Lá estava eu.
Finalmente consegui ascender. Depois de séculos de reza, sacrifício e humilhação mortal, virei um deus de 1,70 m (em dia de sorte). Subia o Monte Olimpo orgulhoso, peito estufado, sentindo que finalmente chegaria ao topo. Os ventos me carregavam, as nuvens abriam caminho. Hoje eu sento na mesa dos grandes, pensei. Eu, deus de 1,70 m, maxilar quase positivo, com minha toga que ainda marca a barriga de quem viveu comendo ambrosia barata...
Foi quando o céu tremeu.
Lucas Bergval lapareceu subindo a montanha ao meu lado.
Não era um deus. Era O Deus.
1,98 m de pura perfeição divina, cabelo loiro dourado brilhando mais que o próprio sol de Apolo, hunter eyes azuis que faziam as musas esquecerem seus nomes, jawline esculpida por Hefesto em pessoa, corpo de mármore vivo com veias que pareciam rios de ouro. Cada passo dele fazia o Olimpo inteiro balançar.
Os deuses todos pararam o que estavam fazendo. Zeus largou o raio. Atena deixou o livro cair. Afrodite parou de se olhar no espelho. Todos olharam pra ele.
Eu tentei chamar atenção, acenei, gritei meu nome divino. Ninguém nem olhou pra mim. Era como se eu fosse uma nuvem passageira.
Enquanto subíamos juntos, ele tirou algo do manto grego. Um pergaminho antigo caiu aos meus pés. Peguei pra devolver.
Era um exame de ambrosia divina.
Testosterona: 14.872 ng/dL
Feito há 6 minutos atrás, no topo do Olimpo. Os oráculos tinham escrito: “Resultado que transcende a própria imortalidade”.
Fiquei paralisado. Ele olhou pra mim, sorriu com aqueles dentes perfeitos e disse com voz que ecoou em todo o monte:
— Obrigado, irmão. É recente.
Nesse momento Hera, Afrodite e Atena desceram voando só pra orbitar em volta dele. Zeus em pessoa veio apertar a mão dele e disse:
— Bem-vindo ao panteão, Lucas. Você já é o rei aqui.
Eu, deus de 1,70 m, fiquei pra trás, segurando o pergaminho como um mendigo. Ninguém me chamou. Ninguém me olhou. Até as harpias preferiram voar em volta dele.
Quando cheguei (por último) no topo do Olimpo, a festa já tinha começado. Lucas Bergvall sentado no trono principal, cercado por deusas, enquanto eu fiquei no canto, segurando uma taça de néctar aguado.
Zeus ergueu o copo e brindou:
— Ao novo deus supremo!
Eu só consegui beber em silêncio.
Nem no Olimpo escapei.
It's over.