Não sou católico. Costumo dizer que acredito em Deus e não em algo particular que o homem diga sobre Ele. Talvez esteja a impor a mim próprio a ingenuidade mas gosto de acreditar que há algo para lá de nós. Que há mais vida para além desta. Para além da morte. Mas nem sempre pensei assim.
A minha separação com a igreja teve várias razões, sendo a principal que nem sequer foi minha escolha fazer parte desta. É assim com quase todos nós. Exigirem-nos que desde muito novos pratiquemos algo que não escolhemos praticar, sem sequer sabermos bem para quê ou para quem.
Costuma-se dizer que uma geração corrige em exagero os erros da geração anterior. A minha geração, com a boa vontade de corrigir o fanatismo e dogmatismo religioso da anterior, decidiu que vive bem sem a ponderação e a espiritualidade como um todo.
Caímos no erro arrogante de achar que instituições com dezenas, centenas e até milhares de anos não têm nada para nos ensinar. Como se a sociedade que conhecemos hoje tivesse sido criada no vácuo, do nada. Como se fosse boa ideia dinamitar por completo e do nada todas as bases que têm sustentado um mundo que, embora a espuma dos dias, tem progredido. Bastante nos últimos dois séculos.
Esta nossa forma de ver o mundo limita-nos a duas opções: a obediência cega ou o cinismo fundamentalista, para mim formas igualmente vazias de viver. Temos o "a igreja ensina tudo" ou o "a igreja não serve para nada". Arrogância, porque aqueles milhões que estão ao sol em Lisboa só podem ser "loucos" e eu, nós, "somos melhores e mais esclarecidos". Vice-versa.
Decidi escrever isto como forma de reflexão. Não escrevo sobre as polémicas, os gastos e os debates políticos dos últimos meses. Sobre isso já se escreveu imenso e muito mais se irá escrever. Estamos (legitimamente) tão fixados nessa conversa que nos escapa por completo algo que está a acontecer diante dos nossos olhos: a Igreja está a tentar transformar-se e isso é importante.
Posso não ser católico, mas não deixo de ser humano. Comove-me a humanidade e força de uma multidão de centenas de milhares que pelas suas razões sorriem, dançam e choram. Custa-me a acreditar que até o maior dos cínicos não se comova ao prestar realmente atenção. Ali estão pessoas como nós, com medos, amores, famílias, passado e ambições. Como nós procuravam algo em que acreditar e lá encontraram. Só as tenho que invejar.
Num mundo que parece mais dividido que nunca, onde a diferença tem sido razão para espalhar ódio, descrença e gozo. Onde tudo parece ser motivo para discutir. Num país onde há quem tente dividir o povo entre os de bem e os de mal. Onde há quem use a religião para escudar o puro preconceito que sentem para com pessoas que apenas querem viver. Perante estes que gritam insistentemente "tu não pertences aqui", nos últimos dois dias eu vi um Papa gritar de volta "pertencemos todos". Perante quem grita "volta para a tua terra" a quem atravessa o mediterrâneo, este papa ajoelha-se e lava os pés de quem foge da guerra e da fome. Perante uma parte da Igreja que escolheu e escolhe ignorar e antagonizar as vitimas de crimes sexuais cometidos pelos próprios representantes da Igreja, este papa reconhece-os e ao sofrimento que sentem. Embora saiba o quão imperdoável é, pede desculpa uma, duas, três, as vezes que forem necessárias. Porque hoje a Igreja pede desculpa. Ontem isso era impensável.
Mais recentemente, perante a tentativa de linchamento de um jovem transsexual que leva com orgulho uma bandeira que o representa, eu ouvi um Papa defender que ele também "é filho de Deus". Mesmo que não acredite Nele, tem de ser tratado como irmão. Julgar que é fácil fazer isto, numa instituição com milhares de anos e que por isso se move devagar, é isso sim ingenuidade. Na caminhada pelo progresso, não podemos dar-nos ao luxo de negar aliados.
Se não reconhecemos progresso em tudo isto, então claro que vamos continuar a olhar para a humanidade como uma causa perdida. A igreja debate-se hoje entre abrir-se ao mundo moderno ou fechar-se ainda mais numa ilusão de pureza e o nosso país está a ser um dos palcos disso. E admito que tem sido surpreendentemente emocionante de assistir.
Para quem como eu não acredita nos rituais ou segue o trabalho da Igreja, ligar a televisão prometia umas boas gargalhadas. Mas para lá dos momentos engraçados e até constrangedores, o que estes dias provaram é que ainda há lugares comuns entre nós. De que entre quem tem e quem não tem fé, há uma crença comum de que frase "todo o ser humano merece dignidade e respeito" não pode ficar apenas no papel.
Se não serviram para me fazer acreditar na Igreja, serviram para reforçar abismalmente a minha crença nas pessoas e por muito audíveis que sejam aqueles que querem o retrocesso, o progresso vencerá. Até na igreja, que muitos deles viam como abrigo.
Vou terminar com as palavras de um padre português de quem não apanhei o nome. Disse "a igreja tem de deixar de ser apenas dos padres". Só esta forma de pensar é por si só sinal que o progresso venceu. Os tempos estão a mudar. Devagar, mas estão.