@Murillogava , com todo respeito, concordo que imprensa e políticos tiveram um papel importante. Mas, para mim, eles foram apenas o meio, não a causa.
O verdadeiro problema está em nós. É muito fácil apontar o dedo para quem manipulou. Mais difícil é reconhecer por que fomos manipulados.
Em que momento deixamos de exercer nosso senso crítico? Em que momento deixamos de confiar na nossa própria consciência para aceitar, sem questionar, tudo o que nos era dito?
A pandemia mostrou algo preocupante: muitas vezes abandonamos a lógica. Todos percebiam as inúmeras contradições que surgiam, mas, ainda assim, muitos deixaram de questioná-las. Quando o medo supera a razão, a lógica deixa de orientar nossas decisões.
Por isso, continuo acreditando que a raiz do problema não foi a imprensa nem os políticos. Eles foram instrumentos. O problema é que uma sociedade que perde seus princípios, sua consciência e sua fé torna-se cada vez mais suscetível a qualquer narrativa.
Quem manipula sempre existirá. A verdadeira questão é construir uma sociedade que não possa ser manipulada.
Quanto a segunda pergunta - "E como esse sujeito não está preso ainda?" - acredito que a resposta já não é apenas jurídica. Ela é, sobretudo, política e institucional.
Quando determinadas figuras passam a representar interesses muito maiores do que elas próprias, sua responsabilização deixa de depender apenas da análise dos fatos e passa a sofrer influência do contexto político, institucional e dos interesses que gravitam ao seu redor. Isso não deveria acontecer em um Estado de Direito, mas a História novamente demonstra que, muitas vezes, acontece.
Ao longo do tempo, inúmeras figuras públicas permaneceram protegidas porque estavam inseridas em projetos políticos, econômicos ou ideológicos de grande alcance. Enquanto esses projetos permanecem fortes, seus principais representantes tendem a encontrar mecanismos de sustentação e proteção.
Mas existe uma reflexão ainda mais profunda.
Nenhum poder se sustenta apenas pela força de quem governa. Ele depende, sobretudo, da submissão de quem é governado. O povo, muitas vezes, não percebe a força que possui. Se compreendesse que toda autoridade, em última análise, depende da própria sociedade, dificilmente aceitaria passivamente ordens manifestamente injustas ou desproporcionais.
Quando uma população perde sua capacidade de questionar e passa apenas a obedecer, torna-se facilmente conduzida. E isso volta ao ponto central da primeira pergunta: uma sociedade que substitui Deus pelo homem acaba atribuindo a determinados líderes uma autoridade quase absoluta. O resultado é que princípios deixam de orientar as decisões, sendo substituídos pela vontade daqueles que exercem o poder.
Talvez por isso algumas pessoas pareçam inalcançáveis. Não porque sejam superiores à lei, mas porque, enquanto determinados interesses permanecerem suficientemente fortes para sustentá-las, a responsabilização torna-se mais difícil.
Por isso, a pergunta talvez não seja apenas "por que ele ainda não foi preso?", mas "como uma sociedade permite que determinados indivíduos pareçam acima da responsabilização?"
Uma democracia saudável exige que ninguém esteja acima da lei. Mas exige também cidadãos conscientes de que sua maior liberdade não nasce da submissão a homens, e sim da fidelidade aos princípios. Porque quando Deus deixa de ocupar o primeiro lugar, inevitavelmente outro poder ocupa esse espaço. E quando isso acontece, a liberdade deixa de ser exercida pela consciência e passa a ser limitada pela vontade daqueles que detêm o poder.
Em resposta a sua primeira @Rconstantino :"Como tanta gente se mostrou tão manipulável assim?". Acredito que a resposta vai muito além da política ou da ciência. Ela passa, antes de tudo, pela fé. E não falo apenas da religião, mas da consciência de que existe algo acima do próprio homem.
Quando uma sociedade deixa de olhar para Deus e passa a depositar sua confiança absoluta em seres humanos, ela inevitavelmente se torna mais vulnerável à manipulação. A História mostra isso repetidas vezes. O problema nunca foi a existência de líderes. O problema começa quando eles deixam de ser referência e passam a ocupar um lugar quase infalível.
Ao longo dos séculos, em tempos de grandes epidemias, homens e mulheres de fé enfrentaram o medo para cuidar dos doentes. Igrejas abriram suas portas para acolher enfermos, religiosos permaneceram ao lado daqueles que sofriam e o próprio Cristo caminhou entre os leprosos quando todos deles se afastavam. A mensagem sempre foi a mesma: "Não temais." A coragem cristã nunca significou ausência de prudência, mas a confiança de que Deus permanece soberano mesmo nas maiores adversidades.
A pandemia revelou algo preocupante. Muitos deixaram de confiar em Deus para confiar exclusivamente na autoridade humana. O medo passou a orientar todas as as decisões. E quando o medo ocupa o lugar da fé, o senso crítico costuma ser a primeira vítima. O homem deixa de buscar a verdade e passa apenas a obedecer.
Talvez seja exatamente por isso que tantas pessoas se mostraram manipuláveis. Quando Deus deixa de ocupar o centro da vida, esse espaço nunca permanece vazio. Ele passa a ser ocupado por alguém ou por alguma coisa. Ao longo da história, esse lugar já foi ocupado por reis, imperadores, ideologias, governos, líderes políticos e instituições tratadas como se fossem infalíveis.
Não é por acaso que os primeiros mandamentos estabelecem uma ordem. Deus deve ocupar o primeiro lugar. A partir dessa referência, todas as demais relações encontram seu equilíbrio, inclusive a família. Quando essa ordem é invertida, os princípios tornam-se relativos, a consciência é substituída pela obediência ao poder humano e o homem passa a cultuar a criatura em lugar do Criador.
Talvez esse seja um dos maiores sinais de deterioração de uma sociedade: quando deixamos de perguntar "o que é certo?" para perguntar apenas "quem mandou?". A partir desse momento, já não seguimos princípios; seguimos pessoas. E quando homens passam a ocupar o lugar que pertence apenas a Deus, a manipulação deixa de ser exceção para se tornar consequência.
Demorou, mas, como diz o velho ditado, nunca é tarde para recomeçar.
Dito isso, acredito que ambos agiram com a maturidade que o momento exigia e transmitiram um recado importante: diferenças precisam ser colocadas de lado quando o objetivo maior é a coletividade.
Ouso dizer que, neste episódio, ambos saíram fortalecidos, e os números parecem demonstrar exatamente isso. O nosso povo, em sua maioria, valoriza a humildade, a capacidade de reconhecer excessos e a disposição para a conciliação. Foi justamente isso que Michelle e Flávio demonstraram.
Às vezes, é preciso que a realidade seja exposta para que haja reflexão, amadurecimento e mudança. Ao mesmo tempo, esse episódio também ajuda a identificar quem realmente deseja a união e quem continua apostando na discórdia, alimentando divisões que em nada contribuem.
Com todo respeito, é impressiona como algumas pessoas sofrem de uma espécie de amnésia seletiva quando o assunto é defender determinadas figuras políticas.
Sejamos coerentes. Durante o governo Bolsonaro, a relação comercial e institucional entre Brasil e China foi mantida e aprofundada em diversas frentes. Em 2019, o próprio senador Flávio Bolsonaro integrou uma comitiva de parlamentares que visitou a Huawei na China, afirmando que o objetivo era estreitar as relações comerciais entre os dois países.
https://t.co/0zmflqpoPS
Além disso, apesar da forte pressão do governo Donald Trump para que diversos países restringissem a Huawei, o governo Bolsonaro não baniu a empresa do leilão do 5G. Ao contrário, optou por uma postura pragmática, permitindo sua participação no mercado brasileiro, ainda que com restrições específicas para a rede privativa do governo.
https://t.co/gp8TXdFncc
Em 2022, já no governo Bolsonaro, o Ministério da Ciência e Tecnologia participou de uma parceria com a Huawei voltada ao desenvolvimento de tecnologias ligadas ao 5G e à inteligência artificial, sinalizando que a polêmica anterior havia sido superada.
https://t.co/BnXcjd1tbE
O próprio Flávio Bolsonaro, em maio deste ano, declarou que não vê problema em dialogar tanto com os Estados Unidos quanto com a China e que sua política externa seria pragmática, sempre buscando o que fosse melhor para o Brasil.
https://t.co/u8CXd11x1j
Ademais, foi durante o governo Bolsonaro que a relação econômica entre Brasil e China alcançou seu auge histórico. Entre 2019 e 2022, o comércio bilateral bateu recordes sucessivos, consolidando a China como principal parceiro comercial do Brasil e ampliando significativamente os investimentos chineses no país.
https://t.co/i45zQOI00a
Diante disso, a pergunta é simples: se ontem o diálogo com a China e com a Huawei era tratado como pragmatismo e interesse nacional, por que hoje o mesmo comportamento, quando praticado por Zema ou Caiado, passa a ser apresentado como uma traição?
Podemos concordar ou discordar da aproximação com a China. O que não podemos é mudar o critério conforme a pessoa envolvida. Se defendemos coerência, ela deve valer para todos.
É impressionante como alguns conseguem resumir, em poucas palavras, a decadência de um movimento inteiro.
Quando alguém afirma, sem qualquer constrangimento, que "passa pano" para um político simplesmente porque ele é "filho do meu capitão", deixa de existir pensamento político. O que resta é idolatria.
Durante anos, repetimos que a direita era diferente porque defendia princípios, e não pessoas; valores, e não conveniências; coerência, e não torcida organizada.
Hoje, alguns dos que se dizem intelectuais da direita nos convidam a fazer exatamente o contrário: abandonar qualquer senso crítico em nome da fidelidade a um sobrenome.
A pergunta é inevitável: em que momento nos tornamos aquilo que mais criticávamos?
Quem relativiza erros porque foram cometidos "pelos nossos" já não está defendendo princípios. Está defendendo um grupo. E, quando o grupo passa a estar acima da verdade, nasce a idolatria.
Nenhum político deveria estar acima da crítica. Nenhum sobrenome deveria valer mais do que os valores que dizemos defender.
A reflexão que deixo é apenas uma: o que estamos nos tornando?
Durante anos combatemos a idolatria política, o culto à personalidade e a relativização de princípios em nome do poder. Agora, alguns querem nos convencer de que devemos fazer exatamente isso: relativizar nossos valores para proteger pessoas, sobrenomes ou um clã.
Nenhuma causa, nenhum líder, nenhuma família e nenhum projeto político merecem que sacrifiquemos nossa consciência. No dia em que passamos a relativizar princípios por conveniência, deixamos de ser aquilo que dizíamos defender. E, nesse momento, já não somos diferentes daqueles que tanto criticávamos.
A maior tragédia de um movimento não é perder uma eleição. É vencer depois de abandonar os princípios que justificaram sua existência.
Concordo plenamente. Talvez o maior problema não seja a falta de unidade, mas a relativização dos próprios princípios que nos uniam. Em 2018, lutávamos por valores muito claros: defesa da família, combate à corrupção, respeito à moralidade e às instituições. Hoje, muitos desses princípios passaram a ser relativizados em nome de um suposto projeto de poder, ou pior, de um projeto familiar. A corrupção, antes repudiada, passou a ser tolerada quando praticada pelos "nossos". A moral tornou-se conveniente. E a família, que sempre defendemos como base da sociedade, hoje é atacada por aqueles que chegam ao ponto de desejar a ruptura do casamento de Michelle Bolsonaro, apenas porque ela ousou pensar diferente. Isso é sintomático. Quando princípios deixam de ser o limite e passam a ser apenas um discurso conveniente, deixamos de ser diferentes. Passamos a reproduzir exatamente aquilo que sempre criticamos. E nenhum movimento sobrevive por muito tempo quando abandona a própria identidade.
2.
Se premiamos o espetáculo, colheremos governantes que tratam a política como espetáculo.
Se premiamos a idolatria, acabaremos aceitando que princípios sejam substituídos por lealdades pessoais.
Talvez esteja na hora de inverter essa lógica.
Não basta exigir políticos melhores.
É preciso formar eleitores melhores.
Eleitores capazes de desconfiar da emoção fácil, de resistir ao marketing político, de separar carisma de competência e popularidade de capacidade administrativa.
Porque a democracia não fracassa apenas quando escolhe maus governantes.
Ela fracassa quando seus cidadãos deixam de tratar o voto como um ato de responsabilidade e passam a tratá-lo como entretenimento.
E talvez seja essa a maior tragédia da política brasileira.
Não termos transformado apenas candidatos em celebridades.
Mas termos transformado uma das decisões mais importantes de uma democracia em mais um espetáculo destinado a divertir uma plateia, quando deveria servir para construir uma nação.
1.
Há uma frase que atravessa gerações e que, de tão repetida, acabou perdendo sua força: "Os políticos são o reflexo da sociedade." Muitos a rejeitam por parecer simplista, outros a repetem sem refletir sobre seu verdadeiro significado. No entanto, basta observar a história política brasileira para perceber que talvez ela seja uma das afirmações mais desconfortáveis — e mais verdadeiras — que já foram feitas sobre nossa democracia.
Costumamos atribuir todas as mazelas nacionais aos governantes. Criticamos a corrupção, a incompetência administrativa, o fisiologismo e o populismo. Quase nunca, porém, fazemos a pergunta mais incômoda: que tipo de comportamento nós, como eleitores, premiamos nas urnas?
Essa talvez seja a reflexão mais importante.
Há muito tempo a política deixou de ser tratada como uma atividade que exige preparo, equilíbrio e responsabilidade. Ela passou a disputar espaço com o entretenimento. O candidato deixou de ser avaliado apenas por suas ideias, por sua capacidade de gestão ou por seu histórico. Em muitos casos, passou a ser julgado pelo carisma, pela capacidade de viralizar nas redes sociais, pela frase de efeito, pelo meme do momento ou pelo espetáculo que consegue produzir.
Não é um fenômeno recente.
Décadas atrás, o Brasil já demonstrava essa tendência ao transformar candidaturas folclóricas em símbolos de protesto ou diversão. Macaco Tião, lançado simbolicamente para denunciar o descrédito da política, tornou-se um fenômeno eleitoral. Juruna, com seu gravador inseparável, transformou-se em personagem nacional. Tiririca, vindo do humor, alcançou uma das maiores votações da história do país.
Independentemente dos méritos individuais de cada um, todos esses episódios revelam uma característica comum: o eleitor brasileiro, em diferentes momentos, demonstrou disposição para transformar a política em um grande palco.
E todo palco exige espetáculo.
Com o passar dos anos, a televisão perdeu parte de sua influência, mas a lógica permaneceu intacta. Apenas mudou de plataforma. O espaço antes ocupado pelos programas de auditório foi substituído pelas redes sociais. Hoje, a disputa eleitoral não acontece apenas nas ruas ou nos debates; ela ocorre em vídeos curtos, cortes cuidadosamente editados, frases de impacto e campanhas construídas para gerar engajamento.
O algoritmo passou a exercer um papel que antes pertencia aos grandes veículos de comunicação.
Nesse ambiente, a competência raramente viraliza. A prudência dificilmente conquista milhões de visualizações. A ponderação quase nunca emociona multidões.
O que mobiliza é o conflito.
O exagero.
A indignação permanente.
A caricatura.
Pouco a pouco, o eleitor deixa de agir como cidadão e passa a agir como torcedor.
E a diferença entre um e outro é profunda.
O cidadão analisa propostas, cobra resultados e substitui seus representantes quando eles fracassam.
O torcedor faz exatamente o contrário.
Ele relativiza erros, justifica incoerências e transforma qualquer crítica dirigida ao seu candidato em um ataque pessoal.
A política deixa de ser um espaço de prestação de contas e passa a funcionar como uma torcida organizada, na qual vencer o adversário torna-se mais importante do que governar bem.
Talvez seja justamente por isso que candidatos discretos, preparados e tecnicamente competentes encontrem tanta dificuldade para conquistar espaço. Em um ambiente dominado pelo espetáculo, a sobriedade parece desinteressante. O equilíbrio não gera engajamento. A responsabilidade não rende compartilhamentos.
Enquanto isso, os mais habilidosos em produzir emoções instantâneas ocupam o centro do palco.
Depois nos surpreendemos com a baixa qualidade da representação política.
Mas talvez a surpresa seja injustificada.
A democracia, afinal, não produz milagres.
Ela apenas devolve à sociedade aquilo que a própria sociedade escolheu valorizar.
Se premiamos a demagogia, colheremos governos demagógicos.
📌A CARTA QUE O CONGRESSO PRECISA OUVIR: O APELO DAS FAMÍLIAS DO 8 DE JANEIRO.
Enquanto Brasília discute eleições, articulações e alianças políticas, famílias dos presos e condenados pelos atos de 8 de janeiro afirmam que continuam aguardando uma resposta sobre a situação de seus parentes.
Nesta carta aberta, elas fazem um apelo direto ao Congresso Nacional para que deputados e senadores solicitem prioridade ao julgamento, pelo Plenário do STF, das ações relacionadas à chamada Lei da Dosimetria.
Independentemente da posição política de cada um, o vídeo apresenta a íntegra desse pedido e convida o público a conhecer o conteúdo da carta.
Assista até o fim e tire suas próprias conclusões.
#libertemospresospoliticos
Querido Mário,
Acho que houve um pequeno equívoco. Não estou nos Estados Unidos. Continuo aqui, no nosso "Hell de Janeiro", vivendo exatamente a mesma realidade que você.
Também não sou puritano, nem acredito que política se faça sem estratégia ou sem alianças. Apenas não relativizo meus princípios.
Como você mesmo observou, a esquerda levou décadas para chegar ao poder. Mas como ela fez isso? Construindo uma base: formando lideranças, ocupando universidades, sindicatos, diretórios, movimentos sociais e planejando o longo prazo.
Foi exatamente isso que Olavo de Carvalho repetiu durante anos: não adianta eleger um Presidente se ele não possui uma estrutura capaz de sustentá-lo. Sem base, qualquer governo viverá tentando sobreviver, e não governar.
Talvez esse tenha sido nosso maior erro. Depositamos todas as esperanças no topo da pirâmide e esquecemos de construir seus alicerces.
Você diz que não podemos esperar décadas. Concordo. Ninguém quer esperar. Mas algumas mudanças simplesmente não podem ser aceleradas sem comprometer o resultado.
Destruir é rápido.
Construir é demorado.
Um prédio pode ser implodido em segundos. Reconstruí-lo leva anos.
Instituições, cultura política e lideranças obedecem exatamente à mesma lógica.
Quando critico determinadas alianças, não estou dizendo que política não comporta alianças. Sempre comportou.
O que sustento é que alianças também possuem limites.
Que racionalidade existe em fortalecer alguém que já declarou publicamente que não caminhará ao seu lado?
Que estratégia existe em abrir uma guerra dentro do próprio movimento para beneficiar quem continuará sendo adversário depois da eleição?
Isso, para mim, não é pragmatismo. É um erro de cálculo político.
Talvez nossa maior divergência esteja aqui.
Tenho a impressão de que você acredita que, chegando ao poder, será possível promover uma grande ruptura para corrigir tudo o que está errado.
Eu penso diferente.
Não acredito em restaurar a ordem utilizando os mesmos métodos de exceção que hoje criticamos.
Se, para defender a Constituição, precisarmos ignorá-la...
Se, para combater abusos, precisarmos praticar novos abusos...
Então não estaremos restaurando a ordem.
Estaremos apenas mudando quem exerce o arbítrio.
Sem base política, sem instituições fortes e sem uma sociedade preparada para sustentar essa mudança, qualquer governo continuará sendo frágil.
Por isso não acredito em uma revolução para substituir um grupo por outro.
Acredito em uma reconstrução.
Lenta? Sim.
Difícil? Sem dúvida.
Mas capaz de restabelecer a ordem, fortalecer as instituições e fazer com que ninguém esteja acima da Constituição.
No fundo, talvez nossa diferença seja apenas esta.
Você pergunta: "Como chegamos ao poder?"
Eu faço outra pergunta: "Que tipo de país construiremos depois de chegar ao poder?"
Porque atalhos podem produzir vitórias rápidas.
Mas apenas instituições fortes produzem legados.
No mais, estamos do mesmo lado e obrigado por proporcionar este bom debate.
Mário, talvez nossa divergência esteja justamente aí.
Você parte da premissa de que política não é guiada por princípios. Eu parto da ideia exatamente oposta: quando a política abandona os princípios, ela deixa de servir ao bem comum e passa a servir apenas à manutenção do poder.
Curiosamente, o próprio exemplo que você utilizou demonstra isso. No Titanic, mesmo diante da morte iminente, existiu um princípio moral: mulheres e crianças primeiro. Até em uma tragédia daquela dimensão houve valores considerados inegociáveis. Se princípios fossem irrelevantes, cada um teria lutado apenas pela própria sobrevivência.
Quando tudo passa a ser justificável em nome do "pragmatismo", os princípios deixam de orientar as decisões e passam apenas a ornamentar os discursos. A partir desse momento, qualquer incoerência encontra uma justificativa conveniente.
Você afirma que, na política, isso nunca existiu. Eu discordo profundamente.
Na minha leitura, boa parte da crise enfrentada por diversas democracias decorre justamente do afastamento de princípios que, durante décadas, serviram como fundamento das suas instituições. Quando princípios deixam de ser limites e passam a ser vistos como obstáculos, abre-se espaço para justificar praticamente qualquer coisa em nome de um objetivo maior.
É justamente por isso que não concordo quando se diz que "na política vale tudo". Se aceitarmos essa premissa, então deixa de existir diferença entre direita e esquerda. A única diferença passará a ser quem ocupa o poder.
E aí chegamos ao ponto central.
Alianças fazem parte da política. Ninguém discute isso. O que precisa ser discutido é a qualidade dessas alianças.
Que racionalidade existe em fortalecer alguém que já declarou publicamente que não caminhará com você? Que estratégia existe em abrir uma guerra dentro da própria casa, desgastando aliados naturais, para beneficiar alguém que continuará do outro lado quando a eleição terminar?
Isso não me parece pragmatismo.
Parece um erro de cálculo político.
Princípios não existem para impedir alianças.
Existem para estabelecer limites.
Existem para impedir que, em nome de uma vitória momentânea, destruamos aquilo que dá identidade ao próprio movimento.
Na minha visão, a verdadeira direita não existe para agir como a esquerda sempre que isso parecer conveniente. Ela existe justamente para demonstrar que é possível fazer política sem abandonar os princípios que lhe dão sentido.
Porque, se os fins sempre justificarem os meios, deixamos de defender princípios e passamos apenas a escolher quais conveniências estamos dispostos a aceitar.
E, sinceramente, é exatamente esse tipo de raciocínio que nos trouxe até aqui.
Que a direita guarde este vídeo, porque ele encerra em cinquenta segundos a discussão de meses: o Ciro Gomes, o pivô confesso da crise na família Bolsonaro, acaba de anunciar que pode apoiar o Caiado ou o Renan Santos do MBL para presidente, escancarando o que sempre foi, um caudilho leiloando a própria influência de palanque em palanque, à espera da melhor oferta. E agora recordem, porque a matilha vai implorar que o Brasil esqueça, quando o PL do Ceará declarou apoio ao Ciro, uma pessoa levantou a voz na frente de todos e disse, com todas as letras, "fazer aliança com um homem que é contra o maior líder da direita? Isso não dá!", e essa pessoa foi a Michelle. E o que ela colheu por enxergar o óbvio? O Bananinha carimbou a fala dela de injusta e desrespeitosa, o Flávio a acusou de atropelar a vontade do pai, e a cadela de Brisbane e o canil inteiro transformaram a mulher no alvo número um da temporada, o vídeo dissecado, o apelido, a medalhinha de escárnio, a campanha diária de demolição, tudo porque ela recusou o abraço do caudilho que meio campo tratava como esperteza. Pois o caudilho falou, e confessou diante das câmeras que estava apenas de passagem, cotando o próprio apoio no balcão, hoje Caiado, amanhã Renan Santos, depois quem pagar mais, e a conta da vergonha chegou inteira no colo do canil, porque eles fuzilaram a sentinela para proteger o vendedor, lincharam a única voz que avisou para blindar o aliado que nunca existiu. A Michelle avisou, pagou o preço do aviso, e o tempo, que não usa coleira e não deve favor a matilha nenhuma, acaba de lhe dar razão na frente do país inteiro, restando à direita a pergunta que separa os homens sérios do rebanho, de que lado estava o juízo, no canil que abraçou o Ciro ou na mulher que disse isso não dá.
Independentemente da posição política de cada cidadão, existe um princípio que deveria unir todos aqueles que acreditam no Estado Democrático de Direito: os direitos fundamentais não existem para proteger apenas quem nos agrada. Eles existem, sobretudo, para limitar o poder do Estado.
É justamente nos casos mais controversos que a democracia é colocada à prova.
Não discuto, neste momento, o mérito da condenação.
Discuto o tratamento dispensado ao condenado.
Há uma diferença fundamental entre restringir a liberdade e restringir a dignidade.
A primeira pode ser consequência legítima da aplicação da lei.
A segunda jamais deveria ser.
Guardadas as devidas proporções, o tratamento imposto ao ex-Presidente faz lembrar um verdadeiro RDD domiciliar. A severidade das restrições de contato remete, como figura de linguagem, a regimes de isolamento extremo, como Guantánamo ou às narrativas retratadas em Papillon. Evidentemente, não se trata de uma equiparação histórica ou jurídica, mas de uma analogia destinada a provocar uma reflexão: quando o isolamento deixa de cumprir uma finalidade específica e passa a transmitir a sensação de uma punição adicional, algo merece ser questionado.
A Lei de Execução Penal não estabelece apenas deveres ao preso. Ela também lhe assegura direitos. O condenado continua sendo sujeito de direitos fundamentais. A pena imposta pelo Estado é a privação da liberdade, não a supressão da condição humana.
O verdadeiro teste de uma democracia não é a forma como ela trata aqueles com quem todos concordam.
É a forma como trata aqueles que despertam maior rejeição.
Quando um Estado começa a relativizar direitos fundamentais em razão da pessoa que está sendo julgada ou executada, cria-se um precedente perigoso.
É justamente por isso que o Direito não pode ser conduzido pela emoção, pelo clamor popular ou pelo desejo de exemplaridade.
Justiça e vingança são conceitos absolutamente distintos.
A primeira impõe limites ao poder estatal.
A segunda desconhece qualquer limite.
É evidente que medidas restritivas podem ser necessárias em determinadas circunstâncias.
A questão não é essa.
A pergunta que precisa ser feita é outra.
As restrições impostas continuam sendo proporcionais?
Continuam sendo necessárias?
Continuam atendendo à finalidade da execução penal?
Ou passaram a representar um agravamento informal da própria pena?
Essas perguntas não pertencem à direita nem à esquerda.
Pertencem ao Estado Democrático de Direito.
Princípios só possuem verdadeiro valor quando são aplicados justamente nos casos mais difíceis.
Caso contrário, deixam de ser princípios para se tornarem simples preferências políticas.
É nesse contexto que a analogia com Guantánamo ou Papillon deve ser compreendida. Não porque as situações sejam equivalentes — evidentemente não são —, mas porque ambas simbolizam, no imaginário coletivo, o isolamento extremo como forma de punição.
E isso nos conduz a uma pergunta inevitável:
Até que ponto um Estado Democrático de Direito pode restringir direitos sem transformar a execução da pena em um processo de desumanização?
A resposta a essa pergunta dirá muito mais sobre a qualidade das nossas instituições do que sobre o destino de qualquer homem público.
Porque a verdadeira força do Estado não está em punir com rigor.
Está em punir dentro dos limites da lei, da proporcionalidade e da dignidade humana.
ENTRE A JUSTIÇA E O ISOLAMENTO
Independentemente da posição política de cada cidadão, existe um princípio que deveria unir todos aqueles que acreditam no Estado Democrático de Direito: os direitos fundamentais não existem apenas para proteger quem nos agrada. Eles existem, sobretudo, para limitar o poder do Estado.
Foi sob essa perspectiva que li a decisão que manteve suspensas, por trinta dias, praticamente todas as visitas ao ex-Presidente Jair Bolsonaro, ressalvadas apenas as de advogados e profissionais de saúde.
Não discuto aqui o mérito da condenação.
Discuto o tratamento dispensado ao condenado.
Há uma diferença fundamental entre restringir a liberdade e restringir a dignidade. A primeira pode decorrer legitimamente da aplicação da lei. A segunda jamais deveria ser consequência dela.
Guardadas as devidas proporções, o tratamento imposto ao ex-Presidente lembra um verdadeiro RDD domiciliar. A analogia com Guantánamo ou com Papillon não pretende equiparar realidades históricas distintas. Ela serve para ilustrar uma preocupação: quando o isolamento deixa de atender a uma finalidade concreta e passa a transmitir a ideia de punição adicional, o Estado deve ser questionado.
A Constituição Federal consagra a dignidade da pessoa humana como fundamento da República e assegura às pessoas privadas de liberdade o respeito à sua integridade física e moral. Esses princípios existem justamente para impedir que o Estado ultrapasse os limites impostos por ele mesmo.
O verdadeiro teste de uma democracia não é a forma como ela trata aqueles de quem todos gostam.
É a forma como trata aqueles que despertam maior rejeição.
É evidente que medidas restritivas podem ser necessárias.
A questão não é essa.
A pergunta correta é outra: as restrições impostas continuam sendo necessárias, proporcionais e compatíveis com a finalidade da medida? Ou passaram a representar um agravamento informal da pena?
Essas perguntas não pertencem à direita nem à esquerda.
Pertencem ao Estado Democrático de Direito.
Princípios só têm valor quando são aplicados justamente nos casos mais difíceis. Caso contrário, deixam de ser princípios e passam a ser simples preferências políticas.
O Direito não pode ser guiado pela emoção, pelo clamor popular ou pelo desejo de vingança. Justiça e vingança jamais caminham juntas.
A liberdade pode ser restringida.
A dignidade humana, jamais.
Porque a verdadeira força do Estado não está em punir com severidade.
Está em punir dentro dos limites da Constituição.
O Estado demonstra sua força quando aplica a lei. Demonstra sua grandeza quando, mesmo aplicando-a, preserva a dignidade de quem está sob sua custódia.
Rodrigo, concordo integralmente. Mas acredito que nosso maior erro começou muito antes.
Confundimos vitória eleitoral com projeto de poder. Acreditamos que bastava conquistar o topo da pirâmide, quando, na verdade, nenhum topo permanece de pé sem uma base sólida.
Poder não é ocupar a Presidência da República. Poder é construir a estrutura que sustenta essa Presidência.
Essa estrutura nasce nos diretórios municipais, nas câmaras de vereadores, nas prefeituras, nas assembleias legislativas, na formação política de jovens e no fortalecimento permanente das instituições.
É exatamente por isso que considero importantes iniciativas que buscam ampliar essa base. Vejo parlamentares como @nikolas_dm e @anacampagnolo fortalecendo estruturas políticas em seus estados e formando novas lideranças. Da mesma forma, @Mi_Bolsonaro , por meio do PL Mulher, ampliou diretórios e abriu espaço para novas lideranças femininas em diversas regiões do país, especialmente no Nordeste.
Independentemente de concordarmos ou não com todas as posições dessas pessoas, esse tipo de trabalho fortalece um movimento no longo prazo.
O que me preocupa é ver que, muitas vezes, aqueles que deveriam caminhar ao lado dessas iniciativas preferem atacá-las. Em vez de reproduzir um modelo que amplia a base, acabam fragmentando o próprio movimento.
É justamente aí que, na minha visão, grandes movimentos começam a morrer.
Não pela força dos adversários.
Mas porque deixam de formar sucessores e passam a enxergar qualquer liderança em crescimento como uma ameaça.
Grandes líderes não têm medo de formar sucessores.
Sabem que o verdadeiro poder não está em concentrar tudo em torno de um único nome, mas em construir algo que sobreviva à sua ausência.
Porque o verdadeiro poder é caminhar sem muletas e construir a base que sustente os pilares da cadeira.
E um verdadeiro líder não mede seu sucesso pelo número de seguidores que possui, mas pela quantidade de líderes que consegue formar.
Talvez o maior erro tenha sido este: enquanto acreditávamos que um único líder mudaria o Brasil, deixamos de construir as bases que permitiriam ao movimento sobreviver depois dele. Passamos quatro anos procurando um salvador, quando deveríamos estar formando sucessores. Nenhum projeto resiste quando depende de um único nome.
Quando o desespero bate à porta, os princípios costumam ser os primeiros a serem sacrificados.
De repente, o assistencialismo — tantas vezes criticado — passa a ser apresentado como solução. O discurso muda, as promessas mudam e as convicções parecem se adaptar à conveniência do momento.
Alguns dirão que isso é apenas estratégia de campanha. Eu discordo. Campanhas não criam caráter; apenas revelam prioridades. Sob pressão, a máscara da conveniência costuma cair.
Graças a Deus, não sofro de amnésia. Lembro bem do episódio da chamada "lei da misoginia", quando Flávio primeiro gravou um vídeo defendendo a proposta e, pouco tempo depois, apresentou diferentes justificativas para explicar sua mudança de posição. Não foi um fato isolado. Foi um sinal.
Por isso, não me surpreende o que estamos vendo agora.
Há quem ainda enxergue o herdeiro de um projeto. Eu enxergo alguém disposto a abandonar o próprio discurso para preservar um projeto pessoal.
No fim, as palavras convencem. As atitudes revelam.
E, às vezes, a verdadeira face de um lobo não aparece quando ele ataca. Aparece quando percebe que está perdendo o rebanho.
O mais curioso é que até presos condenados têm assegurado, como regra, o direito à visita de familiares. Se a notícia corresponde exatamente ao teor da decisão, a restrição ao convívio familiar de uma pessoa idosa e enferma levanta um sério debate sobre proporcionalidade, dignidade da pessoa humana e os limites das medidas cautelares. Direitos fundamentais não podem ser relativizados por conveniência política