PLOT-BOOK 1.
Naquele dia, o vento havia enterrado metade da tenda durante a madrugada. O velho reclamou durante quase uma hora enquanto retirava areia dos livros, dos tapetes e dos poucos utensílios que possuíam. O menino o observava trabalhar sem oferecer ajuda. Estava sentado sobre uma pedra quente, acompanhando o movimento das dunas ao longe.
— Você está me olhando como se eu fosse uma experiência — resmungou o velho.
— Estou tentando entender por que você fica irritado com uma coisa que já sabia que aconteceria.
O velho soltou uma risada pelo nariz.
— Porque saber que algo vai acontecer não torna aquilo agradável.
O menino pareceu refletir sobre a resposta.
— Eu não acho que isso faça sentido.
— Claro que não acha. Você tem sete anos.
— Se eu souber que uma tempestade vem, não vou me irritar quando ela chegar.
— Vai sim.
— Não vou.
— Vai.
O garoto franziu a testa. O velho continuou retirando areia de dentro de um baú.
— O problema é que você acredita que compreender uma coisa e aceitá-la são a mesma coisa.
O menino permaneceu em silêncio por alguns instantes.
— E não são?
— Nem um pouco.
O velho finalmente se sentou ao lado dele, limpando as mãos na roupa, que ainda sim continuaram sujas imundas.
— Eu compreendo o deserto. Vivi nele mais tempo do que você está vivo. Sei o que o vento faz. Sei o que o calor faz. Sei o que a solidão faz. E ainda assim, existem dias em que eu odeio tudo isso.
O garoto olhou para o horizonte, mas nada do que via era novo, seus olhos já haviam decorado cada centímetro daquele deserto seco e coberto por ventania.
— Isso parece uma falha.
— É porque você ainda acredita que as pessoas deveriam ser coerentes.
O velho pegou um punhado de areia e deixou os grãos escaparem entre os dedos, cansado de tentar ignorar a textura.
— Quando crescer, vai descobrir que os seres humanos passam metade da vida defendendo uma coisa e a outra metade tentando sobreviver a ela.
O menino acompanhou a areia caindo, franziu o cenho quando entendeu a reflexão do velho.
— Você fala como se fosse humano.
A frase saiu sem maldade. Era apenas uma observação. O velho ficou quieto por um momento. Depois sorriu.
— E você fala como se não fosse.
O menino não respondeu.
Porque, na verdade, não sabia.
Durante toda a sua vida, existiram apenas os dois. O velho e ele. Não havia aldeias, cidades ou famílias para comparar. Não existia um "normal" contra o qual pudesse medir a si mesmo. Havia apenas o deserto, os livros e as histórias que o velho contava nas noites mais longas.
— Posso fazer uma pergunta? — disse o menino.
— Você acabou de fazer.
— Uma de verdade.
— Essa costuma ser a parte perigosa.
O garoto apoiou os braços nos joelhos.
— Como você sabe quando uma coisa vale a pena?
O velho o observou com atenção.
— Que tipo de coisa?
— Qualquer coisa.
O homem olhou novamente para o mar de dunas à frente. Parecia procurar a resposta ali.
— Eu não sei.
O menino pareceu decepcionado.
— Você não sabe?
— Não.
— Então como escolhe?
O velho sorriu.
— É justamente por isso que escolho.
O garoto continuou encarando-o, esperando uma explicação melhor. Ela não veio.
Depois de algum tempo, o velho apontou para o horizonte.
— Está vendo aquela duna?
— Sim.
— Quando chegamos aqui, ela estava do outro lado.
— Isso foi há muito tempo.
— Exatamente.
O velho se recostou na pedra.
— As coisas importantes raramente anunciam que são importantes. Elas só ficam. Um dia. Depois outro. Depois outro. Quando você percebe, elas mudaram a paisagem inteira.
#RPG