Existe uma doença intelectual que se espalhou pelo futebol.
Ela afeta principalmente os adolescentes sub-40.
Você conhece o tipo.
O sujeito assiste alguns vídeos, abre uma planilha de estatísticas e conclui que descobriu o esporte.
Aí vem a frase inevitável:
"Pelé jogava contra pedreiros."
Claro.
Porque antes da internet a humanidade vivia na pré-história.
Não existia talento.
Não existia tática.
Não existia preparação física.
Não existia futebol.
O esporte aparentemente foi inventado quando essa turma ganhou acesso ao Wi-Fi.
É uma combinação impressionante de ignorância com autoconfiança.
Os caras não estudam a época.
Não conhecem o contexto.
Não entendem as condições em que o esporte era praticado.
Mas têm certeza absoluta de tudo.
Comparar atletas de épocas diferentes ignorando contexto não é análise.
É anacronismo.
Pelé jogava em campos muito piores.
Com medicina esportiva rudimentar.
Sem GPS.
Sem análise de desempenho.
Sem equipes multidisciplinares.
Sem toda a tecnologia que hoje cerca o atleta profissional.
O futebol que Pelé praticava era muito mais próximo de uma atividade artesanal do que da indústria bilionária e altamente científica que existe hoje.
E mesmo assim, mais de meio século depois, continuam tentando derrubá-lo do topo.
O que é curioso.
Porque existe uma pergunta que ninguém consegue responder.
Se Pelé era tão superestimado assim, por que continua sendo a referência?
Toda geração produz um novo fenômeno.
E toda geração faz a mesma pergunta:
"Chegou ao nível de Pelé?"
Décadas passaram.
O esporte evoluiu.
A tecnologia avançou.
Mas a régua continua a mesma.
No fundo, o comportamento é revelador.