Não sei se estarei a ser saudosista, mas sinto que hoje em dia há poucas séries que realmente nos surpreendem de tão boas que são. Produz-se muita coisa homogéneo, repetitiva e por isso bastante previsível.
Acabei de rever The Office. É daquelas séries que ouvimos falar pelas gargalhadas. Pelos pequenos vídeos engraçados. Mas que do nada nos atropela com os momentos mais reais e imperfeitamente humanos.
O que faz desta série genial é que nos atrai pela falta de seriedade mas prende-nos pelo excesso de realismo. Porque se pensarmos bem, ao contrário daquilo que parece, a realidade também é pouco séria. Mesmo.
Aquilo que ao início parece um escritório cheio de palhaços e palhacinhos, com o tempo transforma-se. De repente dá-mos por nós totalmente investidos nas vidas de personagens que nem sequer existem, mas que sentimos conhecer a vida inteira. Faz-nos rir claro mas quando menos esperamos também é capaz de nos fazer chorar. Porque é real. Porque no fundo aquelas pessoas estranhas, com as suas personalidades aberrantes e caóticas, vivem da maneira que todos nós gostávamos de viver: cada vez mais livres. Livres do constrangimento de uma sociedade que nos poda, desbasta.
Costuma dizer-se que um bom ator geralmente dá um péssimo comediante, mas que por detrás de um bom comediante está um ótimo ator. Eu acredito mesmo nisso. Também costuma dizer-se que as coisas não são tão profundas quanto queremos acreditar que são. Mas este não é caso.
É uma obra de arte onde muito é dito sem precisar de ser falado. Sem precisar de ser imposto. Sem o moralismo performativo que tanto nos enjoa, hoje em dia. Esse vicio moderno onde tudo parece pouco orgânico e por isso pouco real. E sem nos lecionar, esta série pouco clichê ensina-nos que há muito a aprender com os clichês do costume: que vale a pena sermos nós próprios, sempre; que somos como reagimos ao mundo; que realmente viver é arriscar; que tudo passa e que não há pressa. Não precisas de ter pressa (isso foi o que ela disse).
“Parei de gastar dinheiro com gajas, agora todo o final do mês levo a cota no shopping e dou-lhe o cartão, se mãe é a única mulher que ama, também é a única que gasta”