O problema não é admirar o Messi. Eu também o admiro. Gênio. Ponto.
O problema é transformar essa admiração em licença para reescrever a história do futebol de maneira conveniente e interesseira aos próprios gostos.
Já não basta ignorarem Garrincha e empurrá-lo para um patamar inferior ao que sua carreira justifica.
Agora, parte da canalhada da imprensa resolveu fazer o mesmo com Pelé, justamente o homem que se tornou o parâmetro de qualquer discussão sobre grandeza no futebol. Em vez de analisar a história, preferem adaptá-la para que caiba na narrativa do ídolo que acompanharam de perto.
No fim, não defendem Messi. Defendem a própria incapacidade de admitir que o maior jogador da história talvez tenha brilhado antes de eles começarem a assistir futebol.
Entende...
🗣️ Kareem Abdul-Jabbar com o verbo:
"Muito antes de eu me tornar Kareem Abdul-Jabbar, o jogador de basquete, eu era Lew Alcindor, um jovem negro crescendo em um país que insistia em se dizer pós-racial, mas que me mostrava todos os dias que não era. Quando cheguei à UCLA, eu já tinha visto o suficiente para saber que ficar calado não me protegeria. Nem a mim, nem a ninguém que se parecesse comigo. Eu vi cidades pegarem fogo após o assassinato do Dr. King. Vi os corpos. Ouvi o luto. Vivi o medo. Falar não era uma escolha. Era a única resposta honesta.
Lembro de boicotar as Olimpíadas de 1968 e de ouvir que eu era antiamericano, ingrato, desrespeitoso com meu país. Mas eu sabia o que tinha visto. O Dr. King tinha acabado de ser assassinado. No verão anterior, Newark queimou por cinco dias, Detroit por oito. As pessoas me diziam para ficar quieto, para apenas jogar basquete. E eu tive de decidir se aceitava a narrativa que estavam construindo sobre mim ou se confiava nos meus próprios olhos.
Naquela época, não havia câmeras em todos os bolsos. Tínhamos o testemunho uns dos outros. Tínhamos os corpos. Tínhamos os prédios queimados, os restos carbonizados da raiva e do medo. A verdade estava gravada no mundo ao nosso redor.
É esse fio que liga 1968 a Minneapolis hoje. Quando você cobra responsabilização, o sistema tenta transformar você no problema. As instituições questionam suas motivações, seu patriotismo, até mesmo seu direito de falar. É uma distração, uma cortina de fumaça. (Ou, neste caso, uma cortina de gás.) Porque nada representa melhor "lei e ordem" do que lançar spray de pimenta e gases tóxicos, e se recusar a investigar as próprias ações no mínimo questionáveis, quando não claramente ilegais.
Meu pai costumava me dizer que não escolhemos se coisas difíceis vão acontecer. Só escolhemos como vamos reagir. Agora, o povo de Minneapolis está escolhendo se levantar, testemunhar, recusar o silêncio. Eu digo que devemos ficar ao lado deles."