tem um lance que acontece em porto alegre que eu chamo de “vento da loucura” que é o vento quente que bate de noite antes de uma previsão de tempo de muitos dias de chuva. noite que todo mundo sai pra rua como se fosse a última
semana retrasada, eu fui a um churrasco na casa de uns amigos. quatro famílias, dezoito crianças.
chegamos atrasados e a anfitriã estava sentada cortando tomates pro vinagrete.
mas não era isso que me chamou atenção.
ela estava cortando um tomate de cada vez, com toda calma do mundo. entre um corte e outro, parava pra conversar. ria. respondia alguém.
e eu só conseguia pensar:
"meu Deus, ela vai levar o dia inteiro nisso"
e o vinagrete realmente demorou pra ficar pronto.
e sabe o que aconteceu?
nada.
as pessoas continuaram comendo carne, as crianças brincando, a conversa acontecendo. e quando o vinagrete ficou pronto, todo mundo comeu.
eu passei boa parte do churrasco em estado de emergência por ela, por uma emergência que simplesmente não existia.
desde esse dia, tenho tentado cortar uns tomates em paz, sabe.
fazer a coisa com calma, como se aquela fosse a última coisa que eu tivesse pra fazer na vida.
e, até agora, descobri que quase nada é tão urgente quanto parece.
tudo certo.