Stereossauro juntou “Estranha Forma de Vida”, da Amália, com Portishead. À primeira vista parece uma combinação improvável. Depois ouvimos e percebemos que a tristeza do fado e a melancolia de Bristol até têm mais pontos de contacto do que seria de esperar.
Pode-se gostar ou não. Mas não vejo grande sacrilégio em pôr músicas de épocas e mundos diferentes a conversar. Se nos soar bem, porque não?
Bom dia a todos 🌞
Fernando, eu não disse que Maidan não pode ser discutido nem que não houve ingerência externa. Só que esse não era o ponto. Se quiseres discutir Maidan, discutimos mas noutra altura. Mas também aí convém não fingir que só havia ingerência de um lado. A Rússia meteu-se durante anos na política ucraniana e apoiou quem lhe interessava. E sobre isso também não faltam vídeos, reportagens e documentários. Já vi bastante coisa sobre o assunto.
Mas chamar à invasão de 2022 uma simples “escalada” é uma maneira muito simpática de descrever um exército a entrar noutro país e a tentar tomar a capital. O que veio antes ajuda a perceber o contexto, mas não apaga isso. E depois há uma questão simples: se aceitarmos que um país mais forte pode invadir outro porque tem razões históricas ou políticas, então qualquer um passa a poder redesenhar fronteiras à sua maneira.
Quanto ao “totó”, já percebi. É a parte da conversa em que tens menos dificuldade em manter consistência.
Pelo que vou lendo aqui no X, já há mais gente a querer escolher o próximo presidente da Ucrânia do que ucranianos interessados em votar agora.
Entretanto fui ver o que pensam os próprios ucranianos e parece que conseguem fazer uma coisa que nas redes sociais se tornou quase impossível: confiar num presidente, desejar uma mudança e não querer eleições em plena guerra.
Todos podemos ter opiniões sobre Zelensky, mas o problema começa quando achamos que a nossa deve valer mais do que a dos próprios ucranianos, como Trump também parece achar. Talvez fosse boa ideia ouvi-los antes de escolhermos por eles. Até porque, tanto quanto sei, a soberania da Ucrânia também inclui o direito de escolher quem querem que seja o seu presidente. Já basta terem um vizinho que acha que pode fazer o que quer com a soberania deles.
Fernando, chamar “golpe” a 2014, meter 14 mil mortos no mesmo saco e depois transformar a invasão de 2022 numa simples “escalada” é um belo exercício de “embaralha e torna a dar”. Dizer que a invasão de 2022 foi “apenas uma escalada” também é uma maneira curiosa de descrever um país atravessar a fronteira com um exército e tentar tomar a capital de outro.
Se eu sou o totó por distinguir estas coisas, começo a achar que o insulto é o que tens de melhor para argumentar.
Rui, ele continua a ter proteção vitalícia dos serviços secretos. Pode viajar em voos comerciais e até já o fez, mas uma deslocação internacional de um ex-Presidente implica uma operação de segurança que um voo privado obviamente simplifica.
Mas nem percebo bem onde está a hipocrisia. Ele está a falar de igualdade de oportunidades e de não se sentir superior ao vizinho, não de toda a gente ter de viajar em classe económica.
Também tenho essa sensação, mas não sei bem o que te diga, Carlos. Parece-me que há vários interesses em enfraquecer a Europa, uns externos e outros internos, e nem sequer precisam de estar todos coordenados ou querer exatamente a mesma coisa.
A Rússia tem um interesse óbvio numa Europa mais dividida e menos capaz de agir em conjunto. Depois há forças políticas dentro da própria Europa que fazem carreira precisamente atacando a UE, e há também quem do outro lado do Atlântico pareça preferir negociar com países isolados do que com um bloco forte.
O que ainda tento perceber é até que ponto estamos perante uma coincidência de interesses ou algo mais organizado. Mas que há muita gente a ganhar com uma Europa mais fraca e fragmentada parece-me cada vez mais difícil de ignorar.
Essa dos pontos é verdade. O Prost fez mais pontos brutos do que o Senna em 88 e também em 89. Mas eu não chamaria ao “best 11” uma regra desatualizada como se fosse uma coisa meio esquecida no regulamento.
A regra dos descartes, que dizíamos “deitar pontos fora”, vinha praticamente desde o início da F1. Em 1950 já só contavam os quatro melhores resultados de sete corridas. Fazia sentido numa altura em que os carros avariavam imenso, nem todas as equipas faziam todas as provas e uma avaria podia destruir um campeonato. O sistema foi sendo adaptado ao longo dos anos mas a lógica manteve-se durante décadas.
Em 88 todos sabiam desde o início que só contavam os 11 melhores resultados. O Prost fez 105 pontos brutos contra 94 do Senna, mas com os descartes ficaram 87 para Prost e 90 para Senna. E o Senna ganhou 8 corridas contra 7.
Podemos discutir se nessa altura a regra já fazia menos sentido porque a fiabilidade tinha melhorado muito. Tanto que acabou por ser abolido a partir de 91. Mas era a regra do campeonato na altura, não uma coisa que apareceu para beneficiar o Senna.
E há uma ironia engraçada nisto tudo. Em Mónaco 84, quando a corrida foi interrompida, o Prost abrandou e parou junto à linha da meta antes da bandeira de xadrez, e o Senna chegou a passá-lo. Só que isso já foi depois da interrupção e a classificação recuou à volta anterior, por isso a vitória ficou para Prost. Como a corrida terminou antes dos 75% da distância, só foram atribuídos metade dos pontos e Prost recebeu 4,5. Acabou por perder o Mundial para Lauda por meio ponto. Se a corrida tivesse continuado, o Senna o passasse em condições normais e o Prost acabasse em segundo numa prova com pontuação completa, recebia 6 pontos. Ou seja, teria sido campeão.
Portanto há aqui uma ironia extraordinária. A interrupção que lhe deu a vitória no Mónaco pode ter-lhe custado o campeonato de 84, e quatro anos depois o sistema de descartes acabou por favorecer Senna em relação aos pontos brutos de Prost.
É por isso que tenho alguma dificuldade com o argumento de que em 88 o Prost “devia” ter sido campeão porque fez mais pontos no total. Devia, se as regras fossem outras. Mas eles correram sabendo desde o início quais eram as regras daquele campeonato.
Verstappen precisou de dez tentativas para ganhar em Singapura. Antonelli, terceiro hoje, pode já ser campeão do mundo em Austin se Russell não terminar acima do 10.º lugar. A Fórmula 1 continua a provar que a experiência é importante, excepto quando aparece um miúdo com pressa. 🏎️🇮🇹
Em 87, sim, o Mansell liderava e teve uma avaria. Em 93 aconteceu o mesmo com o Schumacher. O Senna beneficiou disso, sem dúvida.
Mas 92 não metia nesse saco. O problema do Mansell deu-lhe a liderança, sim, mas depois apareceu-lhe atrás um FW14B muito mais rápido, com pneus novos, e ele teve de o segurar durante as últimas voltas até ganhar por 0,2 segundos. A sorte abriu-lhe a porta, não conduziu o McLaren por ele.
E 88 dou-te sem discussão. Foi 100% culpa dele e provavelmente a vitória mais estúpida que perdeu na carreira.
Quanto a 84, aí faço uma correção ao que disse. O Toleman tinha mesmo a suspensão dianteira danificada. O próprio Pat Symonds, que era o engenheiro de corrida do Senna, explicou mais tarde que o dano aconteceu quando ele bateu com força no corretor da chicane logo depois da saída do túnel, uma imagem que ele próprio só reparou anos depois ao ver o filme Senna (podes ver isso quando ele sobe o corretor de forma violenta nessa chicane). Encontraram depois uma fissura num dos elementos da suspensão. Mas o próprio Symonds disse que nunca saberiam se teria aguentado até ao fim e que até suspeitava que sim, desde que não voltasse a ter outro impacto daqueles. Portanto podia ter ganho, sim, mas também podia não ter chegado ao fim.
E já agora, há outra coisa nessa corrida que às vezes fica esquecida por causa do Senna, o Stefan Bellof. Era um piloto que eu também já admirava muito naquela altura e imaginava que, com um carro competitivo, ainda nos podia dar grandes duelos com o Senna. No Mónaco vinha em terceiro com aquele Tyrrell atmosférico e também estava a recuperar para Senna e Prost. O resultado acabaria mais tarde anulado com a exclusão da Tyrrell do campeonato, mas aquilo que ele fez na pista ficou. Bellof era um talento extraordinário. Em 1983 fez 6:11,13 no velho Nürburgring com o Porsche 956, a primeira volta ali com uma média superior a 200 km/h, e aquele tempo ficou 35 anos por bater. Morreu na época seguinte à de estreia do Senna, em 1985, em Spa, quando tentava passar Jacky Ickx em Eau Rouge. Tinha 27 anos. Nunca chegámos a saber até onde poderia ter ido.
Agora, se começarmos a retirar vitórias a pilotos porque quem ia à frente avariou, vamos ter de reescrever uma parte considerável da história da Fórmula 1. Naquela altura não havia nem de perto a fiabilidade que existe hoje. Quase se podia dizer que quanto mais perto o carro estava de partir, mais rápido andava.
E voltando ao Senna, 1985 é um bom exemplo. O Lotus era muito rápido, sobretudo em qualificação e sobretudo nas mãos dele. O Senna fez sete poles e chegou a ser o piloto que mais voltas liderou no campeonato, mas isso não faz do Lotus um carro dominante. Um carro dominante tem de ser um pacote completo. Tem de ser rápido, fiável, gerir consumo e transformar essa velocidade em resultados com regularidade. A Lotus gastava demasiado, avariava muito e o Senna acabou o campeonato em 4.º com apenas duas vitórias.
Naquele ano falava-se muito do McLaren, da Ferrari, depois da Williams que acabou fortíssima, e do Lotus do Senna. Repara que digo o Lotus do Senna, não “os Lotus” como se estivessem a dominar o campeonato inteiro. O De Angelis também fez uma boa época, claro, mas a imagem que ficou foi sobretudo do que o Senna fazia com aquele carro ao sábado e em determinadas fases das corridas.
Aí dou-te parcialmente razão. Se leres o meu “igual para igual” como carros exatamente equivalentes, expressei-me mal.
Em 88 não há discussão, o MP4/4 foi de outro planeta, e em 89 a McLaren continuou a ser a referência. Mas em 90 já não compro que fosse significativamente superior. McLaren e Ferrari ganharam seis corridas cada e o Prost levou a luta pelo título até Suzuka. O Senna foi pressionando bastante a McLaren e a Honda durante a época e a partir de Hockenheim vê-se uma reação clara, com evolução no carro e no motor.
Em 91 o MP4/6 começou como o pacote mais completo e muito mais fiável, mas quando o FW14 começou a funcionar era muitas vezes o carro mais rápido. A Williams ganhou sete corridas e a McLaren oito. Se não fossem as quatro vitórias consecutivas do Senna no arranque do campeonato, a Williams e sobretudo o Mansell a acertarem o passo mais tarde, e episódios como aquele do Estoril em que o Mansell perde uma roda à saída das boxes e acaba desclassificado, a história podia ter sido bastante diferente.
O meu ponto era mais simples: de 88 a 91 o Senna teve finalmente material com que podia realmente disputar o campeonato. Isso é bem diferente de dizer que teve sempre o melhor carro.
@MariaXuni Duvido. Esta traz entidade, amostra e metodologia, portanto dificilmente será daquelas “sondagens online” que costumam deixar o Chega muito mais bem-disposto.
Não é que “não consigam” fazer eleições. É que não podem fazer eleições legalmente enquanto vigorar a lei marcial, porque a própria legislação ucraniana não o permite. E com uma guerra desta dimensão há também uma questão óbvia de segurança. Não é só o dia da votação. É toda a organização, logística e segurança que uma eleição exige, incluindo como organizar a votação nas zonas próximas e da frente de combate, com militares mobilizados, deslocados e territórios ocupados. Uma coisa que qualquer pessoa percebe. Aliás, hoje Zelensky disse à ABC que aceita organizar eleições se a Rússia concordar com um cessar-fogo total de 60 dias, precisamente para criar condições para isso.
Quanto à sondagem, também é clara sobre quem foi inquirido. Foram adultos residentes em território controlado pelo Governo ucraniano. Não foram incluídos os que vivem nos territórios ocupados nem os que saíram para o estrangeiro depois da invasão em grande escala. Portanto não, não percorreram a Europa, o Canadá, os EUA ou a Rússia. Quanto à frente de combate, a metodologia que vi não diz especificamente que tenham ido entrevistar militares lá, nem que essa população tenha sido tratada separadamente.
Portanto há uma limitação da amostra, sim. Está assumida e escrita. Não é propriamente uma descoberta escondida no rodapé.
Pequeno aviso à navegação. O @O_Chatogptisse passou a @AqueleVasco.
Continuo a ser o mesmo, com as mesmas dúvidas, opiniões e ocasionais disparates. Só mudei a placa da porta.
Se alguém perguntar por mim, digam que sou aquele Vasco. 😌
Sortilégio e curiosidade, sim 😄 Mas para falar do Senna deixa-me meter a colher porque é o meu piloto preferido. Vi-o correr ao vivo em 89 e 90 no Estoril, tenho imensas coisas dele, miniaturas, livros, documentários, e até já visitei duas vezes a sua sepultura. Não me leves por convencido, é só mesmo porque sou um grande fã dele.
Primeiro, ele ganhou no Brasil duas vezes, não uma. Ganhou em 1991 e voltou a ganhar em 1993. E dizer que teve carros competitivos, dominantes ou vencedores de 1985 a 1994 mete coisas muito diferentes no mesmo saco. A Lotus de 85 a 87 conseguia ganhar corridas, mas não era o melhor carro do campeonato. O espetáculo do Senna nessa altura aparecia muito nas qualificações.
E há aqui uma curiosidade da F1 daqueles anos que às vezes se esquece. Em 85 e 86 usavam-se motores próprios com pressões de turbo e configurações específicas apenas para qualificação e que duravam muito poucas voltas. O BMW da Benetton de 86 é normalmente apontado como capaz de passar largamente os 1200 cv em qualificação. Em corrida a potência baixava bastante. O Renault da Lotus também era fortíssimo em qualificação, mas em corrida tinha problemas de consumo e fiabilidade.
O período em que o Senna teve realmente material para disputar títulos de igual para igual foi sobretudo de 1988 a 1991. E o McLaren de 88 foi uma coisa de outro mundo. Ganhou 15 das 16 corridas. Só falhou Monza, onde o Senna liderava perto do fim até ao toque com o Schlesser.
Em 92 e 93 a Williams estava noutro nível e em 94 a Benetton começou a época pelo menos tão competitiva como a Williams, se não melhor afinada naquele momento.
Já agora, há curiosidades engraçadas no Senna também. Nunca ganhou o GP de França, ganhou apenas uma vez em Inglaterra e uma vez em Portugal. Por outro lado, ganhou seis vezes no Mónaco, incluindo 1987, 1992 e 1993, anos em que não tinha o carro mais competitivo. E podia perfeitamente ter somado mais duas: em 1984, logo na estreia no Mónaco, passou Prost na linha já depois de a corrida ter sido interrompida e a classificação recuou à volta anterior, e em 1988, quando dominava a corrida até bater sozinho no Portier. Portanto sim, há circuitos que parecem gostar mais ou menos de determinados pilotos. Era precisamente esse o meu ponto com o Max. 😉
Sim, claro 😄 O ponto era mesmo este ser um dos pouquíssimos GP regulares que ainda lhe faltava ganhar e ter sido aquele que mais tempo levou a conquistar. Não estava a dizer que teve dez oportunidades iguais.
Basta comparar com Espanha. Correu lá pela primeira vez em 2015 e ganhou logo à segunda tentativa, em 2016, na estreia pela Red Bull.
Em Singapura aconteceu o contrário. Teve várias boas hipóteses, chegou a ser 2.º e 3.º, viu o Pérez ganhar com o outro Red Bull em 2022, voltou a ser 2.º em 2024 e 2025 e só agora conseguiu finalmente vencer.
Era esse o ponto. O Max já tinha riscado praticamente tudo da lista e Singapura continuava a ser a exceção. Agora, entre os circuitos atuais, só lhe falta o novo de Madrid.
Fernando, mesmo que eu aceite a tua leitura de 2014, isso não torna falsa uma sondagem feita em 2026. Se achas que a sondagem não vale então é preciso mostrar o que está errado nela.
E 2014 não é 2026. Maidan aconteceu antes da anexação da Crimeia e antes da guerra no Donbass. Hoje tens uma guerra em grande escala e territórios ucranianos ocupados que a Rússia até reivindica como seus. Uma futura eleição poderá acontecer depois de anos disto ou durante uma trégua que permita realizá-la, portanto o contexto será completamente diferente. Além disso desta vez os EUA estão do outro lado e Trump quer Zelensky fora.
Quando houver eleições fazemos o quê? Se ganhar Zelensky foi Washington, se ganhar outro também foi Washington? Se qualquer resultado servir para provar a mesma tese então estamos apenas a decidir antecipadamente que os ucranianos não escolheram por si próprios.