@VenetianGaucho2 Mas igualdade é justamente unidade. Se algo é igual, é a si mesmo, não a outro. A diferença é necessária pra noção de igualdade saltar aos olhos ou ser útil, mas não acho que igualdade dependa de maneira alguma dela. Diria que apenas a diferença depende da unidade
Algo que se faz notável quando são considerados os aspectos intrínsecos das coisas mesmas é que não existe nenhuma necessidade óbvia de que estes só possam se fazer presentes em um único objeto. Tome-se como exemplar a configuração acidental de ser um cubo com 1 metro de aresta. Pode-se claramente conceber um cubo assim, bem como dois, e vários outros. Não existe nada que diga que essa característica seja algo que é limitado a somente um único caso. Mas o que serve para esta ocasião serve também para outras que usualmente são trazidas: cores, texturas, proporções e demais propriedades significativas de objetos do cotidiano são em si mesmas como que gerais. Tais características não ficam conceitualmente restritas a um só caso particular; ao contrário, são indefinidamente replicáveis.
Pelo visto, então, tais características são fundamentalmente abertas no sentido de que nada força elas a se conectarem inseparavelmente a apenas um caso individual. Como já apontei outro dia (aqui: https://t.co/zGaiToyHYi), ao que parece, pode-se jogar quantas características intrínsecas se quiser numa entidade e ainda não se obtém um particular individualizado e absolutamente irrepetível; não há nada nas formas que acrescemos que impeça a multiplicação de entidades que caem nesse perfil que se visa descrever. É curioso, assim, que as formas são justamente aquilo que descreve a entidade naquilo que ela é, e ao mesmo tempo isto parece ser algo geral e não limitado a um só caso. Com efeito, sempre que se pensa em alguma coisa, imediatamente se recorre a características em si mesmas genéricas.
Não obstante, talvez ainda seria possível falar sobre formas particulares — o que intuitivamente lembra um pouco algo como as hacceidades de um Duns Scotus, se bem que estas são mais princípios —, e coisa similar parece se encontrar já em Plotino (cf. Eneada V, 7). Além disso, também se pode pensar no que metafísicos contemporâneos denominam “tropos”: propriedades únicas e irrepetíveis de uma entidade (e.g., o vermelho de uma certa camisa, que, enquanto é daquela camisa somente, é irreplicável). Seja como for, ainda é fato que quaisquer características que são concebidas tendo em mente algo puramente intrínseco e também irrepetível jamais podem per se determinar algo no sentido que estamos acostumados; como já foi observado, é preciso recorrer a características genéricas para falar de algo compreensível.
Já dissemos que existem conteúdos nas coisas que percebemos. Mas cabe uma pergunta: existe algo como uma proximidade ou unidade entre coisas distintas? A resposta é intuitiva: claramente sim. Uma imagem vermelha parece ser igual a outra (em cor) — ou, de modo ainda mais cirúrgico, uma parte de uma imagem vermelha se parece com outra parte desta mesma imagem —, um quadrado se parece com outro (no formato), uma nota de um instrumento se parece com outra (no som), e por aí vai. A noção de uma comunidade entre coisas diferentes também se faz presente nas ciências empíricas, que vivem em função de padrões. Cientistas visam repetir o mesmo tipo de experimento sobre um mesmo fenômeno; fala-se sobre organismos de mesmas espécies; fala-se sobre mesmos genes e mesmas estruturas atômicas; fala-se sobre entidades diferentes que possuem uma mesma massa, mesma carga e que se movem numa mesma velocidade, e assim por diante. Esta noção de mesmice é bastante presente no imaginário popular.
Agora, as próprias aproximações também devem repousar em formas. Se digo que uma barra de 99 metros está mais próxima do padrão de 100 metros do que uma barra de 1 metro, isso evidentemente assume a legitimidade desta característica inteligível de 100 metros (bem como as demais envolvidas aqui) — sendo irrelevante, por sinal, se existe ou não alguma barra com 100 metros aí no mundo.
Retornando ao tópico das comunidades, há inúmeros outros aspectos neste âmbito que poderiam ser trazidos, mas que seja suficiente comentar o seguinte: ou o juízo que fazemos de que essas aproximações e igualdades procedem nas coisas é verdadeiro, ou não é. No último caso, não haverá base real alguma para dizer que duas imagens vermelhas sejam ‘iguais’ ou sequer ‘próximas’ em qualquer sentido relevante (o mesmo, novamente, até para as próprias partes de uma imagem vermelha), e seria também errado pensar que duas barras de 1 metro se igualam ou se aproximam com respeito a seu tamanho. Estritamente falando, uma imagem vermelha seria tão diferente de outra imagem vermelha como seria de uma imagem preta, e uma barra de 1 metro seria tão exógena a outra de 1 metro como seria de outra de 99 metros; um ser humano seria uma coisa tão alienígena àquilo que consideramos outro ser humano quanto seria distinto de uma pedra, um tornado ou uma sinfonia de Beethoven tocada numa noite. Sem a possibilidade dessa comunidade dentro da diferença também seria impossível que uma entidade sofresse modificações e ainda mantivesse certas características no decorrer do tempo. Deste ponto de vista, qualquer mudança no objeto seria efetivamente a sua aniquilação, de modo que o objeto posterior seria em absolutamente nada igual ao de antes, nada havendo de comum entre ambos. Também é verdade que nossas experiências acabariam sendo em si mesmas completamente anárquicas. Não chegaria a mim uma carga de percepções dotadas de certa ordem e homogeneidade internas, mas antes uma massa amorfa desprovida de qualquer inteligibilidade, uma completa avalanche indecifrável.
Tomo essas breves considerações como verdadeira reductio ad absurdum de qualquer teoria que rejeite a realidade de uma robusta unidade na multiplicidade. De fato, se alguém sem ironia insiste que não existe absolutamente nada correspondente a objetivas aproximações e igualdades entre diversos na realidade, debater com esta pessoa é perda de tempo, pois ela nega uma característica tão óbvia e fundamental sobre as coisas que nem há um ponto de partida comum que possibilite um diálogo frutuoso entre os conversantes. A pessoa também irá padecer de uma contradição performativa quando quiser falar comigo: para vir até mim e alegar que não há identidade na diferença ela deve crer que eu e ela (duas entidades numericamente diferentes) nos igualamos sob o aspecto de sermos ambos seres racionais, mentais, cognoscentes, etc. É patente a inconsistência prática.
Outra coisa interessante de pontuar é que há certas formas que Platão mencionava — com as formas de mesmice e alteridade (presentes no diálogo Sofista) — que parecem absolutamente necessárias para que nossa experiência seja como é. Bertrand Russell também mencionava que pelo menos a própria similaridade deveria ser algo que se exemplifica múltiplas vezes, e neste sentido mesmo um nominalista de semelhanças acabaria tendo que afirmar a similaridade como uma característica universal. (A similaridade da qual Russell fala lembra bastante a mesmice de Platão, diga-se de passagem)
Desta maneira, é imperioso afirmar que existam formas, e estas, pelo que podemos perceber, se manifestam repetidas vezes nas coisas em diferentes ocasiões e níveis. Também vale ainda notar que nós nem precisamos supor que certas formas sejam instanciadas perfeitamente para atribuirmos a elas um estatuto ontológico relevante. Mesmo que ninguém tenha produzido uma barra de 100 metros, por exemplo, tal padrão ainda é algo passível de uma inteligibilidade legítima — e isso permaneceria sendo o caso mesmo que de alguma maneira fosse fisicamente impossível produzir um objeto com tal padrão. Isto já permite o reconhecimento de ao menos um esse intentionaliter para tal configuração, e como não podemos intencionar um puro nada, fica claro que há algo distinto e autônomo sendo inteligido.
Sobre o aspecto multiplicável disso, poder-se-ia objetar sob o pretexto de que na grande parte das vezes em que dizemos que as coisas se igualam em verdade elas apenas se aproximam: dois cubos a olho nu podem parecer muito semelhantes, mas se formos olhar mais profundamente veremos que se revelam extremamente diferentes nos detalhes de organização molecular, por exemplo. Não obstante, tal objeção falha em notar que aqui (repita-se) não é a efetiva exemplificação perfeita o que importa: o mero fato de tal padrão ser compreensível já é suficiente para nossos propósitos. Também é notório que não há nada de absurdo na ideia de duas coisas numericamente diferentes que sejam estritamente iguais sob algum aspecto. Afinal, qual seria o problema de duas entidades que (digamos) possuem exatamente o mesmo formato? Por acaso o universo vai explodir se isso acontecer? Não parece. E esse cenário também é bastante fácil de conceber. Sendo assim, parece-me inócua a ideia de que haja algo de supostamente absurdo na noção de uma igualdade entre coisas diversas.
Adicionalmente, é óbvio que os cubos do cotidiano não são cubos perfeitos; sempre existe alguma imperfeição neles (os platônicos seriam os primeiros a fazer exaustivamente esta observação, inclusive). Talvez algum dia alguém produza cubos impecáveis, se é que tal feito é viável, mas isso simplesmente não é (nem nunca foi) o ponto. O importante a se notar é que os “cubos” que vemos no cotidiano, por mais imperfeitos que sejam, participam de maneira muito clara da característica de ser cubo, ou, noutras palavras, se assemelham muito mais ao padrão de cubo do que outras coisas (um cilindro já não guarda significativa similaridade para com o padrão de cubo, v.g.). E aqui voltamos ao exemplo das barras: se existem barras com exatíssimos 100 metros (ou mesmo se é viável a produção disso), não importa (na verdade o próprio conceito de metro é mais intuitivo que absolutamente exato, até porque ninguém vai verificar até o nível atômico). O relevante é que tal padrão é inteligível, e com base nisso é legítimo dizer que uma barra de 99 metros se assemelha mais a tal padrão de 100 metros do que uma barra de um metro. (Urge também notar aqui que a ambiguidade entre categorias não necessariamente implica que devemos jogar fora tais categorias; pode haver ambiguidade e mistérios com respeito ao conceito de consciência, mas nem por isso alguém irá seriamente sugerir que consciência não existe, pace eliminativistas)
Este é o evento estranho que Platão levava a sério: o fato de que duas coisas numericamente distintas ainda podem ser iguais e símiles, que pode existir uma acepção séria de unidade num contexto de multiplicidade. Aqui certos autores (como Lloyd Gerson) gostam de apelar para as formas como sendo ‘explicações’ deste fenômeno (quase num espírito abdutivo), mas nesta parte julgo que a coisa é muito mais direta. Simplesmente é óbvio que a forma é uma condição de possibilidade para a própria predicação de igualdade: se digo que X e Y são iguais, deve-se esclarecer sob qual aspecto são iguais. Se alguém disser para você que X e Y são iguais, você espontaneamente faria a pergunta: “iguais em que sentido?”. Afinal, a pessoa pode estar a dizer várias coisas com isso. Uma possibilidade é a de que X e Y sejam numericamente idênticos. Mas suponhamos que a pessoa diga que X e Y não são uma realidade numericamente idêntica: ou seja, são duas entidades distintas, mas ainda são iguais. A pergunta óbvia a ser feita é “iguais com relação a o quê?”. Agora imagine que a pessoa responda “com relação a nada; X e Y são duas coisas diferentes que se igualam, mas não há algo que corresponda a este o que que perguntas”. Ora, todos sabemos que essa resposta é um completo disparate. Se a pessoa não especificou o que é igual em X e Y, então só proferiu palavras vazias. Falar que X e Y são iguais sem especificar o aspecto sob o qual se igualam é puro e simples flatus vocis.
Essa observação que faço com respeito ao âmbito da igualdade também serve para a aproximação ou semelhança. Voltemos (pela última vez, eu juro) aos exemplos do cubo e da barra de 99 metros (a qual se aproxima do padrão de 100 metros): só faz sentido falar que dois objetos se aproximam ou se assemelham se houver algum o que por meio do qual se dá tal similaridade, quer dizer, deverá haver uma identidade clara que ambos possam exemplificar imperfeitamente ou tender para (esse anglicismo foi necessário). É obrigatório que haja uma “medida”, por assim dizer, para fazer a própria comparação. Assim, dois objetos que no senso comum chamaríamos “cubos” são considerados o que são conforme os mesmos imperfeitamente manifestam ou se aproximam da oquedade do cúbico (i.e., a forma de cubo, ou o o-que-é-ser-cubo) — e o mesmo para demais exemplos de instanciações. Este caráter de cubo não é algo imposto, mas algo que se apresenta (ainda que de modo imperfeito) de maneira imanente no íntimo das próprias coisas.
Ora, este o que — que, como já apontei no post quotado, corresponde à resposta da pergunta sobre τί ἐστι (“o que é isto?”) de Platão — é exatamente aquilo que se entende por forma: a identidade da coisa, sua determinidade, oquedade, a “medida” de cada coisa. Como vimos antes, às vezes fazemos predicações de puras negações e relações, que não constituem formas reais (e só fazem sentido por se remeterem a formas); entretanto também vimos que a predicação de igualdades e proximidades robustas nas coisas mesmas é imprescindível. Portanto, para que X e Y sejam genuinamente iguais ou símiles, é imperativo que haja uma identidade determinada que é exemplificada (mesmo que de maneira imperfeita) em ambos elementos de modo imanente. Assim, a forma se revela como algo absolutamente necessário para o fenômeno da identidade não-numérica — fenômeno esse que, como foi arguido, é inegável. Assim, julgo imperioso reconhecer as formas no seu aspecto multiplamente exemplificável; noutros termos, é preciso reconhecer que existem naturezas comuns.
(Este foi um mero post palpitesco de caráter genérico; pretendo desenvolver mais em futuros quotes)