Israel é a luta contra o ego — o despertar do coração de carne prometido pelos profetas, a iluminação do Buda, o Fana dos árabes, o Nirvana dos hindus. É o mesmo caminho dito em muitas línguas: morrer para o “eu” e renascer em Deus.
Do ponto de vista de uma cosmovisão pluralista ancestral, anterior à Era Axial, o problema dessas religiões não está apenas em suas promessas escatológicas, mas na própria forma como passaram a enxergar a existência.
As tradições ancestrais de europeus, hindus, persas, celtas, gregos, romanos, germânicos, eslavos e inúmeros outros povos não concebiam o ser humano como um erro biológico aguardando uma atualização futura. A vida não era vista como uma condição defeituosa que precisava ser substituída por uma versão aperfeiçoada de si mesma. Pelo contrário. A existência era compreendida como participação em uma ordem cósmica viva, diversa e sagrada.
O homem não precisava ser salvo da natureza. Ele precisava aprender a viver em harmonia com ela.
Quando observamos os mitos anteriores à Era Axial, encontramos heróis que buscam sabedoria, coragem, honra e excelência. Não encontramos a ideia de que a humanidade inteira deva ser descartada para dar lugar a uma nova espécie espiritualmente superior. Aquiles não deseja deixar de ser humano. Ulisses não deseja transcender sua condição biológica. Sigurd não sonha em abandonar a carne. Eles buscam realizar plenamente aquilo que são.
Essa diferença é fundamental.
Nas tradições ancestrais, a diversidade é uma característica da própria estrutura do cosmos. Existem muitos Deuses, muitos povos, muitos caminhos, muitas formas legítimas de existir. A realidade não converge para um único centro universal, uma única verdade absoluta ou uma única humanidade padronizada.
É justamente por isso que o pluralismo ancestral olha com desconfiança para qualquer projeto que pretenda conduzir toda a humanidade para um destino único.
Seja esse destino chamado Reino de Deus, Era Messiânica, Revolução Universal ou Singularidade Tecnológica.
Todos esses projetos compartilham uma mesma estrutura mental: o mundo atual é considerado insuficiente, a humanidade presente é vista como defeituosa e uma transformação total é apresentada como inevitável.
O transumanismo moderno herda muito dessa lógica. A promessa de corpos perfeitos, ausência de sofrimento, superação da morte e integração a uma inteligência superior não é tão diferente, em sua estrutura simbólica, das antigas expectativas escatológicas. Mudam os instrumentos. Permanecem os pressupostos.
Mas o olhar ancestral segue outra direção.
A morte não é um erro cósmico.
O envelhecimento não é uma falha de projeto.
A imperfeição não é um defeito a ser eliminado.
São aspectos constitutivos da própria experiência da vida.
Os antigos compreendiam que beleza e tragédia caminham juntas. As estações mudam. Os impérios surgem e desaparecem. Os homens nascem, envelhecem e morrem. Essa dinâmica não exige correção. Ela é parte da ordem natural.
Além disso, a ideia de separar a humanidade entre eleitos e rejeitados, puros e impuros, salvos e condenados, sempre foi estranha a muitas tradições ancestrais. Os Deuses protegiam seus povos, mas não exigiam a uniformização completa da humanidade. O cosmos era uma tapeçaria de diferenças, não uma máquina destinada a produzir um único resultado final.
Por isso, uma visão pluralista ancestral não busca substituir uma utopia religiosa por uma utopia tecnológica. Ela rejeita ambas.
O objetivo não é construir um paraíso futuro através da eliminação dos imperfeitos, nem criar uma espécie pós-humana que transcenda sua natureza.
O objetivo é cultivar excelência dentro da condição humana, honrar os ancestrais, fortalecer as comunidades, viver em alinhamento com os ciclos da natureza e reconhecer a multiplicidade do sagrado.
A sabedoria ancestral não pergunta como escapar da humanidade.
Ela pergunta como nos tornarmos humanos em sua expressão mais elevada.
Essa é uma diferença profunda. Talvez seja a diferença entre uma civilização que sonha em substituir o mundo e uma civilização que aprende a habitar o mundo com reverência.
Uma das principais fragilidades de certas correntes cristãs fundamentalistas é a tendência de interpretar textos simbólicos de maneira excessivamente literal, ignorando níveis alegóricos, filosóficos e esotéricos presentes na tradição religiosa.
Exotérico ≠ Esotérico
Em diversas tradições, e dito que o homem que é formado do barro. Existe uma diferença notável entre o abraamico e o grego:
Adão, é moldado por seu deus, que sopra o aliento nele.
No mito grego, Prometeu molda o homem, mas é Atena, a deusa da sabedoria, que sopra a vida nele.
"Eu me recuso a aceitar o colonialismo romano, sou um ibérico com orgulho! Temos língua própria! Não ao imperialismo italiano e ao latim!" Ridículo, não? Pois é, é assim que me soa toda vez que vejo brasileiros fazendo "buga buga" contra americanos por qualquer motivo que seja.
"Eu me recuso a aceitar o colonialismo romano, sou um ibérico com orgulho! Temos língua própria! Não ao imperialismo italiano e ao latim!" Ridículo, não? Pois é, é assim que me soa toda vez que vejo brasileiros fazendo "buga buga" contra americanos por qualquer motivo que seja.
Muitos brasileiros falam dos colonizadores como se fossem uma raça alienígena que desceu de uma nave, explorou o país e desapareceu. Não desapareceram. Ficaram aqui. Nós somos os colonizadores.