Aproximei-me mais do grupo, observando o vaivém dos corpos na dança. Mas era nela que acabava sempre por me deter, em breves olhares furtivos.
– Já nem sinto as pernas – queixou-se um deles. – Aquele trabalho mata um gajo.
O Zé Manel e a irmã viraram-se. Vi o olhar dela deslizar pelo meu antes de seguir em frente.
– Se quiseres trocar, passa uma semana comigo na tanoaria – respondeu-lhe o Zé Manel.
Uma risada soltou-se no seio do grupo. Ela riu e depois fitou-me diretamente. Quando voltou a cabeça para o recinto, os olhos ficaram para trás por um instante, relutantes em partir.
Entretanto, o Zé Manel reconheceu alguém que se aproximava e bateram as mãos em jeito de cumprimento.
‒ Então, Tó!
‒ Então, Zé. Estás bem?
‒ Já fizeste as alterações no escape?
‒ Prontinho. Anda ali ver.
O Zé Manel pegou no copo e afastou-se com o Tó, ao mesmo tempo que a música cessava e as pessoas abandonavam o centro do recinto.
E, de repente, ela ficou sozinha.
O vocalista anunciou qualquer coisa que não percebi e, logo a seguir, os acordes de uma balada italiana espalharam-se pelo arraial. Mordia o interior do lábio. Era a oportunidade perfeita.
‒ É pá! Estás aqui!
Senti um estalo seco na cabeça e virei-me na direção da voz.
‒ Procurei-te por todo o lado.
Era o David. Fiquei sem saber o que dizer. A música tocava e só conseguia pensar naquela oportunidade.
‒ Vamos? ‒ atirou.
Franzi o cenho e mordi ainda mais o lábio.
‒ Espera só mais uns minutos, David.
– Não dá, Carlos. Vou-me embora agora mesmo. Ou vens ou ficas.
Olhei para ela. Assistia à cena em silêncio, com um olhar tímido, mas carregado de expectativa. Voltei-me para o David e passei a língua pelos lábios.
– Então vai.
Vi surpresa no seu olhar, mas virei-lhe rapidamente as costas.
Dirigi-me a ela com passo firme, desfazendo o último vestígio de hesitação:
– Sou o Carlos – apresentei-me e estendi-lhe a mão. – Queres dançar?
Ela sustentou-me o olhar por alguns momentos, esboçando um sorriso discreto. Depois, pousou a mão na minha. Quando os nossos dedos se encontraram, o arraial desapareceu à minha volta. Restávamos apenas nós e Chitarra suona più piano, de Nicola Di Bari.
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@carioca_joana A classificação desta compleição física como excesso ponderal constitui uma ousadia taxonómica de proporções verdadeiramente assinaláveis.