Denuncio o apagamento dos indígenas na soma de pretos e pardos como negros; e analiso a complexidade da categoria pardo com fontes #ArquivoPardo#Antirracista
Milhares de pardos têm origens indígenas. Nem todo pardo é negro!
A soma artificial pardos + pretos como “negros” é muito violenta contra as milhares de pessoas que descendem dos povos originários. Tanto os dados de arquivos históricos quanto as pesquisas de DNA realizadas pela USP mostram uma forte presença da herança indígena entre os brasileiros.
Essa ascendência predomina sobretudo nos estados do Norte, onde se encontra também a maior proporção de pardos do país (no Pará e no Amazonas, quase 70% da população). Mas vai além do Norte, há pessoas pardas com ancestralidade indígena em todo o país, sobretudo no centro-oeste e parte de SP, Paraná etc.
Quando o IBGE bate à porta de suas casas no censo, a maioria opta por se auto declarar parda.
A esmagadora maioria dos pardos que carregam uma ampla variedade de fenótipos indígenas (e lidos socialmente como pardos) já não mantêm vínculos diretos com etnias específicas depois de cinco séculos de ofensiva colonial e “integração” no Brasil independente. Dizer hoje que deveriam simplesmente se declarar “indígenas” é um cinismo que ignora a própria história do país e as rupturas forçadas pela colonização.
Seus direitos são sistematicamente violados nas bancas de heteroidentificação, cujos integrantes aderem à ideologia que pretende forçar a equiparação “pardo = negro/afrodescendente”. Nessas instâncias, não se reconhecem os fenótipos indígenas, e a autodeclaração dos descendentes de indígenas é invalidada.
Na estatística, eles entram para compor o percentual de reserva de vagas, calculado a partir da autodeclaração do IBGE. Mas, no momento de aplicar a política pública, seus direitos são negados e eles são cruelmente lançados a um limbo.
As políticas de ação afirmativa deveriam abarcar pretos e pardos lado a lado, mas sem a imposição da soma Pardos + Pretos = Negros. Milhares de pardos em todo o país descendem de indígenas, e ignorar essa presença é repetir a violência colonial contra os povos originários.
Trata-se de uma covardia contra um grupo que, justamente em razão de cinco séculos de opressão, não conseguiu se organizar politicamente.
Fontes:
https://t.co/NroPtx4NpY ; IBGE.
Os ataques à ciência moderna estão vindo agora do charlatanismo “decolonial” e seu reacionarismo mascarado de “radicalidade".
Ao que é caracterizado como "ocidental" e "colonial", cabe toda a crítica e questionamentos.
Já o que está no campo dos "outros saberes", é naturalizado como algo essencialmente bom e emancipador.
Nessas correntes, para algo ter validade, basta não ter origem europeia.
Indígenas, africanos, grupos subalternizados não precisam desse tipo de condescendência essencializante! Precisam de respeito à complexidade de suas culturas.
A mãe de Machado de Assis era, na verdade, portuguesa, Açores, BRANCA e filha de Estêvão José Machado e Ana Rosa.
O pai dele, sim, Francisco José de Assis, era descrito como “mulato”, segundo a terminologia da época. Pintor de paredes, descendia de Francisco de Assis e Inácia Maria Rosa, ambos identificados como pardos.
O caso de Joice Terloni é apenas um entre milhares de de publicações de redes sociais, propagando desinformação legitimada por uma suposta “radicalidade” e pela invocação de expressões como “justiça social”, “justiça epistêmica”, “epistemologias decoloniais” e “combate ao apagamento branco”.
Basta pronunciar a palavra mágica “apagamento” para que tudo ganhe validade para os seguidores.
Questionei a informação nos comentários. Ela me bloqueou.
Por trás dessa onda de suposto “enegrecimento” de Machado de Assis — historicamente representado, muitas vezes, como homem branco pela memória nacional — existe também uma ideologia, fortemente influenciada por categorias norte-americanas, que demonstra profundo horror diante da mestiçagem, da identidade parda e da existência de pessoas com ascendências simultaneamente brancas e negras.
O enquadramento retrospectivo de personagens históricos em identidades raciais que não necessariamente lhes eram atribuídas (e com as quais eles próprios talvez não se identificassem em seus contextos) reforça um sistema binário de classificação e reproduz a lógica da hipodescendência.
Alguns ativistas e influenciadores cultivam essa ideologia que combate a ambiguidade, as identidades que transitam entre o negro, o indígena e o branco e a tudo aquilo que escapa ao esquema binário.
Num dos países mais miscigenados do mundo, procuram censurar a possibilidade de alguém se reconhecer como mestiço ou pardo.
É verdade que a ideologia da democracia racial instrumentalizou a mestiçagem para negar desigualdades, silenciar o racismo e adiar a implementação de políticas públicas. Mas isso corresponde apenas a uma parte da história. Essa crítica não pode eliminar o fato de que o Brasil se formou ao longo de séculos de miscigenação, em toda a sua complexidade: marcada por relações de poder, hierarquias e violências sexuais, mas também por vínculos inter-raciais consentidos, afetivos e duradouros, como foi o caso dos pais de Machado de Assis.
Não dá pra substituir uma simplificação histórica por outra ou por fake news. #pardo
Podemos criticar a obra de Freyre e suas consequências por vários motivos. Mas esse não se sustenta porque ele enfoca o período colonial em CG & Senzala. Nessa época não havia projeto de embranquecimento por parte da coroa portuguesa. Quando ocorre os projetos de embranquecimento no fim do século 19 e 20, o Brasil já tinha cerca de 4 séculos de miscigenação. Subordinar esse complexo fenômeno a um projeto de embranquecimento me parece muito simplificador. Outro aspecto que normalmente as pessoas ignoram é que Freyre escreve CG & S para se opor à eugenia e teorias racistas, que viam a miscigenação em chave pessimista, algo que arruinava o Brasil. A maior critica que eu faria a Freyre é o modo como ele ameniza a desigualdade e a violência no processo colonial e a permanência do racismo, apesar da miscigenação.
Censura, liberdade acadêmica e perseguição
à Diretora da MATRIA
Saiu neste domingo, na coluna de Lygia Maria da Folha de S. Paulo, o que aconteceu com a nossa diretora, Celina Lazzari, durante seu doutorado na Universidade Federal de Santa Catarina.
Celina teve sua pesquisa suspensa pelo Comitê de Ética em Pesquisas da UFSC, não por qualquer irregularidade metodológica, mas após denúncias baseadas em suas manifestações públicas enquanto representante da MATRIA.
Ou seja: tentaram transformar opiniões legítimas e liberdade de associação em motivo para interromper uma trajetória acadêmica.
Um Comitê de Ética em Pesquisa não existe para investigar a vida dos pesquisadores, fiscalizar suas opiniões pessoais ou realizar patrulhamento ideológico sobre manifestações públicas alheias ao objeto da pesquisa.
Sua função é avaliar os aspectos éticos do estudo apresentado: não julgar quem é o pesquisador, a que associação pertence ou quais posições defende no debate público.
Celina só conseguiu defender sua tese porque impetrou um mandado de segurança.
A Justiça e o Ministério Público Federal foram categóricos ao reconhecer a gravidade do que ocorreu.
A decisão judicial apontou a existência de “censura intelectual”.
O MPF afirmou: “A Administração Pública, ao ocultar a peça motriz da decisão, agiu de forma inquisitorial.”
É difícil imaginar expressão mais clara.
Agiram de forma inquisitorial porque Celina não teve acesso adequado ao que realmente fundamentava a medida tomada contra ela, cerceando seu direito ao devido processo legal e à ampla defesa.
Foi colocada sob suspeita por suas opiniões e por integrar uma associação de mulheres que ousa questionar políticas públicas e interpretações jurídicas.
Teve também contrariado “os princípios da presunção de boa-fé e da proporcionalidade que devem nortear a atuação da Administração Pública.”
Ao contrário do alegado pela Comissão, não se tratava de proteger participantes da pesquisa. Tratava-se de punir uma pesquisadora por quem ela é, pelo que pensa e pela organização à qual pertence.
A perseguição contra a MATRIA e suas integrantes não é abstrata.
Ela produz consequências concretas: denúncias infundadas, tentativas de silenciamento, prejuízos profissionais e acadêmicos e o uso de estruturas institucionais para intimidar mulheres que discordam.
Celina resistiu, buscou a Justiça e venceu. Mas nenhuma pesquisadora deveria precisar recorrer ao Judiciário para exercer um direito acadêmico básico.
Como escreveu Lygia Maria, é vexatório que justamente instituições que deveriam proteger as liberdades acadêmica, associativa e de expressão sejam utilizadas para tentar restringi-las.
Celina é uma cidadã brasileira.
Ela tem DIREITO de discordar de políticas de identidade de gênero e criticá-las.
Celina é uma pesquisadora.
Ela tem DIREITO à liberdade de pesquisa.
Celina é uma MULHER.
Ela tem DIREITO de dizer o que é uma mulher e de não acreditar que um homem pode declarar ser uma mulher.
O ESTATUTO DA IGUALDADE RACIAL (2010) FOI UM ROLO COMPRESSOR SOBRE OS INDÍGENAS
1. Ao mesmo tempo que trouxe avanço importante para a população afrodescendente, ele leva ao “desaparecimento” dos indígenas como um dos principais componentes da formação da população brasileira!
2. Desde a Constituição de 1988, o reconhecimento da identidade indígena é fundamentado na autoidentificação e nos vínculos étnicos e comunitários.
3. A população cabocla, ribeirinha, mestiça etc autodeclarada PARDA no IBGE está fora desse enquadramento legal e institucional pós 88.
4. A demografia indígena foi então encurralada nesse marco e MINORIZADA: no imaginário social e político, os indígenas passaram a ser percebidos sobretudo como uma minoria demográfica restrita (a grupos étnicos específicos, em muitos casos) e não como uma presença constitutiva e amplamente disseminada na formação da população brasileira.
5. Os milhões de brasileiros pardos que possuem ancestralidade indígena, mas não mantêm vínculos comunitários ou étnicos que lhes permitam se reconhecer (ou ser reconhecidos oficialmente) como indígenas têm sua ancestralidade indígena varrida da história e são forçadamente TRANSFORMADOS EM NEGROS, segundo o Estatuto da Igualdade Racial de 2010.
6. No artigo 1o, parágrafo único e inciso IV, o Estatuto define como “população negra: o conjunto de pessoas que se autodeclaram pretas e pardas, conforme o quesito cor ou raça usado pela Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ou que adotam autodefinição análoga.”
7. Sugerir que a imensa população parda descendente de indígenas se reconheça como indígena, faça retomada, é NEGACIONISMO HISTÓRICO do processo de colonização do Brasil.
8. Seria muito cinismo político pedir que, após séculos de miscigenação, “integração” forçada e perda de vínculos com etnias e tradições, pedir que essas pessoas se reconheçam como indígenas.
9. Primeiro, que isso não é fácil por conta dos marcos legais específicos para os indígenas (CF 1988, FUNAI, RANI etc).
10. Segundo, porque é justamente essa população que ficou alijada de educação de qualidade que lhe permitisse compreender os processos de apagamento, violência e assimilação que romperam seus vínculos com a ancestralidade indígena.
11. Tudo isso tem inúmeros desdobramentos em políticas públicas em todas as áreas. Veja, por exemplo, as políticas de cotas. Mesmo nos estados do Norte, de esmagadora maioria indígena auto identificada como PARDA, eles são barrados nas bancas de heteroidentificação porque os editais exigem dos pardos com “fenótipos negros” (UFPA Edital nº 03/2025; UFAM EDITAL Nº 4/2025).
12. A construção do Brasil como um país de “maioria negra” foi possível, em parte, pelo APAGAMENTO DA ANCESTRALIDADE INDÍGENA presente em parcela significativa da população que se autodeclara PARDA nos levantamentos do IBGE.
13. Algumas perguntas não podem ser caladas: quais grupos e forças que construíram esse arcabouço legal e institucional que agride covardemente a população parda de origem indígena? Como chegamos a ele?
14. Em quais contextos políticos, intelectuais e institucionais esse processo ocorreu?
15. E quais foram seus efeitos sobre a representação da ancestralidade indígena na formação da sociedade brasileira?
#pardo #indigena #indigenas #memória #história #direitos #estatutodaigualdaderacial #ibge
Acabam de ser divulgados os dados sobre as vítimas de violência policial em 2025 e transformaram os pardos descendentes de inígenas do AM em "negros".
O parque de ONGs, coletivos e centros de pesquisa que influencia o debate público e as políticas públicas ligadas à desigualdade étnico-racial no Brasil é constituído por uma hegemonia ligada ao movimento negro (sobretudo do eixo Ba-Sudeste) + organismos do Norte Global, de influência sobretudo Norte-americana.
A coleta e a divulgação desses dados integram o estudo Pele Alvo, da Rede de Observatórios da Segurança. Vejam aqui os organismos e financiadores por trás desse processo de APAGAMENTO DOS PARDOS DESCENDENTES DE INDÍGENAS na percepção pública, contribuindo também para sua exclusão das políticas públicas. A força desse lobby está por trás de uma manchete como essa que vemos no G1 do Amazonas!
Em breve teremos a divulgação dos editais para entrada nas universidades e institutos federais do Norte do Brasil e provavelmente veremos de novo a força desse lobby sudestino na violenta exclusão da esmagadora maioria dos pardos do Norte porque exigem "fenótipos negros" nas bancas de heteroidentificação.
A violência contra os pardos descendentes de indígenas na produção de dados e políticas públicas acontece em todo o Brasil, mas aqui no Norte ela é mais flagrante.
Até quando vamos aceitar isso???
ANTIRRACISMO POPULAR
Existe um antirracismo profundo nas classes populares brasileiras, onde é bastante comum a convivência cotidiana entre brancos, pretos e pardos. Nesse convívio, formam-se redes de solidariedade, vizinhança e famílias inter-raciais.
Por não termos uma história marcada por segregação racial legalmente instituída, essa convivência permite que muitas pessoas percebam, na prática, que caráter, afeto e dignidade não têm relação com a cor da pele.
Mas esse antirracismo brasileiro e sua teoria enraizada nas práticas e relações sociais não vira carrossel de instagram ou curso de letramento racial.
O establishment do debate racial no Brasil hoje bebe sobretudo em teorias norte-americanas, formuladas em um contexto histórico de profunda segregação racial.
Além disso, o legado negativo do mito da democracia racial faz com que qualquer exemplo positivo de convivência interracial positiva do Brasil seja hoje invisibilizada ou até censurada, com acusações de que estão repondo o mito superado.
Quando saímos das classes populares, sim, vemos que a elite brasileira e a classe média alta continuam fechadas em espaços predominantemente brancos.
Negros são pretos e pardos se vc concordar em eliminar os descendentes de indígenas da história. Imagina vc chegar aqui no Pará e dizer pra essa imensa população parda com fenótipos indígenas que ela é negra pq a hegemonia Sudeste/ Bahia assim decidiu. Não é apenas no Norte. Há uma imensa população brasileira lida socialmente como parda e que assim se auto declara no IBGE. Negro é ligado à ancestralidade africana. Não é possível ser antirracista apagando os indígenas da memória nacional. As políticas públicas precisam abarcar pretos E pardos, sem forçar essa soma artificial e violenta contra os pardos que descendem dos povos originários.
Além de tudo agora a mulher parda que foi injustiçada pela banca racialista identitária e seus métodos do século 19 agora é alvo de engajamento de chacota "eu acho que ela não é", "mandou bem a banca", exibindo sua foto, vídeos, fotos antigas da pessoa, expondo-a como malandra. E pensar que pardos são a maioria da população brasileira.
O apagamento pardo é também um apagamento indígena, pois indígena é só quem usa cocar, mora na floresta e tá inscrito numa tribo? Cabelo liso, típico de muitos descendentes de indígenas que se consideram pardos e são levados pela militância a se "despertar" como negros, virou fator de eliminação. Convence a pessoa que ela não é parda depois elimina por ser parda. São brancos ou são pretos de acordo com os interesses da militância identitária. Mas nunca podem ser pardos.
Minha solidariedade a essa mulher extremamente competente, estudiosa, inteligente, que passou num concurso dificílimo e ainda tem q aturar otários e otárias dando palpite junto ao trauma que deve estar sendo reconstruir sua carreira e seu plano de vida a partir de agora. Entre na justiça, processe todos os envolvidos e que seu cargo seja justamente devolvido.
Ações afirmativas é para pessoas pretas e pardas. Simples. Não é para quem sobre racismo. Não é só para negros. É para pessoas pretas e pardas. Não importa sua opinião. E você não é o Lombroso para dizer quem é o não negro com base na sua avaliação do perfil físico de alguém.
A campanha e o ódio ideológico contra a mestiçagem promovidos hoje por certos ativistas e influenciadores não são inéditos. O pessimismo em relação à ideia do mestiço tem uma longa história no Brasil. A diferença é que, no passado, ele vinha sobretudo do campo conservador.
Aqui está um bom exemplo da interpretação da mestiçagem como degeneração, no auge das teorias raciais. Em 1899, Nina Rodrigues afirmou:
“A população [de Serrinha] é composta de mestiços, tais como os encontrados nas regiões centrais da Bahia. O tipo pardo, que reúne em proporções muito variáveis as três raças, branca, negra e amarela, predomina. (...) A tendência à degenerescência é, ao contrário, tão acentuada aqui quanto poderia ser num povo decadente e esgotado. A propensão às doenças mentais, às afecções graves do sistema nervoso, à degenerescência física e psíquica é das mais acentuadas. (...) a criminalidade é também aí uma simples manifestação da degenerescência produzida pela mestiçagem.”
Fonte: RODRIGUES, Nina. “Métissage, dégénerescence et crime”. In: Archives d’Anthropologie Criminelle, v.14, n.83, 1899. Tradução de Mariza Corrêa: RODRIGUES, Nina. Mestiçagem, degenerescência e crime. História, Ciências, Saúde-Manguinhos, v. 15, p. 1151-1180, 2008. pp. 1168-11670.
Assim como Nina Rodrigues, outros pensadores viam a mestiçagem e o mestiço como algo que inviabilizava o país: Euclides da Cunha; Silvio Romero; Renato Kehl etc.
A valorização ideológica da mestiçagem pela elite brasileira só se consolidaria com maior intensidade a partir da era Vargas, intensificando-se durante a ditadura militar por meio da ideologia da democracia racial.
Hoje, a interpretação ideológica pessimista da miscigenação está de volta, mas, desta vez, promovida por setores do campo progressista.
Seus artífices são ativistas influenciados principalmente por teorias norte-americanas que não toleram a identidade parda ou mestiça.
Por isso, procuram enquadrar todo pardo como negro ou interpretar todo pardo como produto de “apagamento”, “violência sexual” etc.
Tanto a agenda conservadora do passado quanto essa agenda progressista atual promovem, por razões distintas, um ideário de pureza racial ao atacarem a mistura de raças. Ambas propagam uma visão pessimista e um pânico ideológico diante da ideia de mistura, de ambiguidade e de identidades que escapam a classificações rígidas.
Por isso vemos toda essa fúria dos ativistas contra a identidade parda e mestiça.
#pardo #pardos #mestiço
@gabyfeerraz Entendo a intenção, mas acho o cúmulo do narcisismo exigir que pessoas deixem de seguir normas de citação apenas para o caso dela. É ego demais! Sem falar na chantagem embutida nessa exigência.
Você já ouviu falar na Irmandade dos Homens Pardos de Goiás, fundada no século 18?
Eles se juntaram na Vila Boa de Goiás em 1792 para oficializar a Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte dos Homens Pardos.
A irmandade funcionava em capela própria. Isso indica capacidade de organização, recursos materiais e reconhecimento social. Orgulhosos dessa autonomia, seus membros solicitaram à rainha D. Maria I, em 1792, a confirmação do compromisso, isto é, dos estatutos que regulavam a vida interna da associação.
A categoria pardo não foi imposta de cima para baixo, no século 20, como mero instrumento eugênico de branqueamento da população por meio da mestiçagem, como muitos influencers ativistas nos querem fazer acreditar.
A identidade parda é complexa e possui uma longa história social e política no Brasil.
Isso, evidentemente, não significa negar a discriminação. O Brasil escravista era estruturado por hierarquias étnico-raciais excludentes e violentas. O ponto é outro: a categoria “pardo” também foi historicamente apropriada por sujeitos concretos, que a mobilizaram em disputas por pertencimento, distinção, reconhecimento e direitos dentro da sociedade colonial.
Assumir-se pardo não significava alienação.
Posto aqui a transcrição do requerimento:
“Dizem o juiz e irmãos da Mesa da Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte dos Homens Pardos, instituída na sua própria capela ereta em Vila Boa de Goiazes, que, para melhor governo da mesma irmandade, fizeram o compromisso que ofereceram, e que este, para ter a sua verdadeira validade, deve ser confirmado por Vossa Majestade.
Para Vossa Majestade se digne confirmar-lhe o dito compromisso e que, ao dito fim, se lhe passe a provisão do estilo.
E receberá mercê.”
A rainha aprovou prontamente o compromisso, após recomendação de seus conselheiros. Este foi o despacho:
“Lido o compromisso, não há coisa que possa retardar a sua aprovação; devendo encher-se o vazio que se acha no capítulo 15, linha 12, com a palavra ‘repreensão’, que deixou de escrever-se. Rainha.”
Fonte: Arquivo Histórico Ultramarino, Goiás, Cx. 38, Doc. 2381, 1792.
#pardo #pardos
Você sabia que um homem pardo escreveu um poema em finais do século 18 satirizando a discriminação com base na cor da pele e contestando a “branquidade”?
O nome dele era Padre Domingos Simões da Cunha, de Paracatu (MG). Vamos ler os seus versos:
O QUE CHAMAM BRANQUIDADE
Eu não sei em que consiste
O que chamam branquidade!
Se na cor, se na entidade
Ou se tem outro algum chiste!
Se monarcas nunca visto
Sabes que eles brancos são t
Os brancos, em conclusão
Levam bispotes ao mar,
Por ladrões vão-se a enfocar…
Onde está o ser branco então!
Onde está o ser-branco, então?
Não busques no exterior,
Que o acidente da cor
Não é o que dá distinção:
Entra no seu coração:
Ve se tem uma alma nobre,
Gente ilustre, ainda que pobre,
Ações de homem de bem;
Se nada disto ele tem
É negro, por mais que obre.
Eu vejo um homem branco de bem
Dentro de uma carruagem;
Na traseira leva um pagem
E este o branco também.
Não me dirá, pois, alguem
Onde está a distinção?
Ambos os dois brancos são,
O de dentro e o da traseira
-Não se dá maior asneira!...
Onde está o seu branco então…
Onde está o seu branco então…
Dentro da alma estão os dotes.
Há reis pretos, sacerdotes,
Grandes, em toda a nação.
Mostraca [?] praia branquidão,
O ouro fusco é mais nobre;
A cor é um véu que encobre,
Bons e maus. O sangue é igual;
Quem põe nele o especial
É - negro - por mais que obre.
É branco o papa e o rei,
Fidalgo, duque, plebeu;
O moro, o índio, o judeu,
O pastor que guarda a grei;
Tapuio é branco por lei;
Os carrascos brancos são;
Marquês, criado e vilão,
Mochilas e mariollas…
É branco tudo… Ora bolas!
Onde está o ser branco então!...
FONTE: CUNHA, Domingos Simões da. O que chamam branquidade. In: Revista do Arquivo Público Mineiro, Belo Horizonte, v. 14, 1909, pp. 407-418, pp. 414-415. (transcrição com ortografia atualizada) O original encontra-se no Arquivo Público Mineiro.
Quem era esse padre pardo? Chamava-se Domingos Simões da Cunha, padre. Nasceu em 1755, em Paracatu, simultaneamente bispado de Pernambuco e capitania de Minas Gerais. Era filho de Clemente Simões da Cunha, português branco e capitão-mor, e de Bernarda do Espírito Santo, africana escravizada, natural de Angola.
Foi ordenado padre em 1779, mas enfrentou obstáculos em razão do chamado defeito de cor, tendo de solicitar ao bispo dispensa de seu “mulatismo”. Mais tarde, em data imprecisa, escreveu esse poema, no qual contestava a discriminação baseada na cor da pele.
Como vemos, a identidade parda tem raízes muito antigas no Brasil. Identificar-se como pardo não significava ausência de consciência racial nem alienação.
Ao recorrer à imagem do véu para refletir sobre cor, discriminação e fronteiras étnico-raciais, Simões antecipava, no Brasil do século XVIII, uma metáfora que seria retomada, já no século XX, por W. E. B. Du Bois.
#pardo #pardos
@gabyfeerraz Na próxima pandemia vc vai estar toda decolonial na fila dos cloroquiners bolsonaristas, passando boldo no umbigo. Eu vou tomar vacina e seguir a ciência ocidental. Quem poderia imaginar esse negacionismo científico mascarado de “justiça epistêmica”! Que loucura!
PARDOS E O “ACIDENTE DA COR”
No Brasil colonial, a ascendência africana e a origem escrava eram tratadas como um "DEFEITO”. Esse estigma podia impedir o acesso à universidade, a honrarias e a cargos de prestígio.
Por isso, muitos pardos que queriam ocupar esses espaços precisavam pedir ao rei o perdão do chamado “defeito de cor” ou “acidente da cor”.
Em 1744, Luis Martins Soares, pardo de Salvador, pediu ao rei português que dispensasse “os ACIDENTES DAS CORES PARDAS que tem, pela sua capacidade e inteligência”, para poder atuar no Judiciário da Bahia.
No pedido, Luis lembrava que outros pardos já haviam exercido funções parecidas em Salvador. Isso mostra que, mesmo diante das barreiras, homens pardos pressionavam, negociavam e conseguiam ocupar alguns cargos na administração colonial.
Segue a transcrição inteira e atualizada da petição:
“Diz Luis Martins Soares, natural da cidade de Salvador, que na dita cidade se acham muitos requerentes de causa quase incapazes de exercitar as suas ocupações pelos seus achaques há muitos anos e na pessoa do suplicante concorrem as partes e requisitos necessários para bem exercer a dita ocupação por ser bom judicial, escrevendo atualmente ao escrivão da ouvidoria geral do civil da Relação da dita cidade, como consta das certidões juntas, e capaz, como consta da sua carta patente de ajudante que foi do capitão mór Bernardo Cabral de Melo, NÃO OBSTANTE OS ACIDENTES DAS CORES PARDOS que tem, pela razão de que na mesma cidade houveram e há outros dos mesmos acidentes que serviram de requerentes e na secretaria do dito Estado um oficial dela e vossa majestade por sua real grandeza dispensa nos impedimentos das pessoas beneméritas, portanto:
Pede a Vossa Alteza atendendo ao referido lhe faça mercê mandar passar provisão para ser requerente do número da dita cidade da Bahia pela incapacidade ou morte do primeiro dos doze do número desta, dispensando nos ACIDENTES DAS CORES PARDAS que tem, pela sua capacidade e inteligência para bem exercer a dita ocupação.
E receberá mercê.”
Fonte: Arquivo Histórico Ultramarino, Bahia, CX. 85, Doc. 12, 1744.
DESTAQUE meu.
#pardo #pardos
Pelo que acompanho aqui, tenho certeza que vc é um pesquisador sério. Mas achei o enquadramento centrado na questão racial um pouco panfletário e essencializante. Isso me afastou do livro. Machado, em seu contexto, nunca se viu como negro. Quando vc destaca isso nas entrevistas, reduz a complexidade e ambiguidade do autor, pelo menos no que circulou no discurso que prevaleceu na divulgação feita por meio da imprensa. Me soou até um pouco oportunista insistir nesse chavão de ativistas influencers: vou resgata-lo como homem negro contra o apagamento da história oficial etc. Acho que a biografia de Machado e seu legado são grandes demais para caber nesse reducionismo presentista. Mas, de novo: digo isso com base na impressão superficial que ficou na divulgação.
INDÍGENA → CABOCLO/ PARDO → PARDO
Você sabe como os indígenas “desaldeados” foram parar na categoria PARDO dos censos brasileiros?
O trabalho de João Pacheco de Oliveira (UFRJ) oferece insights muito importantes para entendermos essa questão e os impactos HOJE da soma artificial pretos + pardos = negro sobre os indígenas, fazendo com que “desapareçam” do imaginário histórico brasileiro.
Nos primeiros censos do Brasil (1872 e 1890), a população indígena “desaldeada” era classificada como cabocla e parda (que abrangia também os afrodescendentes). No Amazonas, os caboclos eram a esmagadora maioria da população no censo de 1872: 63,9%! No Pará, eram 16,2%; no Mato Grosso, 14,1%.
Nos censos do século XX, a população indígena “desaldeada”, “assimilada” e “misturada” foi sendo abrangida pela categoria pardo.
No censo de 1940, por exemplo, já não havia mais o termo caboclo; só restava para eles o termo pardo. Por isso, hoje em dia, dizer que todo pardo é negro (afrodescendente) é uma construção política que faz essa população de origem indígena “desaparecer”.
Fonte: OLIVEIRA, João Pacheco de. “Pardos, mestiços ou caboclos: os índios nos censos nacionais no Brasil (1872-1980).” Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 3, n. 6, p. 61-84, out. 1997 https://t.co/N861thKTRl
#pardo #pardos