A República Democrática do Congo não joga uma Copa do Mundo desde 1974, mas não foi esquecida na edição de 2022.
O senegalês Ismaila Sarr, ao marcar um gol contra o Equador, comemorou tapando os olhos e fazendo um sinal de arma contra a cabeça. O gesto, criado pelo congolês Cedric Bakambu, lembra da triste situação humanitária do país.
Bakambu, que está na Copa de 2026 com a RD do Congo, criou a comemoração para dizer que o mundo tapa os olhos para o que acontece em seu país. Ela foi reproduzida por vários jogadores africanos pelo mundo, inclusive, por Sarr no Mundial.
Mas o mundo tapa os olhos para o que acontece na RD do Congo faz muito tempo. Tapou os olhos, inclusive, para a trágica participação do país em 1974, quando ainda se chamava Zaire.
A imagem que marca aquela participação é a do chute de Mwepu Ilunga na bola parada, em uma falta para o Brasil, para retardar a partida. Mas a sua equipe perdia por 3 a 0. Na época, ninguém entendeu o porquê dele ter feito aquilo.
Ilunga estava sob ameça de morte, assim como toda a equipe, pelo ditador Mobutu Sese Seko, que havia investido muito dinheiro em futebol e em esporte, quase como em um sportswashing primitivo, e queria ver o Zaire, nome que ele tinha dado ao país, brilhando internacionalmente.
Mas sem receber premiações prometidas e sob pressão de Sese Seko, os jogadores começaram a Copa muito mal. Na terceira e última partida, contra o Brasil, Mobutu avisou: se os jogadores perdessem por mais de 3 gols de diferença, seriam mortos ao voltar para casa. Em desespero, Ilunga retardou a cobrança que poderia resultar no quarto gol.
Por anos, disseram que ele fez aquilo porque não conhecia as regras do futebol. Era uma prova da ingenuidade africana. Afinal, ninguém liga para a RD do Congo.
Foi assim no terrível genocídio do Rei Leopoldo II da Bélgica no local, um dos piores da história recente da humanidade. É assim na guerra civil que assola o país hoje, consequência direta das atividades coloniais no local, sobre a qual Bakambu, que nasceu na França com pais congoleses, fala em seu gesto.
Dessa vez, não tem jeito: o mundo estará de olho na RD do Congo, que tem uma bela seleção composta por muitos filhos da diáspora e enfim volta a uma Copa do Mundo. Mas Bakambu e seus companheiros torcerão para que não se fale só de futebol.
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