@ImGoldenBoy A gente precisa respeitar os artistas, existem contratos comerciais que impedem a manifestação política. Não sabemos nada da vida dos outros. Vamos separar as coisas, arte já é política. Entendeu?
#LULAREELEITO 🇧🇷
Venho aqui pelo quarto dia seguido falar a mesma coisa:
A capacidade de mobilização popular pró Lula nesse segundo turno é IMPRESSIONANTE. Atos massivos, diários e em diversas cidades grandes e pequenas.
Vai virar? Não sei. Mas a força política desse fenômeno é brutal.
Putin não é de esquerda. Lula também não é aliado ideológico dele
Uma parte do debate político brasileiro trata Vladimir Putin como herdeiro da União Soviética e, por isso, como aliado natural da esquerda e do governo Lula. Os fatos não sustentam essa ideia. Quando se olha para a política interna, os valores, a economia e as alianças externas do Kremlin, o regime de Putin tem muito mais em comum com a extrema direita do que com qualquer projeto progressista.
Em casa, Putin persegue a esquerda
Na Rússia, militantes de esquerda, sindicalistas e socialistas contrários à guerra estão entre os alvos da repressão. O caso mais conhecido é o do sociólogo marxista Boris Kagarlitsky, um dos intelectuais de esquerda mais respeitados do país. Em fevereiro de 2024, ele foi condenado a cinco anos de prisão por "justificar o terrorismo", depois de comentar em vídeo a explosão na ponte da Crimeia [1] [2].
O sindicalismo independente também é reprimido. Kirill Ukraintsev, líder do sindicato de entregadores "Kurier", foi preso em abril de 2022 depois de organizar greves contra cortes de remuneração. Ele passou cerca de dez meses em prisão preventiva e foi reconhecido como preso político por organizações de direitos humanos [3].
A base de poder do regime não está nos sindicatos nem nos movimentos sociais. Está nos siloviki, como são chamados os homens das forças de segurança (FSB, polícia e Forças Armadas), e na aliança com a Igreja Ortodoxa.
Seus valores são de extrema direita
A agenda de costumes do Kremlin é ultraconservadora:
LGBT: em 2013, a Rússia proibiu a "propaganda LGBT" para menores. Em 2022, a proibição passou a valer para todas as idades. Em novembro de 2023, a Suprema Corte classificou o "movimento LGBT internacional" como organização extremista [4].
Violência doméstica: em 2017, uma lei transformou a primeira agressão contra familiares sem lesão grave de crime em infração administrativa, punida com multa. A Human Rights Watch documentou o efeito dessa mudança: na prática, os agressores passaram a contar com a impunidade [5].
Natalidade e aborto: em 2024, o país proibiu a "propaganda da vida sem filhos" [6]. A lei faz parte de uma ofensiva natalista que também inclui restrições regionais à "indução ao aborto".
Religião e família: a reforma constitucional de 2020 incluiu na Constituição a "fé em Deus" herdada dos antepassados e a definição do casamento como união entre homem e mulher. O Estado continua formalmente laico, mas se aproximou muito do conservadorismo religioso [7].
Em 2019, em entrevista ao Financial Times, Putin disse que "a ideia liberal se tornou obsoleta" [8] [9]. No plano das ideias, o nome mais associado ao regime é o de Alexander Dugin, teórico de um eurasianismo ultranacionalista e imperial. A pesquisadora Marlene Laruelle argumenta que a influência direta de Dugin sobre Putin é exagerada pela imprensa ocidental [10]. Mesmo assim, a visão de mundo imperial e antiliberal de Dugin se parece muito com o discurso oficial russo. Nada disso tem relação com a agenda do PT.
Sua economia é um capitalismo oligárquico
A Rússia não é socialista. De 2001 a 2020, o país teve um imposto de renda de alíquota única de 13%, um dos mais regressivos do mundo. Uma escala progressiva modesta, com alíquota máxima de 22%, só entrou em vigor em 2025 [11]. Em 2013, o Credit Suisse apontou a Rússia como o país de maior desigualdade de riqueza do mundo, com exceção de pequenos países do Caribe: 110 bilionários detinham 35% de toda a riqueza das famílias [12].
Putin usa símbolos soviéticos, mas como ferramenta nacionalista e não como projeto socialista. No discurso de 21 de fevereiro de 2022, três dias antes da invasão, ele disse que a Ucrânia soviética poderia ser chamada de "a Ucrânia de Vladimir Lenin", que seria seu "criador e arquiteto". Também ironizou: "Vocês querem descomunização? Estamos prontos para mostrar o que é uma verdadeira descomunização" [13]. O mito fundador do regime não é a Revolução de Outubro. É o Império Russo e a "Grande Guerra Patriótica".
Seus aliados no Ocidente são da extrema direita
No Ocidente, quem admira Putin está quase sempre na extrema direita:
França: em 2014, a Frente Nacional, partido de Marine Le Pen, recebeu um empréstimo de cerca de 9 milhões de euros do First Czech-Russian Bank [14].
Itália: a Lega de Matteo Salvini foi investigada pelo escândalo do Hotel Metropol, em Moscou, onde foi gravada uma negociação para financiar o partido com dinheiro de petróleo russo [15].
Alemanha: o deputado da AfD Petr Bystron foi investigado em 2024 sob suspeita de receber pagamentos da rede pró-Kremlin "Voice of Europe" [16].
Hungria: Viktor Orbán visitou Putin em Moscou em julho de 2024 e foi condenado pelos demais líderes da União Europeia [17].
Estados Unidos: dias antes da invasão, Donald Trump chamou a estratégia de Putin de "genial" e o descreveu como "muito esperto" [18].
Há nuances. Algumas figuras da esquerda europeia têm posições ambíguas sobre a guerra. Fora da Europa, governos como os de Cuba, Venezuela e Nicarágua são parceiros de Moscou. Nesses casos, porém, o que move a aproximação é o antiamericanismo e o interesse geopolítico, e não a admiração pelo modelo russo. Nenhum grande partido de esquerda europeu trata Putin como referência ideológica. Uma parte importante da extrema direita trata.
A relação com Lula é de negócios, não de ideologia
Lula conversa com Putin por motivos práticos. O primeiro são os fertilizantes: a Rússia é o maior fornecedor do Brasil, com mais de um quarto das importações em 2024 [19] [20]. Os outros são o comércio dentro do BRICS e a antiga ambição brasileira de ter uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU. Putin, por sua vez, quer usar o Brasil como ponte para o Sul Global e assim reduzir seu isolamento depois da invasão da Ucrânia.
A retórica de Lula sobre a guerra já recebeu críticas, por exemplo quando disse em 2022 que Zelensky era "tão responsável quanto Putin" [21]. Ainda assim, em fevereiro de 2023, o Brasil votou na Assembleia Geral da ONU a favor da resolução que exigia a retirada imediata das tropas russas da Ucrânia [22]. Isso é diplomacia de não alinhamento, não alinhamento ideológico.
Se Bolsonaro fosse presidente, Putin faria exatamente o mesmo, e de fato fez. Em 16 de fevereiro de 2022, oito dias antes da invasão, Bolsonaro foi recebido no Kremlin e declarou: "Somos solidários à Rússia" [23] [24].
Conclusão
Nacionalismo autoritário, guerra imperial, militarismo, tradicionalismo religioso, perseguição a minorias e capitalismo oligárquico: esse conjunto não define a esquerda. É, praticamente, a definição de manual da extrema direita. Lula não é aliado ideológico de Putin. Para o Kremlin, ele é um parceiro útil, assim como Bolsonaro foi.