Eng. Agrônomo, UFV. Pós Graduação: Gestão Estratégica, Qualidade e Competitividade, UFMG. Pensador original sobre a existência: universo, consciência e vida.
Ontem, perturbei o sono eterno de Thomas Hobbes, o pai do Leviatã, com breves reflexões sobre a desordem brasileira. Hoje, é a vez de Aristóteles, o pai da Lógica. Não me compete, aqui, expor os silogismos do Organon. Pressuponho-os como instinto de quem tem alguns neurônios em bom funcionamento para dissecar a fala de uma desembargadora paulista sobre a classificação do PCC e do CV como organizações terroristas. Disse ela que nada muda na vida do povo, e o pior é que subiu o preço da cocaína.
Sob o escalpelo aristotélico, desmontemos o silogismo da desembargadora, pouco importando se tenha sido literal, irônico ou satírico, pois o cinismo é o mesmo. Primeira premissa: o combate às facções elevou o preço da cocaína. Segunda, oculta mas subentendida como vício de classe: o povo é consumidor de cocaína. Terceira, implícita na lógica de botequim: o acesso barato à droga é um Bem fundamental. Conclusão inevitável: reprimir o crime organizado prejudica o povo. Tal raciocínio, portanto, estaria mais para alguém que defende o mercado negro como se fosse o bem comum do que para um togado, que defende a lei.
A lógica, contudo, não perdoa. O argumento confunde a parte com o todo: toma o viciado (minoria ruidosa e rentável) pelo povo inteiro, como se o Brasil fosse gigantesco nariz aberto à espera do pó. Incide, ainda, na falácia do acidente: aplica a regra geral do aumento de preços (pão, gasolina, arroz) a um caso excepcional e ilícito, tratando a cocaína como mercadoria essencial, qual pão nosso de cada dia. O que era utilitarismo de mercado, oferta, demanda, preço, disfarça-se de compaixão social. Não sabemos se é o caso da desembargadora, mas para a Lógica Aristotélica, o autor de tal silogismo, estaria medindo a eficácia da Justiça não pela moral ou pelo direito, mas pela cotação da pedra no varejo.
Como sustentar que o “povo foi prejudicado” sem aceitar a premissa torpe de que o “talco” barato é interesse público? A construção desaba, formalmente podre, sob o peso da primeira lógica que o Ocidente conheceu.
Eis a ironia final: no Brasil, até a classe mais letrada, acaba, mais cedo ou mais tarde, defendendo o povo pelo preço do ilícito. Ou vice-versa: defendendo o ilícito pelo preço do povo.
A arte do blend: como misturar grãos virou uma estratégia nas torrefações https://t.co/QrWAyT9z44 Se apaixonou, tome outra chícara e uma terceira pois nunca mais vai tomar outro igual. Como o primeiro beijo: jamais se repete.