebeu a necessidade de preservar a liberdade, a democracia e os valores que marcam nossa cultura e nossas tradições. Ontem, quem prestasse atenção ouviria a voz do Senhor da História.
Eleitores pela “omelete” ou pelos “ovos quebrados”?
Percival Puggina
Para mim é difícil – sabem? – abrir o jornal e ler a recentíssima pesquisa sobre a eleição presidencial. Com 95% de certeza, a instituição que a elaborou reforça constatações anteriores: cerca de metade do eleitorado brasileiro permanece desatenta à necessidade ingente, urgente, intransigente e diligente de resgatar o Brasil do bordel institucional por onde se perdeu na licenciosa noite dos tempos.
Algumas dessas pessoas eu as conheço bem. Debati com elas e sei que, com raríssimas exceções, acordam diariamente para a mistificação. Antes mesmo das redes sociais e dos “influenciadores digitais”, sua fonte era a “cartilha”, expressão aplicada no século passado a boletins partidários contendo orientação para o debate sobre os temas do momento político. Outras, urram e zurram no meio acadêmico quando alguém de seu desagrado vai usar a palavra. São zeladoras incondicionais do sistema parceiro que opera o poder de Estado. Há dezenas de milhões de cidadãos brasileiros vítimas dessa malícia. São ovelhas pastoreadas por lobos a que sequer reconhecem como lobos e aos quais seguem com a docilidade dos realmente inocentes.
Por fim, também votando pela continuidade do que temos aí, há outros muitos milhões, que já entenderam tudo. Sabem chamar o lobo de lobo e o pastor de pastor. Mas entregaram aos lobos sua liberdade e seus votos, sua dignidade e sua honra. Eles sabem dos presos políticos, eles ouviram minúcias sobre o buffet de interesses em torno dos quais são trocadas unhadas retóricas e puxões de cabelo dialéticos. Eles sabem de precedentes criados com os cotovelos, de inquéritos abertos sobre o quadríceps femoral (aquele conjunto de músculos da parte frontal da perna) e de preceitos constitucionais lidos com o tradutor digital das conveniências volúveis.
Mesmo cientes de tudo, eles não se importam! Não se importam com o calvário de Filipe Martins, com Alcides Hahn, doador de um Pix de 500 reais à caixinha de um ônibus que foi a Brasília no 8 de janeiro e virou “mega financiador” do episódio, condenado por cinco crimes a 14 anos de cadeia e multa milionária... Esses eleitores não se sentem ofendidos com o caso de Clezão, que morreu desatendido porque pessoas morrem nas cadeias – certo? Sabem da Débora do Batom, sabem dos refugiados que padecem em algum cativeiro menos indigno, pelo qual optaram por prezar a própria liberdade. E sabem que todos eles – todos eles! – são injustiçados, maltratados, ovos quebrados para que o poder se alimente de uma narrativa sem pé nem cabeça.
E querem manter isso aí? Optam pela mão do Estado, transformado em carrasco, não importa quantos sejam desumanizados para que isso aconteça? Votarei pelas vítimas, pelos ovos quebrados.
MUITAS VITÓRIAS PARA O BEM DO BRASIL
Durante as duas últimas semanas, Mariza e eu estivemos em breve viagem de férias. Estamos casados há 57 anos, graças à paciência dela e às bênçãos de Deus. Cumprindo compromisso previamente assumido, não escrevi uma linha sequer durante período. Mesmo lendo assiduamente as notícias daqui, resisti ao desejo de expressar o que penso da vexatória baixaria em que foram jogadas as instituições da República.
Foi um breve intervalo, necessário e restaurador de energias revisitando as fontes da cultura que herdamos. A partir de agora, me incorporo à arremetida final desse esforço comum. Move-me, exclusivamente, o anseio cívico e democrático de sensibilizar cidadãos em número suficiente para oferecer um novo Brasil às mãos do Senhor da História.
A PENEIRA, O TRIGO E O JOIO
Percival Puggina
Durante séculos, as peneiras foram utilizadas para separar o trigo do joio que o acompanhava nas colheitas. Bem mais recentemente, quando a política se tornou sensível ao consentimento das multidões, as velhas peneiras, agitadas em discurso, passaram a ser usadas para obscurecer o sol dos fatos.
Nestes casos, elas funcionam como uma espécie de último recurso, que como bem sabem os advogados, ainda é um recurso. Vá que cole. E muitas vezes cola mesmo, contando com a saliva dos discursos, a credulidade dos ingênuos, o companheirismo dos companheiros, o marketing dos marqueteiros e com aquele jornalismo que divulga a notícia sem sequer espiar os fatos, esses ofuscantes inoportunos, desde a janela da redação.
A semana foi marcada pela vigorosa incidência da luz solar dos feitos, fotos e fatos sobre as instituições nacionais. As 218 páginas do relatório da PF foram suficientes para fazer carne de sol dentro de um frigorífico. Já no horizonte, ele continuou incendiando o cenário quando o presidente do Senado Federal, interpelado, rotulou como anormal haver tantos pedidos de impeachment de ministros do STF. Para Alcolumbre, anormal era isso e não os eventos que motivaram tais arrazoados, nem sua obstinada decisão de não colocar em tramitação unzinho sequer dos 109 documentos de denúncia por crime de responsabilidade apresentados à Casa que, com sua fisionomia lenhosa, ele preside.
O sol ainda ardia no horizonte quando um fotógrafo abelhudo capturou a cena: finda a sessão do pleno do STF sem que o fato mais grave da história do Judiciário brasileiro fosse sequer mencionado – haja peneira! – quatro ministros, às gargalhadas, divertem-se com algo. Não importa o motivo, não era hora de piadas. A cena está menos para o Baile da Ilha Fiscal seis dias antes do golpe contra a Monarquia e mais para Nero dedilhando as cordas de sua cítara ante o incêndio de Roma, pois tampouco aquela era hora de lazer! Desconcerto inqualificável. Síntese perfeita de realidade deplorável.
Ao longo deste século, enquanto se ia consolidando a maioria de indicações petistas para vagas surgidas no Supremo Tribunal Federal, um pingo de discernimento permitia antever que o ativismo e a politização iriam corroer aquele organismo, levando junto a instituição. Isso integra a própria natureza da ideologia que se foi tornando dominante. É como as raízes que entrelaçam o joio ao trigo. Uma instituição, qualquer instituição, merece esse nome se, e enquanto tiver uma chancela de consentimento que vem do passado, concedida a algo virtuoso; se for reconhecida como parte do bem comum e anterior e superior à própria norma que a instituiu.
Para esclarecer melhor: a instituição não está às gargalhadas. Ela deplora e chora. Chora e deplora porque acreditou em leis que nascem da representação política, e assim, ao cumpri-las, o cidadão não reduz sua dignidade pois está obedecendo a si mesmo. Quando os órgãos que operam essas duas instituições se autodestroem ou corrompem, o cidadão vê crescer a própria responsabilidade em separar o trigo do joio na eleição que tem pela frente.
@sensoinc O pior de tudo, Flávio, é o motivo real de todo esse deboche em relação à necessária juridicidade da atividade judicial e o fato de que para tantos a vida segue sem um minuto sequer de reflexão sobre o significado da própria omissão e ausência de compaixão.