A textura macia e suave somada ao cheiro característico me traziam conforto. Aqueles olhos me fitavam com um semblante amistoso e imponente. O limite entre a permissividade e o intolerável era tênue. Sua presença majestosa há muito me ensina que o amor se comunica com silêncio.
Eu que sempre fui cético passei os últimos dias assolado pelo vulto que caminhava no pátio. Sua presença não causava-me dúvida, mas impelia-me a acreditar na sua existência. Era como um deboche sobre todas as minhas convicções no materialismo.
O ponto preto distante no céu parecia me atiçar a vontade de ir ao seu encontro. Uma curiosidade irresistível tomou conta de mim. O objeto permanecia imóvel e parecia aumentar em tamanho quanto mais eu o mantinha em vista. Ainda hoje anseio por algum contato.
Enquanto esperava pelo sono o gato ronronava ao meu ouvido. O som gutural do animal era como uma hipnose que me mantinha num estado semi-acordado. Suas garras cortavam-me a carne enquanto suas presas penetravam meu pescoço. Já havia dormido quando sonho e realidade confundiam-se.
A neblina pairava sobre a relva enquanto os primeiros raios de sol davam-lhe o tom dourado. Adentrei em meio àquela cortina espessa e úmida com o meu coração a palpitar ligeiramente. Uma imensa e legítima alegria encoberta nas primeiras horas do dia.
De súbito o coração dispara. As mãos trêmulas apertavam os dendos contra si. Seu corpo experimentava uma estranha sensação de calor e frio simultâneos. Um enorme desconforto toma conta do corpo, um desconforto que se torna a própria vida que vem com o medo da morte.
Sentado na areia à beira-mar sinto a água banhar meus pés. A leve brisa refresca-me o corpo enquanto os olhos marejados observam o pôr-do-sol. A calmaria exterior contrasta-se com a turbulência de pensamentos. Ansiava ofegante. Era medo. Do quê? Eu não sei.
Os muitos papéis amassados acumulavam-se ao chão. Sobre a mesa a folha rabiscada e a cabeça escorada pelo braço apoiado ao cotovelo denunciavam a exaustão. O semblante descontente parecia externar os pensamentos: "a fantasia não é para mim".
O vestido cingido era-me estranhamente confortável. Ainda que precisamente ajustado na região do busto, permitia-me executar com comodidade o movimento da respiração. No entanto os olhares julgadores à minha volta reprimiam e sufocavam-me.
Da minha escrivaninha eu observava pela vidraça a movimentação dos veículos e pedestres. O movimento sincronizado fazia o trânsito parecer uma dança. Tudo era harmonia. A pilha de livros à minha frente confundia-se com os cadernos. Há horas reviro em vão em meio à desordem.
A fome me castigava com o seu terrível som no meio da silenciosa noite. As sombras me esperavam à espreita na cozinha. A coberta cobrindo-me a cabeça era a minha única proteção. Todo o meu corpo tornara-se vigilante e paralisou-se à espera de um ato de coragem pela saciedade.
Nuvens sombrias pairam nos céus enquanto um homem esbraveja à minha frente. A minha pele experimenta uma estranha sensação de calor e frio simultâneos. Tudo à minha volta é repressão. Aguardo ansiosamente a chuva. Só ela trará a leveza dos dias ensolarados de volta.
Eu estava sonolento quando a TV foi desligada, despertando-me. Alguns sons se fizeram perceptíveis como estranhas criaturas que se comunicavam numa língua indecifrável. Enquanto eu me virava uma criatura se abateu sobre mim e era como se nos tornássemos um só.
Peguei-me a observar nossas mãos ali entrelaçadas. Eu podia muito bem distinguir visualmente cada um dos dedos e à qual mão eles pertenciam. O que me intrigava era a perda da sensação de propriedade. Havia partilha. Não havia a minha mão ou a dela. Havia apenas as nossas mãos.
A verdade é que eu já havia me habituado com a solidão quando Olga apareceu e me ofereceu companhia. Reorganizei minha rotina, mudei meus hábitos, tracei planos, cortei gastos... mas a experiência não trouxe frutos. Olga me devolveu à minha velha companheira.
Josefa sentiu enjoo. Pôs a mão na barriga onde se fazia perceptível a protuberância. Caiu de joelhos e vomitou. Ali na sua frente pôde ver uma cova e dentro dela havia um corpo. Aproximou-se para olhar o cadáver, e foi tomada por um susto: Eu estou grávida de um homem morto!
Não podia aceitar a ideia de morrer sem receber o perdão divino. Quando morresse me tornaria um fantasma a vingar pela salvação que me foi tirada. E no fim, quando todos morressem, eu iria para o inferno onde reencontraria suas almas e por toda a eternidade lamentaremos juntos.
E lá adiante estava o fantasma do Adelmo. Era o fantasma silencioso, só imagem, como se mostrava durante a noite. Sua espingarda, também fantasmagórica, exalava uma fumaceira como acusando um disparo silencioso. Nada fazia som, nem meu coração, talvez porque já não mais batesse.
Todas as noites que eu passava na mata sentia um olhar desconhecido, não de bicho nem anjo da guarda. Era um olhar vigilante e silencioso. Não eram os olhos brilhantes da mata que me olhavam, pois o próprio negrume da noite me impunha seus olhos.
Minhas esperanças se esvaíram gradualmente em três dias de confinamento neste úmido cubículo, que se tornou minha moradia e agora se tornará meu túmulo. Minha única companhia era o barulho do incessante gotejar. Já havia aceitado meu fim quando a salvação surgiu do alto do poço.