🚨 | FEZES, ABSORVENTES SUJOS E ASSÉDIO MORAL NO FLUMINENSE
"Nascida para ser faxineira": ex-funcionária relata humilhações e falta de EPIs na limpeza do clube
Imagine um atleta profissional entrando em campo sem chuteira ou caneleira. Um árbitro sem apito ou um goleiro sem luvas? Pois bem. Se os rumos do futebol nacional fossem comandados pelo Fluminense, essas cenas talvez virassem corriqueiras. Assim era, segundo a ação trabalhista, a vida da auxiliar de serviços gerais Ellen Azevedo da Silva, de 25 anos, que trabalhou no clube entre maio de 2024 e outubro de 2025. Relatando falta de equipamentos de segurança, exposição à insalubridade, aumento da carga horária de trabalho e assédio moral, ela processa o Tricolor em R$ 67.287,39 e jogou as merdas no ventilador numa ação duríssima.
Não havia nada fornecido pelo clube, segundo a trabalhadora. Materiais como luvas de proteção, calçados de segurança, óculos de proteção e avental impermeável não passaram perto da moradora de Belford Roxo. E não é mimimi. São equipamentos básicos para quem trabalha diariamente exposto a riscos químicos e biológicos. Aliás, essas são algumas das obrigações previstas na segurança do trabalho, entre elas a Norma Regulamentadora nº 06, a NR 6, que trata justamente dos equipamentos de proteção individual.
Durante o período em que trabalhou nos banheiros, inclusive da área da piscina, Ellen afirma que lidava diariamente com as situações mais insalubres possíveis. Higienizava entre oito e dez banheiros, manipulava produtos como cloro e desinfetantes e recolhia lixos contendo dejetos humanos, absorventes sujos de sangue e outras sujeiras que dispensam qualquer esforço maior de descrição. Tudo isso, segundo a ação, sem os equipamentos necessários para protegê-la.
E a sujeira, de acordo com o processo, não parava nos banheiros. Contratada para trabalhar na escala 12x36, das 9h45 às 22h10, ela alega que teve a jornada constantemente extrapolada e chegou a trabalhar até mesmo em dias que deveriam ser de descanso, sem a devida compensação. Por isso, cobra horas extras, adicional noturno, hora noturna reduzida e adicional de insalubridade. Tudo isso num período em que recebia salário-base de R$ 1.712 por mês. A maior parte da conta cobrada ao clube vem justamente das horas extras e seus reflexos: R$ 39.084,84. Subsidiariamente, o processo aponta R$ 21.055,82 em razão do excesso após a 12ª hora. O adicional de insalubridade, com reflexos, é calculado em R$ 14.601,93.
A parte mais nojenta dessa história não está no lixo, no sangue, nos produtos químicos ou nos banheiros que Ellen precisava limpar todos os dias. Está na forma como ela afirma ter sido tratada.
Conforme a ação, a trabalhadora era constantemente minada por seu superior hierárquico, ouvindo frases como “você nasceu para ser faxineira” e que, “devido à sua postura, merece apenas exercer essa função”. As palavras iam além do âmbito profissional. Pareciam uma tentativa de reduzir a pessoa ao tamanho que alguém julgava conveniente. De esmagar a autoestima de uma jovem e lembrá-la, na marra, do lugar que aquele superior achava que ela deveria ocupar.
No dia da demissão, o roteiro relatado no processo consegue ser ainda mais degradante. O coordenador teria esperado Ellen trocar de uniforme para comunicar sua dispensa e, nervosa e emocionada a ponto de tremer enquanto assinava a rescisão, ela afirma ter ouvido risadas de deboche. Em seguida, o comando: “para de tremer, menina”.
É por esses episódios, narrados como constrangimentos praticados diante de outros funcionários e ofensivos à honra, à dignidade e à integridade psicológica da trabalhadora, que Ellen também pede indenização por danos morais de R$ 4.638,40.
Além das verbas referentes à jornada, à insalubridade, ao adicional noturno e aos danos morais, a ação inclui R$ 8.776,62 em honorários advocatícios sucumbenciais. A audiência foi marcada para o dia 18, às 11h, na 72ª Vara do Trabalho do Rio de Janeiro, no Centro da cidade.
Naturalmente, caberá ao Fluminense apresentar sua defesa e à Justiça analisar as acusações, provas e argumentos de ambas as partes. Mas, se o que está descrito nessa ação encontrar respaldo no processo, o caso expõe uma contradição de dar ânsia de vômito. Procurada, a assessoria institucional do clube, por intermédio do assessor Marcelo Ahmed, preferiu não se manifestar a respeito do tema.
Um clube que movimenta milhões, discute cifras gigantescas, contrata jogadores, celebra receitas e projeta grandezas não pode, em hipótese alguma, tratar como detalhe aquilo que deveria ser elementar: dar condições mínimas de segurança e dignidade a quem trabalha para manter suas estruturas de pé. Ellen passou mais de um ano limpando a merda dos outros praticamente desprotegida.
No fim, o pior cheiro que um caso desses pode propagar é o de uma injustiça.
📸 | Imagem feita por IA