Visconde de Cairu foi, segundo Alceu Amoroso Lima, não o "primeiro liberal brasileiro", mas o fundador da reação católica ao liberalismo nas Américas:
"Se Adam Müller foi, na Europa, o iniciador dessa grande corrente da Economia Social moderna de fundamento moral, de que Leão XIII ia ser a expressão máxima no fim do século XIX, -- foi o Visconde de Cairu seu primeiro representante em toda a América.
É certo que Cairu partiu de uma confessada subordinação aos ensinamentos do que ele chama "os triúnviros da Economia Política" - Smith, Malthus e Ricardo. Seu pensamento profundamente católico, entretanto, impediu-o de cair no mecanicismo econômico e levou-o, ao contrário, a fundar a Economia na Ética, a reconhecer a primazia do fator intelectual e humano sobre o determinismo dos valores materiais e a conceber a Economia como a ciência da riqueza coletiva, e não individual. Esses três fundamentos da sua doutrina econômica o colocam na própria linha da economia social expressa na Carta do Trabalho, de Leão XIII."
(Discurso no I Congresso Brasileiro de Direito Social, 1941)
Acerca da leitura de Aristóteles, o professor Olavo comenta no COF 011:
"É aquele negócio da leitura muito lenta, onde você vai ler dez linhas, um ou dois parágrafos por dia e então vai botar o seu imaginário para funcionar, até que cada uma das idéias abstratas que está ali se transforme em exemplos vivos e concretos que você possa reconhecer como se estivesse sonhando com aquilo.
Não só o livro do Aristóteles serve para isso, mas ele é um autor que somente pode ser lido assim. Não há nenhuma outra maneira de ler Aristóteles, porque todos os seus textos que nos chegaram são resumos de aulas, e isso quer dizer que, na aula, ele dava muitas outras coisas além daquilo que estava escrito nos livros. Como o esquema da psicologia cognitiva de Aristóteles consiste na descrição da sucessão de transformações dialéticas que o conhecimento passa desde a apreensão pelos sentidos até a abstração; então é claro que ele conhecia todo o trajeto que existe entre a percepção sensorial e a atividade da inteligência; e é claro que ele, como professor, sabia operar essas transições, que são exatamente o que nós estamos falando aqui.
Se você ler Aristóteles sem fazer esse exercício, você jamais saberá de que ele está falando. Saberá apenas a estrutura verbal com a qual ele condensou aquilo. Os textos de Aristóteles exigem essa abordagem, e foi justamente ao tentar lê-lo, há trinta anos atrás, que eu pela primeira vez percebi a necessidade absoluta de fazer isso. Eu falei: "isso aqui não dá pra você ler batido". Também não adianta você fazer um esforço intelectual, porque você não tem em cima de que fazer este esforço, então você vai ter de preencher isto com o seu imaginário. Por exemplo: quando, na Metafísica, Aristóteles começa dizendo: "todos os homens tem por natureza o desejo de conhecer". Espera aí, deixa eu ver o que é esse desejo de conhecer e se eu realmente tenho isso. E então ele diz: "prova disso é o prazer que nós temos nos nossos sentidos, especialmente no sentido da visão". Então é claro que eu passei muito tempo tentando observar isso, essa espécie de concupiscência visual que nós temos.
Como, por exemplo, quando você vê uma paisagem bonita --- o crepúsculo, o amanhecer ---, e aquilo forma um quadro e é incrível, você fica extasiado. Note bem: você não está possuindo aquilo, está apenas vendo. Como a mera visão pode nos deixar emocionados? Quando você vê um filme, às vezes sem ter nem o apoio da audição, você está vendo um filme mudo, e você fica grudado, querendo ver mais, mais e mais. Essa experiência é uma experiência repetida. Este ponto de vista --- do amor que nós temos pela visão ---, de certo modo ilustra mesmo isso que Aristóteles está querendo dizer, porque na visão você não obtém nada do objeto. Se você pegá-lo, você já tem um domínio sobre ele. Se você comê-lo, cheirá-lo, você já tem algo dele. Mas na visão você não pegou nada! A visão, por assim dizer, como ele mesmo diz, é o mais cognitivo dos sentidos, porque é puro conhecimento. E se você pegar o conjunto dos prazeres que você obtém pelos outros sentidos, não é nada perto do que se obtém pela visão, a visão dá muito mais. O resto são breves momentos.
Suponha você uma figura estática, um desenho: você olha aquilo de novo, e olha diversas vezes. Por exemplo, tem as pinturas do famoso Canaletto --- sempre gostei muito do Canaletto ---, ele pinta aquelas paisagens de Veneza com as figuras humanas pequenininhas, e cada vez que você olha, vê mais um detalhe: tem uma mulher vendendo flores na esquina, tem um sujeito passeando aqui. É gostoso! E, no entanto, você não está desfrutando daquilo diretamente, é apenas uma visão. É incrível. Você vê que através da visão você já passa do que seria um prazer puramente sensorial para uma espécie de prazer intelectual. Na simples visão já tem isto. Esta frase do Aristóteles: "o prazer que nós temos no sentido da visão", quantas vezes eu não me botei a imagina-la, revive-la; então agora eu sei do que ele está falando, porque eu também vi. Aristóteles tem de ser lido assim, porque ele não explica nada, ele só anota. É claro que na aula ele dava exemplos, porque ele mesmo diz que o exemplo torna visível aquilo que é abstrato demais. Então, através da sua imaginação você busca os exemplos. Tem de buscar exemplo daquilo, tem de buscar exemplo do contrário e haverá sempre uma certa tensão. O exemplo daquilo vai ilustrar o que o sujeito está falando e o exemplo do contrário vai mostrar os limites do que ele está falando.
A não ser que o sujeito seja Deus e esteja dizendo uma verdade que é absoluta e incondicional em todas as circunstâncias, toda a verdade terá o seu conteúdo positivo e os seus limites. Os limites dão o círculo semântico no qual é válido aquilo que o sujeito está dizendo. E se você não sabe fazer isso, você não sabe ler, porque você não sabe o peso relativo que o próprio autor está dando ao que ele disse. Quando ele diz: "Todos os homens têm o desejo de conhecer, prova disso é o prazer que nós temos no sentido da visão." Ora, às vezes nós não temos prazer nenhum, você vê uma coisa horrível e fecha os olhos. É isso o que Aristóteles nos está dizendo {que a visão sempre nos traz prazer}? Não, não é. Existe um limite e Aristóteles está subentendendo esse limite, porque ele não é nenhum idiota.
Eu vou contar um negócio pra vocês: quase todo esse pessoal, esses meninos que escrevem na Internet sobre filosofia e querem discutir, todos eles lêem errado porque eles não sabem isso. Eles pegam uma frase, dão um valor absoluto àquilo e então contestam a frase, porque eles não sabem a medida, não têm o senso da medida do limite da veracidade. Tudo o que você ler sobre realidades de fato se compõe dessas duas coisas, então você tem de imaginar aquilo positivamente e também imaginar o antagônico. Por exemplo, a feiúra, o desprazer da visão. Isso lembra do poema do García Lorca, quando o toureiro amigo dele foi morto na arena, e ele falava: "Sangre derramada, ¡¡Yo no quiero verla!!", é um exemplo de contrário.
Mas por que há esse horror da visão? Porque é natural que a visão busque o prazeroso e não o desagradável. Na Igreja eles falam muito da concupiscência do olhar: você vê a mulher do vizinho, começa olhar as suas pernas e às vezes não consegue parar. É a concupiscência do olhar, e o que você tem de fazer? Tem de desviar e dizer: "Calma aí, vamos parar com esse negócio, já estou comendo a mulher em pensamento, não posso fazer uma coisa dessas. Se o cara descobre o que eu estou pensando ele vai me bater". A concupisc��ncia do olhar é um instinto natural humano.
Você acaba enriquecendo a frase do Aristóteles de uma multidão de experiências pessoais, experiências culturais acumuladas, referências literárias etc. É assim que se lê, gente! No dia em que cada frase de um filósofo trouxer para a você toda a herança cultural associada àquilo e todo um conjunto de memórias, você entenderá o que o sujeito escreveu porque você estará lendo os escritos de um homem inteligente --- às vezes um homem de gênio ---, que tem uma riqueza interior maior que a sua! E dentro dele aquilo evoca muito mais coisas do que para você, de forma muito mais nítida e organizada. Aí sim você estará entendendo o cara. Agora, hoje em dia o que é que se ensina nas universidades? Em vez de ensinar a fazer isso --- criar um diálogo humano entre o leitor e um autor --- ensinam a considerar o texto como um objeto. Mas essa é a melhor maneira de não entendê-lo! Porque isso não é um objeto, é uma pessoa falando para você, através de um código que, claro, transforma aquilo em um objeto, mas o objeto não é o conteúdo da comunicação, ele é o instrumento limitado que o autor usou e você precisa ampliar os limites daquilo. Quanto mais culto é o autor que você está lendo, maior é o mundo de experiência interior dele, mais rico e mais organizado é o imaginário dele. E se você não tem meios de ampliar o seu, você nunca vai entender de que ele está falando.
Se você faz esse exercício muitas vezes, chega uma hora em que existe a intercomunicação total, você sabe exatamente do que o outro está falando e se reconhece nele daquela maneira imediata, onde, quando você olha uma pessoa com carinho e ela te devolve o olhar com carinho, você percebe aquilo na hora; houve a comunicação: "eu gosto de você e você gosta de mim". Você está em plena realidade. Ou pode ser o contrário: eu estou olhando o sujeito com desconfiança e ele está mais desconfiado de mim ainda, então também houve [a comunicação].
Não apenas os livros de Aristóteles são bons para esse exercício, como são livros que só podem ser lidos assim. Se você leu batido e está lidando com Aristóteles só no plano das idéias e dos conceitos, você não entendeu nada, porque ele próprio diz... num caso desse, esse método é ainda mais adequado, por ser o único método harmônico com a própria filosofia de Aristóteles, onde todo conhecimento começa pela apreensão dos sentidos. O sentido capta os elementos externos --- ou internos ---, os conserva na memória, os reproduz na memória sob a forma de um esquema imitativo, e deste esquema fático você tira o esquema eidético, que são os elementos permanentes que podem aparecer em outros exemplos da mesma espécie. Do esquema eidético você tira o conceito. Ele diz que a gente sempre conhece assim.
O que a expressão oral da doutrina filosófica faz? Ela só expressa as combinações dos vários conceitos que estão no fim da cadeia. Cada um desses conceitos se ramifica em um conjunto de experiências sensoriais e imaginativas, e essas experiências se cruzam aqui. Você pega uma série pontinhos (os conceitos). De cada um desses conceitos parte uma série de linhas e essas linhas terminarão em uma reta que há embaixo: esta reta é o mundo dos sentidos, o mundo da experiência real e as linhas representam todo o trabalho que a imaginação e a memória fizeram para a transposição desde os sentidos até os conceitos. Na leitura, você vai fazer exatamente o contrário.
Aristóteles tem de ser lido assim porque ele está dizendo que tem de ser lido assim. Em cada linha que está nos livros dele, ele está dizendo isso: "Trabalhe em cima disto, faça o trabalho reverso da sua imaginação. Vá do conceito até os dados dos sentidos, senão você não vai entender nada."
Agora me mostre uma faculdade de filosofia no Brasil que ensine a fazer isso. Nenhuma! Mostre-me um professor de filosofia que saiba fazer isso. Não tem nenhum! São todos farsantes! Todos, sem exceção! E não é questão de que eles são esquerdistas, não. Os direitistas, liberais, conservadores são a mesma coisa, são todos verbalistas ocos. Se não fossem era só pegar o número de filósofos que há aí no Brasil, que diz que tem o ensino oficial de filosofia, então tem milhares e milhares de filósofos ensinando filosofia para os moleques... Se toda essa gente soubesse fazer isso nós teríamos uma vida intelectual maravilhosa, nos seríamos uma nova Atenas!"
“À memória de Antonio Conselheiro, bandido, louco e santo, que, no sertão do Brasil, morreu, como um exemplo, com seus companheiros, sem se render, batendo-se todos, últimos Portugueses,
No fim o olavismo foi absorvido e extinto pelo bolsonarismo.
O veio botava tanta fé nesses alunos dele, virou foi nada. A restauração da alta cultura não veio, sobrou só uns três deputadinhos como prêmio de consolação. Triste.
Moroccans, Berbers, Arabs, Negroes etc have all fallen victim to foreign violence, whose swords and bombs, did not bear the stamp "Made in Germany" but "Made by Democracies"
— Hitler