Nós quase nunca entramos em política partidária por aqui e pretendemos continuar assim. Mas, acompanhando a Alemanha há tantos anos, seu futebol e, inevitavelmente, muito da cultura e da sociedade do país, existe uma coisa sobre a qual acho importante falar.
Para quem não sabe, “Adolf Hitler sorri no inferno” é um verso do histórico “Diário de um Detento”, dos Racionais MC’s, escrito por Mano Brown e Jocenir a partir da realidade do massacre do Carandiru. A referência original tem um contexto muito claro, mas o contexto também existe quando uma frase é reutilizada. Publicada na manhã seguinte a uma eleição extremamente polarizada, torna-se difícil tratar a aparição de Hitler ali como uma referência politicamente neutra.
E nem acho que o problema seja especificamente o Marcelo Adnet. Hitler e o nazismo estão virando, com frequência, uma espécie de superlativo político: a figura máxima para dizer que alguém representa tudo aquilo que considero abominável.
Quem acompanha a Alemanha talvez perceba ainda mais claramente por que isso é problemático. Existe por lá um conceito chamado Erinnerungskultur, a “cultura da memória”. A Alemanha passou décadas construindo uma relação extremamente séria com o próprio passado nazista. O ex-presidente alemão Joachim Gauck literalmente disse que “não existe identidade alemã sem Auschwitz”.
E essa preocupação vai além do Estado alemão. O próprio Conselho Central dos Judeus na Alemanha já escreveu que “a instrumentalização do Holocausto por políticos e ideólogos é imoral”. Literalmente, os próprios representantes do povo alvo do genocídio dizem que transformar essa memória em ferramenta para potencializar uma disputa política fere a memória das vítimas e esvazia a dimensão do que realmente aconteceu. Inclusive, a renomada historiadora Edna Friedberg, do Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos, escreveu literalmente que “essas não são tragédias abstratas à disposição para ganhar uma discussão ou uma eleição”.
Esse é o ponto. Você pode considerar Flávio Bolsonaro um péssimo político. Pode votar em Lula. Pode ser de esquerda, de direita ou não querer nenhum dos dois. Nada disso muda o argumento. Hitler NÃO pode virar simplesmente outra maneira de dizer “político que eu considero horrível”.
Comparar processos históricos e identificar autoritarismo, racismo, antissemitismo ou movimentos efetivamente neonazistas é totalmente necessário. Agora, transformar Hitler numa carta que tiramos do bolso toda vez que queremos colocar um adversário no grau máximo da escala do mal é outra coisa completamente diferente.
E existe, sim, um efeito perverso nisso: quanto mais “nazismo” passa a significar simplesmente “tudo aquilo que eu odeio”, mais essa palavra perde precisão justamente para os momentos em que precisamos dela de verdade. Se tudo é nazismo, começamos a perder as palavras para quando o nazismo realmente aparece.
O nazismo jamais deve ser esquecido. Foi uma das expressões mais extremas da barbárie humana, o auge da perversidade na sociedade moderna. Justamente por isso, sua memória não deveria ser banalizada. O “nunca mais” só faz sentido enquanto entendermos exatamente o que é aquilo que nunca mais pode acontecer.
@lucasmoraisdev@Annerland@sseraphini Igual o caso do Ibrahimovic e do Maxwell. Onde o Ibra chegava pra jogar, a primeira pessoa que ele pedia pra contratar era o Maxwell, tanto é que fizeram a carreira praticamente juntos 😂