#AFazenda As pessoas falam que o Serginho tem 42 anos, que é um homem crescido, não um bebê, que teve acesso à informação e deveria ser letrado. Mas esquecem que, DESDE OS 14 ANOS, ele enfrenta a dependência química. Maconha, cocaína, CRACK, álcool, crises de abstinência e 12 internações ao longo de mais de duas décadas.
DOZE INTERNAÇÕES em mais de DUAS DÉCADAS. Se não se solidarizam com isso, então, ao menos, evitem julgar.
Enquanto muitos construíam repertório, aprendiam a lidar com o mundo e desenvolviam habilidades para a vida, ele LUTAVA PELA SOBREVIVÊNCIA. Durante mais de 20 anos, sua preocupação era conseguir chegar vivo ao fim do dia, não construir o repertório que hoje cobram dele. Não podemos colocar todo mundo na mesma gaveta e julgar com a nossa própria régua, como se todas as pessoas tivessem tido as mesmas oportunidades de desenvolvimento pessoal.
Também é preciso considerar que ele enfrenta um TDAH severo, diagnosticado tardiamente. Segundo ele, a maconha proporcionava alívio para sua mente hiperativa, o que ajuda a compreender como o consumo de substâncias entrou em sua vida. Isso não explica toda a complexidade da dependência química, mas é um elemento importante para compreender sua trajetória.
Ele tem apenas cinco anos de sobriedade: um de internação e quatro de esforço contínuo. Está reconstruindo a própria vida depois de mais de duas décadas atravessadas pela dependência, sob exposição pública, com sua história, suas dificuldades, suas crises e seus erros constantemente submetidos ao julgamento alheio. Não há espaço para amadurecer longe dos olhares quando cada tropeço pode virar motivo de ataque. Ele está reconstruindo a própria vida diante de todos vocês. Vocês sentem o peso disso?
E há outro aspecto convenientemente ignorado: Serginho já enfrentou o cancelamento pelas próprias atitudes. Conhece o peso de ser julgado, condenado e reduzido aos próprios erros diante do público. Talvez isso ajude a compreender por que demonstra tanta resistência em apontar o dedo e insiste que gostaria que as pessoas jogassem limpo, sem difamações, calúnias, injúrias ou campanhas de cancelamento. Quem já esteve na posição de cancelado sabe o quanto é doloroso ocupar esse lugar e pode não querer submeter outra pessoa à mesma experiência. Isso não significa que seja incapaz de reconhecer erros, mas que sua história pode influenciar a maneira como encara os conflitos e o julgamento alheio.
Sua reconstrução também envolve cuidados contínuos com a saúde e o uso de medicações conforme o tratamento prescrito para suas condições. Não basta decidir que, a partir de determinado dia, tudo ficará bem. É um processo que exige acompanhamento, esforço e constância para sustentar a sobriedade e aprender a viver de outra maneira.
Serginho já disse que “viver dói” e que sente dificuldade “de existir”. Essas falas deveriam ser consideradas antes de cobrarem dele como se sua trajetória tivesse sido igual à de qualquer outra pessoa. Ser adulto não apaga o que viveu, tampouco o isenta de responder pelos próprios atos.
E, antes que distorçam o que estou dizendo, ter empatia não significa endossar falas problemáticas, passar pano ou isentar alguém de responsabilidade. Significa reconhecer que muitas pessoas viveram de maneiras completamente diferentes da nossa e que essas experiências importam na hora de julgar e apontar o dedo. Compreender o contexto não é justificar tudo o que alguém faz, mas entender que ninguém deve ser reduzido aos próprios erros, ignorando tudo o que precisou enfrentar para chegar até aqui.
Não se trata de infantilizar o Serginho, mas de compreender que sobreviver por mais de duas décadas não é a mesma coisa que ter tido condições de aprender a viver. Ele continua tendo responsabilidades, mas também merece que sua história seja considerada. Empatia não é concordar com tudo o que ele diz ou faz. É não permitir que a indignação com seus erros apague a humanidade de quem ainda está tentando reconstruir a própria vida.