Não existe nada mais difícil na medicina do que fazer o certo.
E muitos colegas já se renderam.
Não por má fé. Por cansaço.
Cansaço de explicar 30 vezes na mesma semana que IVAS é viral.
Cansaço de ouvir a mãe insistindo em antibiótico pra uma criança sem febre, sem desconforto respiratório, com um resfriado de 3 dias.
Cansaço de ser tratado como inimigo por defender a saúde do próprio paciente.
Aí vem o colega que desistiu da luta.
Prescreve o antibiótico que a mãe queria. Inventa uma "pneumonia silenciosa" que não tem critério clínico nenhum. Sai do consultório com a paciente feliz e com a sensação reconfortante de que evitou conflito.
E adivinha quem fica como o errado?
Eu.
O médico que explicou.
O médico que disse "não vou prescrever porque não precisa".
O médico que tentou proteger a criança de uma resistência bacteriana que talvez ela precise vencer daqui a 5 anos numa infecção de verdade.
A mãe sai do meu consultório achando que eu não dei atenção.
Vai pro colega ao lado e sai feliz com a receita.
E quando a criança realmente adoecer, e o antibiótico não fizer mais efeito porque ela já usou várias vezes sem necessidade, a culpa não vai ser de quem prescreveu sem critério.
Vai ser do sistema. Da bactéria que ficou resistente. Do destino.
Nunca de quem assinou a receita pra evitar o desgaste de uma conversa difícil.
Tem dias que fazer o certo é exaustivo.
Tem dias que você sai do plantão com a sensação de que foi você quem errou.
Mas eu continuo.
Continuo prescrevendo só o que precisa.
Continuo explicando até cansar.
Continuo sendo o médico que a mãe vai chamar de chato no grupo do WhatsApp.
Porque medicina não é dar o que o paciente quer.
É dar o que ele precisa.
E quem não entende isso já desistiu de ser médico.
Só ainda não devolveu o diploma.
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