Para alguns, a pandemia pode ter se tornado apenas mais um capítulo da história política brasileira. Para mim, ela tem o rosto do meu pai, a lembrança dos amigos que perdi e a dor de uma despedida que nunca pude fazer.+
E talvez seja justamente por isso que me recuso a esquecer. Que eu nunca me torne indiferente à dor do outro, seja ela qual for, venha de onde vier e atinja quem quer que seja. Porque a dor humana não deveria ter partido, +
o discurso da "gripezinha", o "histórico de atleta" e, sobretudo, a falta de empatia diante do sofrimento e da morte de tantas pessoas. Não se trata de defender um partido ou atacar outro. Trata-se de memória, de responsabilidade e, acima de tudo, de humanidade.+
diante das tentativas de relativizar a condução desastrosa daquela pandemia. Não consigo esquecer a resistência em reconhecer a gravidade do que o mundo enfrentava, os ataques e a desconfiança lançada sobre as vacinas, a aposta na imunidade de rebanho, +
O fanatismo tem esse poder perverso: transforma convicções em verdades absolutas, coloca a lealdade política acima dos fatos e faz com que até as evidências mais concretas sejam ignoradas. E é justamente por tudo o que vivi que não consigo me calar +
Lembro-me de cada dia, de cada hora, de cada minuto daquela angústia. Do desespero de não conseguir uma vaga de UTI para que ele tivesse ao menos uma chance de tratamento e de alívio para seu sofrimento. Da impotência de não poder estar ao seu lado, +
encontraram justificativas para minimizar a responsabilidade do governo da época. Mas não consigo compreender como o fanatismo político pode ser tão forte a ponto de fazer alguém ignorar aquilo que viu, ouviu e viveu.+
em meio ao caos daquele período. São imagens, cheiros e sentimentos que permanecerão comigo para sempre. Respeito a dor de todos que perderam familiares e amigos. Respeito, inclusive, aqueles que, por convicções políticas, +
de não ter sequer o direito de me despedir. Nem mesmo um velório digno pudemos oferecer. Há lembranças que o tempo não apaga. Ainda consigo me recordar do cheiro de carne em decomposição no cemitério, consequência de tantos sepultamentos realizados às pressas, +