JUSTINO HANDANGA...
Tal como cantamos e dançamos as músicas do ocidente sem entender uma palavra sequer, Justino Handanga, nosso angolano, logrou esse feito atingindo vários outros angolanos não falantes do umbundu.
As pessoas choraram com a profundidade das letras, representadas em cada verso na lembrança das suas dores, forçadas pelo abandono do contexto. Nos ambientes sóbrios ou ébrios, o consenso era a reflexão.
O amor pela Paulina, que que se queixava aos mais velhos em ENE AKULU que se tornou órfão, e por isso cantou TWALIYEYA para lamentar que tornou-se um Homemzinho em NDIKALUME, sendo que partiu as pernas em NDATEKATEKA mesmo tendo recebido a carta em SETEMBRO que lhe avisava óbitos que o encontraram de mãos atadas por causa da morte de Kamoko, uma vez que a mulher que ela mais amava não sabia cultivar em UFEKO NDISOLE, e ele sabia que no país dos outros o contexto era diferente, tanto que em Angola os mais velhos começaram a sentir saudades do colono por causa do sofrimento cantado em KOLOFEKA, pois a saudade que apanhava da terra o fazia beber e chorar muito em ONGEVA, mas soube reconhecer que a paz que tanto se quis chegou... em OMBEMBWA, pois Suku kalembwi cimwe (Deus nada "desconsegue")... oh Justino!
Num país em que a arte e o artista são remetidos à mendicidade, Handanga angolanizou-nos sem se luandizar. Cantou as nossas dores na kizomba e na sungura, e nos fez dançar chorando, porque nossos povos não ficam parados no lamento.
Encontramos em Justino, a referência mais próxima da idiossincrasia sonante que andou escondida na cobardia dos privilegiados que nos podiam representar. A representatividade de Justino Handanga é orgânica, é unânime e por isso, a sua obra fala por si.
Minhas lágrimas não são suficientes para chorar a pessoa... só posso agradecer ao artista por não ter passado despercebido em vida e apresentar-se a mim como a minha maior referência musical nesse país. Mas no colectivo é nossa pertença. Cantou para nós, cantou para Angola e por Angola!
Um dia sento e escrevo para descrever o homem, a pessoa e o artista como deve ser, porquanto carregou para nós a união das nossas dores, na melodia da sua voz, com a harmonia dos seus lamentos e na dor das nossas danças.
Vai em paz, Kota... Muito obrigado pela tua vida! Muito obrigado pela tua existência...
Lalapo ukwetu, lalapo ciwa!
Boa noite, primo Das Mangas!?!
- Boa noite, primo Kasikote.
E essas passadas?
-Passamos bem. Somente vós?
As crianças estão a comer e peidar.
- Boas. Significa que está tudo bem.
Exacto correcto.
Oh primo!?
- Primo?
Estou a te ligar pra te convidar pra vir nos visitar.
- Quando, primo?
Você já é só que sabe. Mas aqui estamos tudo preparado.
- Vou programar e passo por ali.
Mas vem rápido. Agora nós já temos condições, primo.
- Condições?
Sim. Compramos colchão, colchão de mola. Não vai te doer mais as “escostas”.
- Parabéns, primo.
É um colchão bonito, casal. Tem mola e cuia saltar lá. Algumas vezes eu e a tua cunhada brincamos lá, mas guardamos mesmo para as visitas. Nós estamos ainda a dormir na esteira. Até que conseguirmos o nosso colchão. Esse é mesmo só das visitas. 🤦🏾♂️🥵🥵
Todo gajo que já trabalhou numa Konica, sabe como é que os nossos “empregadores” vietnamitas nos tratavam.
Mas eu calhei com um vietnamita fixe. Me fazia sofrer, mas muito muito muito não. Aliás, foi lá onde eu apanhei tuberculose.
Almoçar bolacha de água & sal com gasosa, era uma drena.
Quando eu comecei aprender o básico da língua deles, o meu HO SI LÛC passou a partilhar um pouco da carne de porco que ele comia.
O salário era pago no último sábado de cada mês, já que trabalhavam-se 6 dias por semana…
O meu salário era de 3.500 kwanzas… quando não me descontavam…
Quando o kumbu caía, aquilo era golo. Me dava já de comprar um ka kg de arroz no mbanji, uma lata de leite, um ka pacote de massa e pra meter a vengó alegre… e o resto eu bazava com ele na praça… na boutique CU NO AR, eterno manancial das nossas kalinas ou uns pisos de mil kwanzas.
Eu nunca fui de guardar roupa, txee. Aquilo era comprou e vestiu. A vida do angolano é incerta. Ainda vais só comprar roupa, depois kubas sem vestir e no teu tambi as pessoas vão dizer: EH, ELE JÁ ESTAVA A SE DESPEDIR. ATÉ COMPROU A ROUPA DELE QUE IA VESTIR NO CAIXÃO. 🙄🥵😂 NÃO… Aqui é comprou, vestiu. Não espera o natal… porque natal é todos os dias.
Mas nem sempre era roupa, claro. Aliás, a maioria das vezes o dinheiro era canalizado para várias outras coisas.
Então, eu sempre fui de repetir roupas. Mas quando é pra me mimar com as minhas calças novas e os meus bibis, eu não poupo nos farrapos.
Mas um dia, num sábado, o espírito santo me disse: Filho Nelo, hoje vai no kadespacho e se paga lá uma camisa e vai nos ensaios.
Fui a cheirar o melhor perfume do mundo, aquele que já vem com a roupa do fardo. 😂😂
Me pus no caminho… 👌🏾❤️❤️
Eu estava a me sentir muito bonito e bem cheiroso… 👌🏾 Quando cheguei na igreja, encontrei ninguém estava, porque não haveriam ensaios. 😭😭😭 Me doeu bué… porque naquele dia eu queria me mostrar que tinha roupa nova. 😭😭😭