Dizem que Ogum, mesmo tendo água para se lavar, escolhe o sangue. Essa imagem sempre me atravessou porque ela fala de uma coisa que talvez muita gente carregue sem perceber: existem marcas que não saem com facilidade. Existem batalhas que deixam rastros no corpo, na memória e na forma como a gente aprende a existir. Não porque a dor seja uma escolha, mas porque às vezes a gente se acostuma tanto a sobreviver que começa a confundir ferida com identidade. Começa a acreditar que tudo aquilo que machucou também é aquilo que nos fortaleceu. E talvez esse seja um dos maiores perigos de quem precisou ser forte por muito tempo.
Um Preto Velho sentou no banquinho, acendeu o cachimbo e falou baixo:
"Minha filha, tu carrega peso que nem é teu."
Ele veio tirar. Antes do próximo ciclo fechar, você vai sentir o peito leve pela primeira vez em anos e entender que nunca foi fraqueza — era cansaço de tanto salvar os outros.