O antissemitismo do bem é o capítulo mais vergonhoso de 2023
O ódio aos judeus disseminado nos últimos dias nas redes sociais não é um fenômeno do mundo contemporâneo. Pelo contrário: é uma indignidade repetidas vezes encontrada na história.
Desde a Antiguidade, o antissemitismo tem raízes profundas na nossa cultura política. E o estereótipo é quase sempre o mesmo: judeus são ratos gananciosos e avarentos que controlam o poder e a riqueza no mundo, manipulando os interesses da população para alimentar uma pequena elite judaica.
Na Europa, a origem desse sentimento está fartamente documentada. O antissemitismo nasce como uma expressão da fé.
Já nos primeiros séculos do cristianismo, a Igreja Católica proibia a cobrança de juros sobre empréstimos – primeiro para o clero (no Primeiro Concílio de Niceia, em 325), e então, gradativamente, para os demais cristãos.
A Igreja se baseava em diferentes passagens do Antigo Testamento para isso (Êxodo, 22:25; Levítico, 25:36-37; Deuteronômio, 23:19-20).
Mas a demanda por crédito existia. E como os judeus não estavam sujeitos às leis canônicas cristãs, muitos sobreviviam do empréstimo de dinheiro com juros; uma prática conhecida como usura.
Essa atividade, por motivos óbvios, mesmo indispensável, gerava um ressentimento generalizado contra os judeus. Devedores cristãos que não podiam pagar seus empréstimos muitas vezes entravam em conflito com os seus credores judeus.
Em diferentes ocasiões, ao longo da Idade Média, após acumularem dívidas significativas com esses credores, comunidades inteiras expulsavam judeus à força e confiscavam seus bens.
Os judeus sobreviviam como podiam.
Em alguns reinos, eles até podiam se dar ao luxo de viver sob a “proteção” direta do monarca. Mas o ônus não era pequeno. Judeus pagavam volumosos impostos diretamente ao rei (significativamente mais altos que os demais) para, só assim, receber certos direitos (uma política conhecida como “servi camerae regis”).
Essa relação ajudava a criar um estereótipo – presente até hoje – de que os judeus tinham uma conexão especial ou privilegiada com o poder – capazes até de manipular os interesses da população – mesmo que, na prática, essa “proteção” fosse construída à base da exploração.
Os monarcas medievais precisavam de recursos para financiar campanhas militares e projetos de construção, e muitas vezes – em nome dessa “proteção” – empregavam judeus especialistas em finanças para auxiliá-los a coletar todo dinheiro necessário.
Em algumas regiões, para cumprir esse papel, muitos judeus também eram designados como cobradores de impostos – o que só ajudava a torná-los ainda mais impopulares.
Não impressiona que os judeus repetidamente servissem como bodes expiatórios para desviar a ira e o medo da população em tempos de crise.
Mas o dinheiro era só uma parte do problema.
Além de avarentos, os judeus europeus também eram injustamente acusados de uma lista interminável de vilanias, desde envenenar poços até espalhar doenças como parte de uma conspiração para assassinar cristãos.
No século 14, eles foram diretamente responsabilizados pela Peste Negra.
Alguns historiadores acreditam que, como viviam em bairros isolados e conservavam hábitos de higiene prescritos pela lei judaica, os judeus eram menos expostos a adoecer em epidemias. E por isso a culpa sobre eles parecia óbvia.
As acusações resultavam em pogroms violentíssimos contra comunidades judaicas.
(Pogrom é como nós chamamos os episódios de violência em massa dirigidos a qualquer grupo étnico. A palavra tem origem no russo “погром” [pogrom], que significa literalmente “destruição”. O uso da expressão pogrom, fora da Rússia, se popularizou após outro episódio antissemita: quando os czares perseguiram os judeus que viviam no sul do país, no século 19.)
Culpados pela peste, milhares de judeus foram torturados, expulsos de suas cidades ou mortos. Muitos tiveram suas propriedades destruídas ou confiscadas. Outros tantos foram queimados vivos.
Nesse tempo, a segregação ditava a relação entre judeus e cristãos.
Por séculos, judeus viveram sob um sistema de apartheid em diferentes cidades europeias. Até hoje essa história influencia a nossa língua.
Em 1516, as autoridades de Veneza delimitaram uma área da cidade, onde funcionava uma fundição, para os judeus viverem. Fundição no dialeto veneziano é "ghèto". Essa é a raiz histórica da periferia moderna. O gueto judeu era uma área isolada da cidade, com portões trancados à noite.
Na Espanha e em Portugal, esses bairros judeus eram conhecidos como judiarias. Até hoje nós recorremos a essa palavra quando falamos do ato de maltratar alguém. Esse também é o sentido de judiar.
No Renascimento, o ódio aos judeus também estava associado aos negócios.
Como os judeus eram proibidos de possuir terra ou exercer cargos públicos, inúmeros se dedicavam à atividade comercial.
Nos momentos de crise, aristocratas e senhores feudais saíam espalhando, mais uma vez, que eles eram gananciosos, mercenários, desrespeitosos com a tradição, incultos e hereges.
Todos esses estereótipos moldaram a imagem dos judeus por séculos e séculos.
Com base nisso, a Inglaterra expulsou os judeus em 1290. A França, em 1394. A Espanha, em 1492. E Portugal, em 1496.
Os judeus foram expulsos de Viena em 1421. Da Sicília, em 1493. De Nuremberg, em 1499. E de Praga, em 1541.
Mesmo quando não eram expulsos, em quase todos os países europeus os judeus também eram proibidos de ter empregados ou se casar com não-judeus. Muitos foram submetidos à conversão forçada para o cristianismo.
Foi só no século 19, no Iluminismo, que os judeus passaram a ser assimilados à vida cosmopolita na Europa. Desde então, mesmo pequena, a comunidade judaica europeia influenciou o mundo de diferentes maneiras, com figuras como Freud, Marx, Einstein e Kafka.
Mas o antissemitismo jamais deixou de existir. Em muitos países europeus, os judeus eram considerados cosmopolitas demais para serem cidadãos leais. E a consequência direta desse preconceito foi o maior genocídio da história da Europa – e o episódio central do século 20: o Holocausto.
Não surpreende que, em meio a tudo isso, os judeus que sobreviveram a essa máquina europeia de aniquilamento, tenham partido para Israel, a terra de seus antepassados. Por mais de mil anos vivendo na Europa, eles foram difamados, segregados, presos, torturados, assassinados, convertidos à força, expulsos de suas casas e cidades, e ainda viram seus bens repetidamente confiscados.
Mas no Oriente Médio, muitos desses problemas também atingiam suas comunidades. E a criação do Estado de Israel, em 1948, intensificou ainda mais esses problemas.
Muitos judeus que viviam em países árabes sofreram consequências duríssimas.
Só na primeira metade do século 20, judeus sofreram pogroms, ou enfrentaram episódios de massacre e saque generalizado de suas casas, na Argélia (em 1934, de inspiração nazista), no Iraque (em 1941, um episódio conhecido como Farhud), na Líbia (em 1945), no Egito (em 1945), na Síria (em 1947), no Marrocos (em 1948) e no Iêmen (em 1949).
Em muitos países árabes, leis foram promulgadas restringindo os direitos dos judeus, congelando seus bens ou os excluindo de certos empregos e posições.
Como resultado dessa hostilidade, um grande número de judeus foi preso, expulso ou se viu forçado a fugir do país.
Estima-se que a partir da década de 1940, pelo menos 850 mil judeus deixaram países árabes e do Oriente Médio – um número maior do que o de palestinos refugiados na guerra que levou à criação do Estado de Israel (de até 750 mil). Muitos desses judeus vieram para o Brasil.
Até hoje, a história desses refugiados judeus em países árabes é esquecida.
A rejeição aos judeus no Oriente Médio, desde então, atinge quase todas as áreas. Mesmo o esporte.
Por exemplo: Israel chegou a fazer parte da Confederação de Futebol da Ásia. Mas foi excluído da organização, em 1974, pela rejeição do mundo árabe.
Nas únicas quatro edições da Liga dos Campeões da Ásia em que os clubes israelenses puderam jogar, eles chegaram a quatro finais e venceram três.
No mesmo período, nas únicas quatro edições em que pode participar da Copa da Ásia, a Seleção de Israel foi vice-campeã duas vezes, terceira colocada uma vez e campeã em 1964.
Desde então, os israelenses chegaram a disputar eliminatórias de Copa do Mundo pela Oceania, e desde 1992 fazem parte da UEFA, a federação europeia de futebol.
Hoje, o ódio aos judeus está fora de moda na política tradicional europeia. Mas, em menor grau, ainda influencia a cultura do continente e é uma política de Estado para diferentes países árabes. Especialmente no que diz respeito à diplomacia.
Há décadas, Israel é vítima de um número desproporcionalmente alto de resoluções críticas por parte de diversos órgãos da ONU, especialmente a Assembleia Geral e o Conselho de Direitos Humanos.
Por exemplo: desde 2015, a Assembleia Geral da ONU condenou a Rússia, a maior ditadura da Europa, 23 vezes.
O Irã recebeu 7 condenações no período. A Coreia do Norte recebeu 8. China, Cuba, Catar e Venezuela não receberam nenhuma condenação.
Desde 2015, a Assembleia Geral condenou Israel 140 vezes. Nenhum outro país passou nem perto desse número.
Não há nenhuma justificativa humanitária para a disparidade. Mas as motivações não são técnicas.
Dos 193 países membros da ONU, 28 não reconhecem Israel (15%). Desses, apenas 3 não têm maioria muçulmana (Cuba, Venezuela e Coreia do Norte).
Israel é o Estado-membro da ONU com o maior número de países que não reconhecem a sua existência.
A grande maioria dos países que não reconhecem Israel fazem parte da Organização de Cooperação Islâmica (composta por 57 estados-membros).
Quase todos esses países pertencem ao Movimento dos Países Não-Alinhados, uma organização internacional de estados que se consideram não alinhados formalmente com qualquer grande potência.
O Movimento dos Países Não-Alinhados representa quase 2/3 dos membros das Nações Unidas e conta com 55% da população mundial. Este é um grupo que frequentemente vota em bloco sobre questões relativas a Israel.
Além disso, dos 47 países que formam o Conselho de Direitos Humanos da ONU, 70% não são democracias – incluindo autocracias como China, Cuba, Eritreia, Paquistão, Somália, Sudão, Argélia e Emirados Árabes Unidos. Muitos desses países têm maioria árabe ou muçulmana.
Não surpreende a quantidade de resoluções condenatórias na ONU.
Nesse momento, há certamente muita gente honesta crítica do governo Netanyahu e dos assentamentos israelenses na Palestina, contrária ao terrorismo do Hamas, mas a favor do reconhecimento internacional e da soberania de um Estado palestino. Mas nos últimos dias, muitas dessas posições, em todo o mundo, surgiram carregadas de comentários antissemitas, encobertos com os mesmos estereótipos que há mais de mil anos condenaram os judeus a diferentes episódios de violência.
De insultos em redes sociais a ataques a espaços judaicos, o ódio anti-judeu vem sendo sistematicamente usado por grupos políticos que buscam explorar deste sentimento histórico para angariar simpatia por ideologias que sobrevivem na memória coletiva por seus episódios de violência (incluindo episódios de interferência imperialista, guerras e perseguição dirigida contra árabes ou muçulmanos, no passado e no presente).
Ninguém tem a ingenuidade de acreditar que esse ódio acabará com hashtags, canções de protesto e campanhas publicitárias. O antissemitismo é uma mancha antiga, difícil de tirar; um monstro empurrado pra dentro do guarda-roupa da história que insiste em assombrar o mundo.
Mas é uma obrigação a qualquer sujeito que não seja um antifascista de boutique conhecer a sua natureza. Até para que os episódios violentos citados nesse texto – liderados, quase sempre, por aqueles que juram salvar a humanidade – jamais se repitam.
Não há antissemitismo do bem.
Quem toma as dores de movimento terrorista não defende direitos humanos.
Quem milita por governo teocrático não pode cobrar laicismo de ninguém.
Quem apoia ditadura não é democrata.
Quem acredita num suposto direito cultural à violência contra a mulher não é humanista.
Quem acredita num suposto direito cultural à violência contra LGBTs não é progressista.
Quem é antissemita não é antirracista.
Quem apoia o Estado da Palestina, mas se opõe às bandeiras de Taiwan, Xinjiang, Tibete, Ucrânia e Hong Kong, não tem compromisso com a autodeterminação dos povos.
Numa era em que a incoerência move os discursos políticos, dizer o óbvio é um ato revolucionário.
Em matéria política, você não é aquilo que diz que é: você é aquilo que defende. E quem é apologista de violência não é moderado – é extremista.
@beckermarcelo Principalmente pelo Andres. Mesmo com a vitória no derby, boa parte da torcida ainda queria a troca de técnico. Mas certamente a vitória no derby ajudou o Andres a tomar a melhor decisão que podia ter acontecido.
"Lula gastou R$ 12 milhões no cartão corporativo, em 4 meses".
"Ah, mas Bolsonaro gastou R$ 8 milhões em férias".
Aí fica um lado tentando mostrar como um é menos pior que o outro.
E nisso esquecemos o principal: há uma classe de burocratas que vive às custas de quem produz.🧵
EDITORIAL: "Lula faz o eleitor de bobo - petista quer fazer o País acreditar que, se ele é ‘inocente’, então nunca houve petrolão. Ao agir assim, e prometer ‘recuperar’ a Petrobrás depois que o PT quase a destruiu, é um insulto" https://t.co/7LLprorJCr
Lula ameniza as ditaduras de Cuba e da Nicarágua. Bolsonaro ameniza as ditaduras dos Emirados Árabes e de Bahrein. Não interessa se os ditadores sejam de esquerda, como Cuba, ou de direita, como nos Emirados. Ditaduras são ditaduras
@passagensaereas Renovei meu visto ontem, dia 08/11, mas embora já tenha sido vacinado, não perguntaram nem solicitaram comprovação para renovar o visto.
@Leandrovs18@Vessoni Comigo, ingressoscorinthians tb, as 19:00 ainda constava o jogo do ano passado. As 19:15, transformaram o jogo do ano passado em crédito. Até agora ainda não apareceu o jogo do Bahia 🤷🏻♂️
@passagensaereas@AbnerDangelo Morro de São Paulo, pipa, parati, chapada dos veadeiros, Pão de Açúcar, Poços de Caldas, lençóis maranhenses, canoa quebrada, Ouro Preto, Olinda, gramado