Foi publicada, ontem, decisão do ministro Dias Toffoli pelo arquivamento definitivo da investigação contra a Transparência Internacional (Pet. 12.061) no Supremo Tribunal Federal. Desde outubro de 2024, a Procuradoria‑Geral da República já havia se manifestado pelo arquivamento do procedimento, sustentando a ausência de elementos mínimos que justificassem a continuidade das investigações e a falta de competência do ministro Dias Toffoli.
A investigação no STF integra um contexto mais amplo de ataques difamatórios e assédio incessantes contra a Transparência Internacional no Brasil. Essa campanha de retaliação e tentativa de intimidação teve início em 2019, quando surgiu, pela primeira vez, a fake news de que a TI receberia ou administraria recursos de acordos de leniência no país.
Em outubro de 2019, a TI Brasil apresentou um relatório à OCDE denunciando graves retrocessos na luta anticorrupção no Brasil. Entre os fatos citados no relatório estava a instauração do “Inquérito das Fake News”, determinada de ofício pelo então presidente do STF, ministro Dias Toffoli, e que teve, entre os primeiros atos do relator, ministro Alexandre de Moraes, a suspensão de uma auditoria da Receita Federal que incluía as esposas do próprio ministro Dias Toffoli e do ministro Gilmar Mendes. Poucos dias depois, o ministro Gilmar Mendes usou uma sessão plenária do Supremo para atacar a OCDE e a Transparência Internacional e lançar publicamente — pela primeira vez — a fake news que, há sete anos, é o eixo central das campanhas difamatórias contra nossa organização.
A verdade, reiterada e documentada inúmeras vezes, é simples: a TI jamais recebeu um centavo de qualquer acordo de leniência ou de qualquer empresa ou autoridade pública ligada à Lava Jato ou a qualquer operação anticorrupção no Brasil. Não recebeu porque recusou todas as ofertas, fosse de agentes públicos ou privados genuinamente interessados em fortalecer a luta anticorrupção, fosse daqueles que buscavam limpar sua imagem ou capitalizar politicamente com a pauta.
Ao contrário, a TI trabalhou para fortalecer os marcos legais e institucionais que regulam a destinação de “recursos compensatórios”, estruturalmente frágeis no Brasil, para que alcancem efetivamente as vítimas, restituam direitos violados pela corrupção e reforcem a integridade pública. A campanha de desinformação profissional contra a TI usou, precisamente, a distorção deste trabalho para sustentar sua narrativa falsa.
Apesar dos reiterados desmentidos — documentados e apresentados pela Transparência Internacional, pelo Ministério Público Federal, pela área técnica do Tribunal de Contas da União e pela imprensa nacional e internacional —, a fake news continuou sendo explorada politicamente por autoridades poderosas e repercutida massivamente, com centenas de matérias e milhares de postagens por blogs e influenciadores financiados por empresas corruptas, seus escritórios de advocacia e até verba pública.
Hoje, diante das gravíssimas revelações sobre as condutas de autoridades, empresas, advogados e comunicadores que, nos últimos anos, lideraram campanhas incessantes e coordenadas contra a Transparência Internacional, a sociedade pode compreender com maior nitidez a extensão do jogo de interesses envolvidos — e a importância da luta resiliente contra a corrupção.
A TI Brasil sofreu ataques da esquerda, da direita e, principalmente, de cima. Nunca fomos intimidados. Nunca recuamos. Nunca desviamos um milímetro de nossa missão de denunciar e combater a corrupção.
A TI resistiu — e continuará resistindo —, mas o custo do assédio judicial é altíssimo. Muitas organizações e indivíduos ao redor do mundo não resistem. Por isso, seguimos lutando, junto a parceiros como a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), para que o Brasil aprove uma Lei contra o Assédio Judicial, inspirada na recém-aprovada legislação europeia anti‑SLAPP (strategic lawsuits against public participation). O país precisa proteger ativistas, jornalistas, servidores públicos e cidadãos que denunciam a corrupção em defesa do interesse público.
Agradecemos profundamente todas as pessoas e instituições que estiveram ao nosso lado apoiando a Transparência Internacional, nossa equipe e nossa causa. Somos especialmente gratos às equipes dos escritórios Davi Tangerino Advogados, BFBM e Dias e Carvalho Filho Advogados que, com generosidade, competência e compromisso genuíno com a justiça, defenderam a TI Brasil.
Seguiremos, com um movimento cada vez mais amplo e forte, lutando contra a corrupção — porque nossa causa é, antes de tudo, uma luta por direitos e por justiça.
Um juiz constitucional cercado por gravíssimos indícios de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e obstrução de justiça já representa, por si só, um risco institucional em razão da natureza de suas condutas. Mas torna-se um elemento ainda mais desestabilizador pelas medidas que pode adotar em busca da impunidade. É nisso que o ministro Alexandre de Moraes se transformou diante das revelações que apontam para suas condutas com Daniel Vorcaro e, sobretudo, diante de sua retaliação autoritária, colocando o Supremo Tribunal Federal no caminho de uma crise institucional sem precedentes.
O Brasil precisa priorizar a defesa de suas instituições e de seu regime democrático, neutralizando imediatamente essas ameaças. O ministro Moraes deve ser afastado de suas funções para que as investigações possam ser conduzidas sem riscos de interferência e sem que a crise escale ao ponto de uma ruptura institucional. Da mesma forma, toda a rede de autoridades potencialmente implicadas ou que esteja obstruindo os mecanismos constitucionais de responsabilização também deve ser afastada e investigada.
Se as vias naturais de resolução estão sendo bloqueadas pelo procurador-geral da República e pelo presidente do Senado Federal, cabe aos plenários do Supremo Tribunal Federal e do Senado, bem como ao Conselho Superior do Ministério Público, desobstruir os mecanismos previstos pela Constituição para o enfrentamento dessa crise.
As investigações dos esquemas do Banco Master e de outros casos de grande complexidade exigem a atuação coordenada dos órgãos de investigação, persecução criminal e julgamento, cada qual dentro de sua competência constitucional. Somente assim é possível assegurar o devido processo legal, a ampla defesa e a solidez das futuras responsabilizações, evitando que nulidades ou interferências comprometam a busca por justiça, reparação e recuperação da confiança pública nas instituições.
Em um contexto de grave tensão institucional, intensa circulação de desinformação e crescente instrumentalização política das investigações, especialmente durante o período eleitoral, a máxima transparência dos procedimentos torna-se ainda mais necessária e deve ser tratada como prioridade por todas as autoridades envolvidas.
Já estão em pleno curso as mesmas táticas que, no passado, foram empregadas com sucesso para enterrar investigações que alcançaram os mais altos níveis do poder no Brasil: a disseminação massiva de desinformação, a manipulação do debate público e a divisão da sociedade, impedindo que ela se una em defesa de seus próprios interesses. O Brasil precisa resgatar as lições do passado e impedir que a corrupção sistêmica volte a operar seus mecanismos de impunidade.
O que está em risco agora é muito mais do que a destruição das investigações sobre o maior caso de corrupção financeira da história brasileira. O que está em jogo é um colapso institucional na mais alta instância do sistema de Justiça, com potencial para contaminar o processo eleitoral e favorecer sua captura por forças populistas e autoritárias, em diferentes níveis, valendo-se da indignação popular.
A sociedade e as instituições precisam agir com responsabilidade, firmeza e respeito à ordem constitucional para conter a escalada da crise e preservar a integridade do Estado Democrático de Direito.
Em meio a tantos escândalos de corrupção, boas iniciativas também precisam ser reconhecidas. E, em um estado marcado por um histórico grave de problemas de integridade pública, ampliar a transparência sobre contratos, compras e gastos públicos é mais do que bem-vindo: é necessário.
Mas reformas de transparência e integridade não podem depender de um governo ou de uma gestão. Precisam ser mantidas, aprimoradas e consolidadas ao longo do tempo.
@ICLNoticias No áudio, enviado no dia 30 de março de 2025, ao qual a coluna teve acesso com exclusividade, Nikolas chama o banqueiro de “Dani” e de “lindão” e diz que “quer ter mais proximidade” com Vorcaro. Para ouvir áudio 8h, ao vivo, no @ICLNoticias
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Estamos vivendo, simultaneamente, o maior escândalo de corrupção orçamentária da história (com o Orçamento Secreto e a farra das emendas), o maior escândalo de corrupção previdenciária da história (com as fraudes no INSS), o maior escândalo de corrupção financeira-bancária da história (com o caso Master) e o maior escândalo de corrupção judiciária da história brasileira.
Isto não é normal e não chegamos até aqui por acaso. O Brasil acumulou sérios retrocessos no combate à corrupção nos últimos anos. E estamos pagando o preço dessas decisões.
A notícia sobre o encontro entre Mendonça e Vorcaro é de legítimo interesse público. Ao mesmo tempo, a sociedade deve permanecer muito atenta a campanhas coordenadas de exploração da notícia para deslegitimar investigações que ameaçam indivíduos poderosos. Trata-se de uma tática clássica do manual da impunidade.
Dito isso, ao contrário do que ocorre no STF, o governo federal já dispõe de regras que determinam a divulgação das agendas de autoridades de alto escalão. Essas regras nem sempre são cumpridas, como revela o caso do presidente Lula, que recebeu Vorcaro fora da agenda oficial. Ainda assim, sua existência é um requisito mínimo para que a sociedade possa cobrar transparência e para que se consolide uma cultura institucional de prestação de contas.
A sociedade tem o direito de saber quando, com quem e, sobretudo, por que um ministro do STF se reúne com um banqueiro. Tem o direito, igualmente, de ver investigadas situações em que um ministro manteve vínculos financeiros indiretos com um banqueiro que possuía interesses perante seu tribunal, por meio de contratos multimilionários firmados com familiares seus, além de tê-lo assessorado diretamente.
Advogado disse estar “trabalhando” para Vorcaro ao levar relator do caso Master no STF em alfaiataria; semanas depois, banqueiro se reuniu por duas horas com Mendonça em São Paulo.
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O país precisa de explicações.
Segundo o repórter @brenopires, Daniel Vorcaro fez outros repasses para o fundo Havengate a pedido de Flavio Bolsonaro — ao menos quatro meses depois da data que o senador alegava ter ocorrido a última transferência.
Os pagamentos em setembro e, possivelmente, outubro de 2025 aconteceram muito depois de evidências abundantes já estarem disponíveis sobre as irregularidades em torno do Banco Master, colocando em xeque a afirmação de que se tratava de um negócio puramente particular sob o qual não pairavam dúvidas ou riscos de conflitos de interesse. 👇👇👇
01/abril — o Ministério Público do Distrito Federal abre inquérito para apurar a compra do banco pelo Banco de Brasília
08/abril — o Tribunal de Contas da União abre processo para investigar a conduta do BC com relação ao Banco Master
06/maio — a Justiça do DF concede medida liminar proibindo o BRB de concretizar a compra do Banco Master
03/setembro — o Banco Central rejeita a compra do Banco Master pelo BRB.
30/setembro — a Polícia Federal abre inquérito sobre o Banco Master.
Ainda não se sabe o real destino e utilização destas transferências e tampouco se pode admitir que uma perícia parcial, que sequer teve acesso às informações sobre as origens dos recursos utilizados pela produtora do filme, sirva de escudo para as questões essenciais que precisam ser respondidas.
Diante da dimensão do caso, é ainda mais necessário que as investigações sobre estes repasses avancem de forma célere e com total transparência.
Em um mês, o Brasil terá que escolher em quem votar para presidente. É absurdo que o eleitor tenha que fazer essa escolha com tantas questões sem explicações.
“Graças à persistência da PF, da imprensa e do ministro Mendonça, está seriamente ameaçado o pacto de impunidade que tem mantido Moraes isolado de prestar contas. Não há muito o que esperar da PGR, infelizmente. O procurador Gonet, que descaradamente pediu a nulidade do relatório policial, surge emaranhado na teia de afinidades do Master.”
A sociedade brasileira precisa se manifestar de maneira incessante contra o pacto de impunidade.
#editorial
O que a Folha pensa | A Moraes cabe a renúncia
Revelações escandalosas da PF acabam com as dúvidas sobre a incompatibilidade do ministro com a corte
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O Brasil está diante de um dos momentos mais graves de sua história institucional. As informações que vieram a público sobre as relações entre o ministro Alexandre de Moraes e outras autoridades com o banqueiro Daniel Vorcaro revelam fatos cuja gravidade exige apuração imediata, independente e exaustiva. Nunca o Supremo Tribunal Federal esteve submetido a um conjunto tão robusto de suspeitas de corrupção, conflitos de interesse e captura por interesses privados envolvendo seus ministros.
O Supremo Tribunal Federal, a Procuradoria-Geral da República, o Senado Federal e a Polícia Federal são as instituições constitucionalmente responsáveis pelas apurações e por eventuais processos de responsabilização. No entanto, há razões objetivas para preocupação quanto à capacidade de essas instâncias atuarem com a necessária independência.
As informações já divulgadas indicam que outros ministros do STF receberam dinheiro e mantiveram relações com pessoas, empresas ou interesses associados ao banqueiro e ao Banco Master. O procurador-geral da República e o diretor-geral da Polícia Federal receberam hospitalidade e entretenimento de luxo custeados pelo empresário no exterior. No Senado Federal, importantes lideranças governistas e oposicionistas, incluindo seu presidente, aparecem vinculadas ao entorno político e empresarial relacionado ao caso. Tampouco se pode ignorar que a crise será objeto de intensa disputa política-eleitoral.
Como ocorreu em outros momentos de ameaça à corrupção sistêmica, é previsível a mobilização de campanhas de desinformação, operações de construção de narrativas explorando a polarização política, ataques digitais coordenados, tentativas de deslegitimar e intimidar agentes públicos.
A sociedade brasileira deve permanecer vigilante e exigir três compromissos inegociáveis das autoridades competentes: investigação integral dos fatos, transparência máxima dos procedimentos e defesa das instituições.
A corrupção volta a se apresentar, mais uma vez, como uma grave ameaça à estabilidade democrática brasileira. Ao corroer a confiança nas instituições, distorcer o exercício do poder e enfraquecer a igualdade perante a lei, ela compromete os próprios fundamentos da República. Mas é justamente por essa razão que o país não pode se esquivar de enfrentá-la.
Extremamente grave. Se Moraes de fato recebeu tal mensagem e não tomou as providências cabíveis diante da possível ocorrência de um crime, no mínimo cometeu prevaricação. Considerando que sua esposa mantinha um contrato de R$ 129 milhões com Vorcaro, é imprescindível apurar eventual prática de corrupção.
O procurador-geral da República deve se declarar impedido, não apenas por ter sido citado na mensagem, mas também por ter recebido, segundo noticiado pela imprensa, hospitalidade e entretenimento de luxo patrocinados por Vorcaro em Londres.
Milhares de aposentados estão sofrendo na pele até hoje com a decisão de Toffoli que suspendeu a multa da J&F dos irmãos Batista. Parte do dinheiro seria usado p/ diminuir o rombo nos fundos de pensão causado pela corrupção dessa empresa.
Sim, atacar a Justiça é atacar o pobre.
Empresas brasileiras exportaram corrupção e agora Toffoli exporta impunidade.
Há três anos, o STF sequer analisa os recursos contra a decisão do ministro que anulou, sozinho, todas as provas do maior esquema de corrupção transnacional já revelado na história. A decisão é comprovadamente infundada e Toffoli está objetivamente sob conflito de interesses, pois ele próprio foi citado na delação (“amigo do amigo de meu pai”).
Enquanto o Brasil vive, simultaneamente, os maiores escândalos de corrupção bancária, previdenciária e judiciária da história, o debate sobre corrupção segue interditado pela polarização e por lideranças que têm mais a explicar do que propor.
#Editorial
O que a Folha pensa | Corrupção é tema inglório para Lula e Flávio. Lulinha e Marcola esvaziam discurso petista da moralidade contra o rival, flagrado em diálogo com Vorcaro
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Além da responsabilidade dos partidos de agirem como filtros, fazendo sua autocompliance, para não darem legenda a faccionados e a pessoas apoiadas por facções, não se pode esquecer do risco adicional (externo) que resulta das sanções norte-americanas. O PCC e o CV são organizações terroristas estrangeiras (FTO), aos olhos dos EUA.
Quem as favorece (presta auxílio) pode responder também perante a jurisdição americana.
Aqui, o indeferimento do registro de candidaturas, pela Justiça Eleitoral, deve ser antecedido de providências partidárias para negar filiação e legenda a tais indivíduos.
A farra das emendas é tema de reportagem da Economist desta semana.
O grau de captura do orçamento público pelo Poder Legislativo virou uma excrescência brasileira sem paralelo no mundo.
São 3 os principais impactos:
- A destruição da capacidade do país de formular e executar políticas públicas a partir de critérios técnicos
- A explosão da corrupção no nível local
- A distorção das disputas eleitorais e a feudalização da política
In the past decade, as a succession of weak presidents ruled Brazil, Congress hijacked power from the executive. Register for free to discover how lawmakers are gleefully throwing their weight around https://t.co/UG86eVZW2Y
O crime organizado não quer apenas dinheiro. Quer poder.
Santa Quitéria (CE) mostrou até onde essa infiltração pode chegar: segundo a @revistapiaui, o Comando Vermelho teria atuado nas eleições de 2024 para favorecer a reeleição do então prefeito. 👇 1/6
Barrar candidaturas suspeitas é parte da resposta. Também é preciso seguir o dinheiro.
Há propostas no Congresso, como os PLs 4.636/2020 e 4.486/2020, que buscam incluir os partidos no regime antilavagem. Integridade partidária, transparência e prevenção à lavagem são essenciais para impedir que recursos ilícitos, violência e controle territorial sejam convertidos em poder político. 5/6