introdução: quando eu cheguei aqui em sp
veio uma novinha em cima de mim e falo assim
xucreza vc é gostosin
to doidinha pra sair cntg
baranga.png :/
turning point: *ela me inspirou a faze uma canção*
clímax: "cocota feia p caralho..."
Deus Ex Machina: 8==✊️=D💦
mcq:
Acho que o ponto nem é este.
Memorização é uma parte importante do aprendizado, principalmente quando se trata de poemas e versos tão ricos quanto os da Ilíada. Ela, inclusive, era tradicionalmente utilizada para educar crianças no mundo grego.
A questão é que quando vemos resultados como o desta menina tendemos a ficar ou impressionados ou escandalizados e perdemos completamente o ponto. Em vez de questionar se a criança entendeu ou se o método funciona, prefiro investigar de onde vem, afinal, a possibilidade de uma cena como essa existir.
Assim sendo, ao meu ver, alguns caminhos se abrem.
Primeiro, ou todas as crianças são realmente capazes de algo semelhante, e só deixam de consegui-lo porque o sistema educacional as atravanca. Bastaria, portanto, aplicar o mesmo método em massa para colher resultados idênticos (ou muito próximos, dado a diferença natural que existe entre cada criança).
O problema disso é que a própria ideia de um método único, replicável em qualquer canto, ignora a dimensão concreta de onde a educação acontece. Penso primeiro na escala. O Brasil tem proporções continentais, e a criança ribeirinha do Amazonas, a filha do agricultor do agreste e o menino da periferia de São Paulo habitam mundos cujas urgências mal se tocam.
O homeschool inclusive parte da premissa de que cada criança é dotada de inclinações e ritmos próprios. Toda a sua força reside justamente nisso, no acompanhamento individual, feito sob medida para aquela alma específica e para nenhuma outra.
Quem aponta para esta menina recitando Homero e conclui que bastaria espalhar o mesmo método por toda parte comete um curto-circuito de raciocínio. Ele toma como modelo universal aquilo que (por suas próprias premissas) só existe enquanto exceção.
No instante em que virar política de massa, replicada de forma idêntica para milhões, deixa de ser ensino domiciliar e se converte naquilo mesmo que pretendia superar, ou seja, a escola padronizada - com todos os defeitos que lhe são próprios.
E existe algo ainda mais problemático.
Toda educação pública nasce voltada para as necessidades da pólis.
Mesmo a educação grega - tão rica que era nos assuntos humanos - formava o cidadão segundo aquilo que a cidade esperava dele. Ocorre que a nossa pólis difere por inteiro daquela. A pólis contemporânea é o mundo capitalista, e a escola que dele brota foi pensada para servi-lo. Logo, esperar que a educação pública produza recitadores de Homero significa cobrar dela algo que escapa por completo à sua finalidade.
Aliás, as projeções atuais estimam que cerca de setenta por cento das competências profissionais se transformarão até o final desta década por efeito da automação e da Inteligência Artificial. A escola então corre atrás de habilidades técnicas (e suas devidas virtudes) para se adaptar às novas exigências, o que é justamente o avesso do tempo lento e contemplativo que a Ilíada exige.
Só que mesmo com todos estes defeitos, ainda precisamos de um ensino público universal. Existem coisas que poucos conseguem prover sozinhos, e a educação figura entre elas.
Inclusive, parte essencial da razão de existir da escola pública é a diminuição do fosso que há entre ricos e pobres.
A educação é um dos principais meios para promover a mobilidade entre gerações e onde o investimento público em educação ganha caráter progressivo (qualitativo, não apenas quantitativo, ok?), a mobilidade social tende a crescer.
A menina recitando Homero é bela, e o trabalho por trás disso merece admiração. Reconhecer este fato, porém, jamais deveria nos conduzir a desprezar a escola pública como instituição falha e dispensável. Ela falha, sim, como falham a saúde e a segurança, e mesmo assim proporciona aquilo que incontáveis famílias sozinhas seriam incapazes de prover.
O sistema público também tem suas virtudes, tais como a socialização, a convivência cultural e o contato diário com a diferença. Penso, aliás, que esse último ponto é o mais subestimado de todos. A criança que cresce no ensino regular convive, desde cedo, com colegas vindos de origens, classes, crenças e temperamentos os mais variados.
E os indivíduos - como bem demonstra Nassim Taleb - tendem a crescer e se fortalecer ainda mais quando expostos à volatilidade e à desordem. Taleb chega até mesmo a sustentar que fragilizamos a própria educação ao protegê-la em excesso, suprimindo a aleatoriedade que a tornariam melhor.
Falo por experiência própria, porque eu mesmo colhi cada um desses benefícios.
Passei a vida inteira no ensino público, até mesmo numa das piores escolas da região. E apesar de tudo, tornei-me ainda assim apaixonado pela literatura clássica, pela filosofia, pela arte, pela história, e por aí vai.
Hoje tenho um filho de quatro anos, e oferecer a ele o ensino domiciliar está fora do meu alcance, ainda que eu admire profundamente a possibilidade de personalizar o aprendizado.
Mas não carrego isso com a menor culpa.
Primeiro porque gosto da ideia de estimular nele o pensamento divergente - que questiona e não apenas aceita. Quero que ele cresça capaz de resistir ao atrito sem medo, sustentar uma ideia e, no instante seguinte, virá-la do avesso ou apresentá-la de outra forma porque as condições e as pessoas a quem ela se dirige mudaram.
Penso que quanto mais matérias-primas ele acumular, mais combinações inéditas poderá criar diante de um problema ou situação que ainda nem existe. E num tempo em que as profissões nascem e morrem em poucos anos, importa menos acumular respostas e importa mais aprender a aprender e a continuamente se reinventar, transitando entre tantos mundos quanto for necessário transitar.
Talvez eu sacrifique um pouco de conteúdo que eu poderia dar a ele, reconheço. Mas ao mesmo tempo percebo que essas perdas são justificadas quando vejo seu progresso e percebo o quão curioso, diplomático, espontâneo, aventureiro e resistente à aleatoriedade, ele vem se tornando.
Este inclusive, é o verdadeiro propósito de toda educação. Menos um acúmulo de conteúdos e mais um modo de estar no mundo.
@iriskawamorita me diverti tanto com as palavra desse tweet até ler que mandou mensagem p **
💯 maldadi véinha chapow o globo
vai pro canto refletir sobre oq fez