Minha (grande) história da Copa - 25
Ufa.. os jogos deram um tempo para que eu possa escrever sobre uma conquista civilizatória do futebol.
E que tem um protagonista, Mohamed Salah.
A classificação heroica da Argentina sobre o Egito tomou a frente por aqui, mas não poderia jamais me fazer esquecer de lembrar sobre o que ele conseguiu.
Por muito pouco, o craque egípcio não eliminou a atual campeã do mundo.
Durante boa parte da partida, foi ele quem colocou o Egito diante de uma das maiores zebras da história das Copas.
Mas liderar a seleção egípcia, para mim, não é maior conquista de Salah.
O egípcio mostrou que não muda apenas resultados em campo, ele também tem o dom de transformar pessoas.
Mohamed Salah Hamed Mahrous Ghaly nasceu em 15 de junho de 1992, na pequena Nagrig, no Egito.
Muçulmano praticante, sempre carregou sua fé com orgulho.
Nunca a escondeu.
Ao contrário.
Depois de praticamente todos os seus gols, ajoelha-se no gramado e faz a sujood, a tradicional prostração islâmica em agradecimento a Deus.
Quando chegou ao Liverpool, em 2017, muitos imaginaram que seria lembrado apenas pelos gols.
E foram muitos.
E pelos títulos.
Conquistou a Liga dos Campeões, a Premier League, a Copa da Inglaterra, duas Copas da Liga Inglesa, a Supercopa da UEFA, o Mundial de Clubes e se tornou um dos maiores artilheiros da história do clube.
Mas a verdade é que tem uma conquista dele que as estatísticas do futebol jamais mostrarão.
Um feito social.
Virou pesquisa acadêmica.
Pesquisadores da Universidade Stanford analisaram milhões de publicações em redes sociais, dados sobre crimes de ódio e pesquisas com torcedores do Liverpool. O estudo, publicado na American Political Science Review, apontou que, após a chegada de Salah, os crimes de ódio contra muçulmanos na região de Merseyside caíram cerca de 16%, enquanto as mensagens islamofóbicas publicadas por torcedores do Liverpool nas redes sociais foram reduzidas em aproximadamente 50%.
É impossível afirmar que um único homem muda uma sociedade.
Mas, às vezes, um único homem consegue mudar a forma como uma sociedade passa a olhar para o outro.
Salah fez isso.
Mostrou que um gol pode valer três pontos. Mas um exemplo pode valer muito mais.
Talvez por isso, poucas horas depois da eliminação, o Cairo olhou para o céu.
Em um espetáculo de drones diante das pirâmides, Mohamed Salah foi homenageado por milhares de luzes.
Era a forma de um país inteiro dizer “obrigado”.
Obrigado pelos gols.
Obrigado por colocar o Egito novamente no centro do futebol mundial.
E obrigado, principalmente, por provar que algumas vitórias não precisam estar na prateleira das estatísticas do futebol.
Repetindo os egípcios:
Salah, obrigado.
🏆 A revelação de que apenas o presidente do Comitê Disciplinar da FIFA, Mohammad Al Kamali, assinou a decisão que suspendeu provisoriamente a punição de Folarin Balogun levantou uma nova discussão jurídica: afinal, o regulamento da entidade permite que uma decisão dessa relevância seja tomada por um único dirigente?
Via @leiemcampo
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Minha (grande) história da Copa - 23
Thibaut Courtois deixou o campo aos 25 minutos do segundo tempo.
Caminhou lentamente até o banco.
E chorou.
Havia uma lesão. Mas aquelas lágrimas pareciam carregar algo maior do que a dor física.
Aos 34 anos, depois de quatro Copas do Mundo e mais de cem partidas pela Bélgica, Courtois já havia admitido que pensava em deixar a seleção após este torneio. Talvez soubesse que aquela caminhada poderia ser também sua despedida de uma Copa.
O gigante de 2 metros sentiu. O futebol faz isso. Emociona até os jogadores mais frios.
Ser goleiro é viver em um lugar diferente dentro do jogo.
É assistir ao futebol quase sempre de frente.
É proteger sozinho um espaço que deveria ser inviolável. .
É saber que um atacante pode errar duas, três vezes e ainda terminar como herói, enquanto o goleiro pode acertar durante noventa minutos e ser lembrado como vilão pela única bola que não alcançou.
Albert Camus, escritor francês e goleiro na juventude, dizia que tudo o que sabia sobre moral e obrigações devia ao futebol.
Talvez porque o goleiro conheça, como poucos, o peso da responsabilidade.
Courtois carregou esse peso durante quatro Copas.
Foi símbolo da melhor geração da história da Bélgica.
Defendeu o país onde nasceu diante daquele que escolheu para viver. Mora há mais de uma década na Espanha, onde construiu sua carreira e sua família.
Chorando, abraçou o substituto Senne Lammens, de 24 anos.
Pouco depois, a Espanha marcou o gol da classificação.
É tentador transformar o lance em uma história cruel: o grande goleiro sai, o reserva entra e não consegue evitar a derrota.
Mas a verdadeira história é outra.
Nenhum jogador carrega sozinho uma seleção.
Nem Courtois.
Nem Yamal, Pedri ou Dani Olmo.
A Espanha reúne alguns dos maiores talentos do mundo. A
Ainda assim, encontrou no banco o caminho para a semifinal.
Mikel Merino entrou aos 86 minutos e marcou aos 88.
O herói improvável tem 30 anos, nasceu em Pamplona e construiu sua carreira longe do brilho das grandes estrelas, passando por clubes como Osasuna, Borussia Dortmund, Newcastle e Real Sociedad até chegar ao Arsenal.
Filho de ex-jogador, repetiu na comemoração o gesto do pai ao correr ao redor da bandeira de escanteio.
O futebol também é herança.
Nesta Copa, Merino já havia saído do banco para marcar o gol que eliminou Portugal. Contra a Bélgica, apareceu novamente quando o jogo parecia sem solução.
O futebol pode produzir grandes protagonistas.
Mas nunca será o jogo de um homem só.
Courtois saiu carregando a tristeza de um país.
Merino entrou levando a esperança de outro.
Entre a despedida de um gigante e o surgimento de um herói improvável, o futebol voltou a lembrar:
Ninguém vence sozinho. Nem no campo, nem na vida.
Um projeto de lei apresentado na Câmara dos Deputados pretende proibir convocação de atletas que jogam fora do Brasil.
Especialistas entendem que o projeto é inconstitucional e apontam - inclusive - riscos de punição para a seleção brasileira.
Via @leiemcampo
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Minha (grande) história da Copa – 22
Existem jogadores que respondem com palavras.
Existem jogadores que respondem com gols.
E existem aqueles que conseguem fazer as duas coisas com a mesma grandeza.
Esse é Kylian Mbappé.
Depois de desperdiçar um pênalti, marcou o primeiro gol na vitória sobre Marrocos que colocou a França em mais uma semifinal de Copa do Mundo.
São 20 gols em 20 jogos em mundiais.
Números de um dos maiores jogadores que este torneio já viu.
Mas a história de Mbappé nunca coube apenas nos gols.
Kylian Mbappé Lottin nasceu em Paris, em 20 de dezembro de 1998. Cresceu em Bondy, na região metropolitana da capital francesa. É filho de Wilfried Mbappé, técnico de futebol de origem camaronesa, e de Fayza Lamari, ex-jogadora de handebol, francesa de ascendência argelina.
Sua história une duas raízes.
A França onde nasceu.
E a África de seus antepassados.
Uma não exclui a outra.
Juntas, explicam quem ele é.
O francês Jean-Jacques Rousseau escreveu lá atrás que "o homem nasce livre, mas por toda parte encontra-se acorrentado".
Mais de dois séculos depois, algumas correntes continuam existindo.
Há quem tente acorrentar Mbappé à origem de seus antepassados.
Há quem olhe para ele e enxergue apenas sua ancestralidade africana.
O preconceito faz exatamente isso. Confunde naturalidade com ancestralidade.
É o que acontece quando alguns insistem em dizer que a seleção francesa é uma "seleção africana".
Não é.
Dos 26 convocados, apenas três nasceram fora da França metropolitana.
O restante nasceu em território francês.
Mas o preconceito raramente respeita os fatos.
Ele prefere enxergar a cor da pele antes da certidão de nascimento.
Mbappé conhece essa realidade. E decidiu enfrentá-la não apenas com gols. Também com posicionamento.
Ao longo da carreira, tornou-se uma das vozes mais importantes no combate ao racismo no esporte.
Nos últimos dias, voltou a mostrar isso. Foi alvo de declarações racistas da senadora paraguaia Celeste Amarilla.
A parlamentar afirmou que não precisava pedir desculpas por dizer que Mbappé "chupava cocos em vez de leite materno" e que "só conhecia chimpanzés".
Mbappé respondeu com palavras com a mesma maestria que conduz uma bola.
Em vez de atacar o Paraguai, escreveu:
"Você não representa o Paraguai, esse país que transpirou paixão e honra durante toda a competição."
Depois concluiu:
"Eu nunca deixarei que pessoas como ela tenham a liberdade de propagar seu ódio e seu racismo pelo mundo."
Foi uma resposta que foi muito além da defesa da própria honra. Mbappé recusou-se a confundir uma autoridade com um povo. Separou o preconceito da identidade de um país inteiro.
Mas tinha uma quartas de final no caminho.
E ele fez o que se espera dele.
Respondeu do jeito que os grandes costumam responder: jogando. Decidindo.
Alguns jogadores usam o talento apenas para vencer partidas.
Outros entendem que o privilégio de serem ouvidos também lhes impõe uma responsabilidade.
Mbappé pertence a esse grupo.
Usa a velocidade para desmontar defesas. E a própria voz para enfrentar preconceitos.
As causas que defende ajudam a lembrar que a cidadania não tem cor, que pertencimento não se mede pela origem dos pais e que nenhuma sociedade pode aceitar que alguém seja tratado como menos humano por causa da cor da pele. Ou de onde veio. Ou com o escolhe viver a vida.
Se o preconceito aparecer de novo, Mbape responderá.
Primeiro com palavras. Depois com gol.
As duas merecem aplausos.
A Justiça concedeu liminares favoráveis a jogadores da Série B do Campeonato Brasileiro que buscam impedir casas de apostas de utilizarem seus nomes e estatísticas em plataformas de apostas sem autorização.
A discussão pode abrir um novo capítulo sobre os limites da exploração comercial de dados esportivos no Brasil.
Via @leiemcampo
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Minha (grande) história da Copa - 21
Esperei 24 horas para falar de uma vitória fantástica.
Sim. Era preciso.
Falar sobre a Argentina exige ânimos menos acalorados entre nós.
O pós-jogo foi dominado por discussões sobre arbitragem.
Os lances polêmicos.
As reclamações do Egito.
As decisões do árbitro.
Tudo isso importa. Mas havia algo ainda maior naquela partida.
Uma virada que não explica apenas um placar.
Explica uma forma de viver o futebol.
A Marcela resumiu em apenas duas palavras por que é tão difícil para nós olhar para essa história sem preconceitos.
"Insuportavelmente incrível."
É isso. Era sobre isso que eu precisava escrever.
Porque a Argentina consegue despertar duas sensações ao mesmo tempo.
E com a mesma intensidade.
Ela irrita. Mas também nos obriga a admirá-la, ainda que discretamente.
E acho importante entendermos por quê.
Aos 79 minutos, a Argentina perdia por 2 a 0. O sonho do segundo título consecutivo parecia escapar. Lionel Messi já havia perdido um pênalti logo no início da partida.
Mas talvez seja justamente isso que torne essa história ainda maior.
Erro humaniza um herói.
Ele sofre.
Sente o peso do fracasso. Mas se recusa a permitir que o erro escreva o final da própria história.
Aos 39 anos, Messi não se entregou.
Primeiro, encontrou Romero com um passe preciso para diminuir. Depois, marcou um golaço para empatar. E, já nos acréscimos, comandando cada ataque como um maestro, participou da construção da jogada que terminou no gol de Enzo Fernández.
Tudo pulsa.
O estádio em Seattle.
As ruas de Buenos Aires.
E milhões de televisões espalhadas pelo mundo.
Thierry Henry encontrou a melhor forma de explicar o que havíamos acabado de assistir.
Ele contou uma história dos tempos em que jogava ao lado de Messi no Barcelona.
Num treino, Messi reclamou de uma falta não marcada. O treinador respondeu que aquilo também aconteceria durante um jogo.
Messi não discutiu. Pegou a bola. Fez três gols seguidos. Olhou para o treinador e apenas disse:
"Da próxima vez, marca a falta."
Henry entendeu:
"Não acorde a besta."
Messi errou. Mas não permitiu que erro se transformasse em frustração, mas em combustível.
Quando sua equipe mais precisou, aumentou o ritmo, chamou a responsabilidade, inspirou seus companheiros e mudou completamente a história da partida.
Ele fez o campo e a arquibancada acreditarem: era possível.
E, no futebol, acreditar é o primeiro passo para conseguir.
Há uma frase que repito há muitos anos:
O futebol argentino é mais tango do que samba.
É uma metáfora, claro. Mas toda metáfora nasce de uma verdade.
O samba celebra. O tango aprende a dançar com a dor.
Talvez seja essa a maior virtude esportiva da Argentina.
Ela nunca parece confortável no sofrimento. Mas também nunca se entrega a ele.
E isso deveria nos fazer refletir.
Durante décadas, fomos reconhecidos como o país do talento. Mas o futebol não vive apenas de talento. Nem ninguém.
Também vive de obstinação. De caráter. De entrega.
De continuar acreditando quando o relógio já parece ter decidido o destino da partida.
Virar um jogo eliminatório de Copa do Mundo depois de estar perdendo por 2 a 0 aos 79 minutos não é apenas uma vitória.
É uma declaração.
Uma declaração sobre a essência do futebol. Uma lembrança de que campeões não são aqueles que nunca sofrem. Nem aqueles que nunca erram.
São aqueles que sofrem, lutam e encontram forças para se levantar outra vez.
Naquela tarde em Seattle, a maior protagonista não foi apenas uma virada. Ouso dizer que sequer foi Messi.
Foi uma ideia: a de se recusar em deixar um sonho morrer.
E talvez seja justamente isso que torne essa Argentina tão...
Insuportavelmente incrível.
Minha (grande) história da Copa - 20
O Egito esteve muito perto de fazer história.
Por alguns minutos, parecia que a atual campeã do mundo deixaria a Copa do Mundo.
Mas havia Lionel Messi.
Depois de perder um pênalti, o camisa 10 liderou uma reação argentina fantástica, que virou a partida depois de estar perdendo por dois a zero e avançou às quartas de final.
Foi um daqueles jogos que explicam por que o futebol mobiliza bilhões de pessoas ao redor do planeta.
O Egito deixou a Copa, mas a mensagem de seu técnico precisa continuar presente.
Na entrevista coletiva da véspera, Hosana Hassan foi perguntado sobre uma das partidas mais importantes da história recente de sua seleção.
Antes de falar sobre Messi.
Sobre tática.
Sobre a pressão de enfrentar a Argentina.
Escolheu outro caminho.
“Se alguém no mundo não sente o sofrimento do povo palestino, então não tem humanidade, seja árabe, europeu ou americano.”
Depois, fez um contraste impossível de ignorar.
Lembrou que todos os envolvidos na Copa dormem em hotéis, têm comida, abrigo e ar-condicionado. Enquanto isso, em Gaza, há crianças com camisas de seleções da Copa e sem teto, sem alimento e enfrentando doenças.
Chamou essa realidade de “uma vergonha para a humanidade”.
Um soco no estômago de todos nós.
Não era a primeira vez que fazia isso. Em outras ocasiões, Hossam Hassan já havia demonstrado publicamente solidariedade ao povo palestino, inclusive carregando a bandeira da Palestina na própria Copa.
Independentemente da posição de cada um sobre o conflito, há algo que merece atenção.
A Copa do Mundo é entretenimento.
É paixão.
É disputa.
Mas justamente por reunir a atenção do planeta, também se transforma em um espaço onde algumas pessoas escolhem lembrar que existem dores que não aparecem no placar.
O futebol não resolve guerras.
Mas precisa lembrar ao mundo que elas existem. E o quanto elas são cruéis.
Noventa minutos passam.
Algumas tragédias humanas, infelizmente, não.
A decisão provisória do Comitê Olímpico Internacional (COI) de suspender a suspensão do Comitê Olímpico Russo (COR) já produz reflexos muito além do movimento olímpico.
No futebol, a medida abriu uma nova frente de tensão institucional entre COI, FIFA e UEFA e pode desencadear um dos maiores debates sobre governança esportiva desde o início da guerra na Ucrânia.
A UEFA ja disse que não irá retirar suspensão da Rússia.
Via @leiemcampo
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🏆 Parlamentares europeus pedem investigação sobre Infantino no caso Balogun
O caso envolvendo a liberação do atacante Folarin Balogun para atuar na Copa do Mundo ganhou um novo capítulo e ampliou o debate sobre a governança do futebol internacional.
Um grupo de parlamentares do Parlamento Europeu encaminhou pedido para que seja investigada a atuação do presidente da FIFA, Gianni Infantino, diante da repercussão provocada pela decisão que tornou o jogador elegível para atuar.
Segundo reportagem publicada pelo The New York Times, os eurodeputados defendem que sejam apuradas as circunstâncias envolvendo o caso, especialmente após a divulgação de que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, conversou com Infantino antes da decisão da entidade.
Para os parlamentares, é necessário preservar a independência dos órgãos judiciais da FIFA e evitar qualquer percepção de influência política sobre processos disciplinares.
A iniciativa reforça que o episódio Balogun deixou de ser apenas uma controvérsia esportiva para se transformar em um debate sobre transparência, autonomia institucional e credibilidade da governança do futebol mundial.
Minha (grande) história da Copa - 19
Na festa da classificação da Bélgica para as quartas de final, ainda no gramado do Seattle Field, Romelu Lukaku era um dos jogadores mais festejados da noite.
Os companheiros o abraçavam.
A torcida cantava seu nome.
Um país inteiro celebrava o atacante que acabara de marcar o quarto gol da vitória por 4 a 1 sobre os Estados Unidos.
Lukaku era simplesmente belga.
Mas nem sempre foi assim.
Filho de imigrantes congoleses, nascido na Bélgica, Lukaku cresceu convivendo com uma pergunta que nunca deveria ser feita a quem nasceu em seu próprio país:
"De onde você realmente é?"
Anos depois, em um texto publicado no The Players' Tribune, ele resumiu como aprendeu a conviver com isso.
Quando marcava gols, era o atacante belga.
Quando o time perdia, voltava a ser o atacante de origem congolesa.
Como se sua nacionalidade pudesse mudar de acordo com o placar.
Como se o pertencimento dependesse do desempenho.
A história de Lukaku não é apenas sobre futebol. É sobre como somos como sociedade.
Ela me faz lembrar outro desabafo que ficou guardado na memória.
O de Henrik Larsson.
Um dos maiores jogadores da história da Suécia.
Nascido em Helsingborg, filho de pai cabo-verdiano e mãe sueca, Larsson revelou, em entrevista ao The Guardian, que jamais conseguiu se sentir completamente aceito.
"Tenho 106 jogos pela seleção sueca, mas me sinto um estrangeiro."
É uma frase dura.
Porque não fala sobre futebol.
Fala sobre identidade.
Sobre pessoas que nasceram em um país, defenderam sua bandeira, cantaram seu hino, fizeram sua torcida sorrir e, ainda assim, em determinados momentos, continuaram sendo tratadas como se fossem de fora.
Lukaku e Larsson pertencem a gerações diferentes.
A países diferentes.
A histórias diferentes.
Mas carregam a mesma cicatriz.
A de descobrir que, para algumas pessoas, o pertencimento não é um direito.
No mesmo dia em que um debate inteiro girava em torno da suspensão retirada de um jogador americano para enfrentar a Bélgica, o personagem mais marcante da partida era justamente um homem que passou a vida lutando por algo muito mais difícil do que jogar uma partida.
Ser reconhecido como parte do próprio país.
É um teste permanente.
Um exame que precisa ser aprovado outra vez a cada gol, a cada vitória, a cada boa atuação.
Talvez seja por isso que a comemoração em Seatle tenha sido tão bonita.
Se em 2022 apos a eliminacao precoce ele era um descendente congolês. quatro anos depois ninguém perguntava de onde Romelu Lukaku era.
O estádio inteiro apenas comemorava seu gol. Todos o abraçavam como um belga.
Como o rosto vitorioso de um país.
E talvez seja esse o mundo que o esporte, às vezes, consegue nos mostrar.
Um mundo em que ninguém precise ser destaque em uma classificação em Copa para finalmente ser reconhecido como parte da própria casa.
Aqui algo importante:
O Comitê não julgou o mérito e rejeitou o pedido por inadmissibilidade, por falta de legitimidade recursal da Bélgica.
Ou seja, não se discutiu a decisão, mas a legitimidade da Federação Belga.
Eu conversei com vários amigos especialistas na área, com litígios internacionais, e todos concordam que o caso é delicado e abre precedente perigoso.
A leitura da CD foi muito larga e contrária às decisões anteriores.
O lei em campo fez uma matéria bem legal sobre o caso, mostrando que a leitura do art 27 do código disciplinar entraria em contradição com o artigo 9 sobre as decisões do árbitro serem definitivas e não poderem ser alteradas pelos órgãos judiciais.
O que no Brasil a gente chama de decisões interpretativas de campo, sem fundamento pra análise de tribunal.
🏆 A ligação da Casa Branca que coloca em xeque a autonomia do esporte.
Por que pedido de Trump à Infantino apresenta riscos para a governança esportiva.
Na coluna de @andreikampff
Via @leiemcampo
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🏆 A Federação Francesa de Futebol (FFF) anunciou que apresentou denúncia ao Ministério Público da França contra a senadora paraguaia Celeste Amarilla após declarações racistas dirigidas a Kylian Mbappé.
Em nota, a entidade classificou as manifestações como “criminosas e condenáveis” e afirmou que casos dessa natureza “devem ser processados aqui como em qualquer outro lugar”.
O episódio ocorreu após a classificação da França às quartas de final da Copa do Mundo. Nas redes sociais, a parlamentar publicou mensagens de cunho racista contra o atacante francês, gerando ampla repercussão. Mbappé respondeu que as declarações são inaceitáveis, mas ressaltou que elas não representam o povo paraguaio.
O governo do Paraguai também divulgou nota oficial repudiando as manifestações da senadora, reafirmando o compromisso do país com os direitos humanos e o combate ao racismo e à discriminação.
Minha (grande) história da Copa - 18
Lágrimas.
E seus significados tão diferentes.
As dos noruegueses eram de alegria.
Escorriam quentes, misturadas ao suor de uma tarde tensa e ensolarada.
Elas brilhavam enquanto abraços apertados e gritos roucos ecoavam como um coro viking impossível de conter.
Para a Noruega, eliminar o Brasil é fazer história. É alcançar um feito que entra para sempre na memória coletiva de um país que passou quase trinta anos longe do torneio e que, de repente, derruba o maior campeão de todos os tempos.
As lágrimas brasileiras eram de tristeza.
Pesadas, silenciosas, caindo sobre rostos imóveis, misturadas ao gosto amargo da derrota e ao som abafado de um estádio que, de repente, parecia grande demais para tanta frustração.
Porque, para nós, a felicidade parece só caber quando termina com uma taça nas mãos. Para o Brasil, a única alegria possível é o título.
Desafios diferentes, moldados por referências diferentes.
Depois do jogo, meu filho Theo, machucado por mais uma eliminação, fez uma leitura do resultado sob o prisma da justiça:
"O país mais feliz do mundo não precisava dessa alegria. O Brasil, que sofre, sim."
Era o sentimento dos Theos, Laras, Sarahs e Thominhas.
O de que faltou justiça.
Mas eles ainda vão aprender que o futebol não é sobre justiça.
Nem sobre lógica.
O que me faz lembrar uma frase de Albert Camus, goleiro antes de se tornar uma das maiores referências da literatura do século XX:
"A bola nunca chega por onde a esperamos."
Talvez seja por isso que o futebol nos fascine tanto.
Porque ele também desafia a lógica.
Não distribui alegrias conforme o sofrimento de cada povo.
Nem recompensa quem parece merecer mais.
Ele é feito de histórias.
De dias em que alguns remam até a margem.
E outros naufragam a poucos metros dela.
Como a do dia em que Haaland precisou de apenas duas oportunidades para marcar dois gols.
Como o dia do goleiro Nyland, que defendeu um pênalti no primeiro tempo e no segundo evitou um gol contra em um lance que parecia impossível.
Há tardes em que o futebol parece escrever seu roteiro com pequenas mágicas. Aquela foi uma delas.
Esses noruegueses escreveram uma página que ficará para sempre na história da seleção: o dia em que eliminaram o Brasil de uma Copa do Mundo.
Num dia em que as lágrimas mergulharam no vermelho e azul, como também no amarelo e verde.
Porque o futebol distribui, ao mesmo tempo, felicidade e dor.
E lágrimas.
Lágrimas com significados completamente diferentes.
O grande problema criado pela FIFA.
A segurança jurídica é um dos pilares de qualquer competição. Quando uma sanção automática prevista no regulamento deixa de ser aplicada por decisão excepcional, sem critérios objetivos amplamente conhecidos, abre-se espaço para questionamentos sobre isonomia e previsibilidade. O problema deixa de ser apenas disciplinar e passa a ser institucional."
O futebol aceita o erro de arbitragem como parte do jogo, mas não pode conviver com insegurança sobre a aplicação das próprias normas. Se os participantes não conseguem prever as consequências jurídicas de uma expulsão, a confiança no sistema disciplinar fica comprometida.
🏆 CBF emite nota sobre declaração de presidente dos Estados Unidos sobre Raphael Claus:
“Raphael Claus integra o quadro de árbitros profissionais da CBF, é reconhecido mundialmente como um dos melhores árbitros em atividade e possui uma trajetória marcada por excelência técnica, conduta ética e absoluto respeito ao futebol.
Não há, em todo o seu histórico, qualquer elemento que o desabone ou que sustente qualquer tipo de suspeita.
A CBF refuta qualquer insinuação que coloque em dúvida a integridade de Raphael Claus. Trata-se de um profissional exemplar, cuja carreira é amplamente respaldada por avaliações técnicas, desempenho consistente e confiança das principais competições nacionais e internacionais.
A CBF reafirma seu compromisso com a verdade, com a transparência e com a defesa intransigente de seus profissionais.”
Minha (grande) história da Copa - 17
Portugal está classificado.
A Argentina e a França também.
Mas, ao final dos jogos, um outro país virou assunto.
Os maiores jogadores do mundo decidiram falar de solidariedade.
Decidiram falar da Venezuela.
Enquanto a Copa seguia seu curso, o país enfrentava uma das maiores tragédias de sua história recente. Milhares de pessoas perderam familiares, casas e viviam a angústia de ainda procurar por quem desapareceu sob os escombros de um terremoto.
Craques driblando o sofisma da neutralidade.
Depois da classificação da Argentina, Lionel Messi interrompeu a entrevista para mandar uma mensagem de apoio às vítimas.
Cristiano Ronaldo, após a classificação de Portugal, fez mais do que falar sobre futebol. Enviou uma mensagem a um menino venezuelano que perdeu familiares no terremoto, uma camisa autografada e ajuda para sua recuperação.
Neymar também se somou aos esforços humanitários.
Shakira anunciou que recursos do Fundo Global de Educação da FIFA serão destinados às crianças afetadas.
E essa não é uma novidade.
Desde a Copa do Mundo de 2018, Kylian Mbappé doa integralmente os salários e os bônus que recebe pela seleção francesa à associação Premiers de Cordée, que promove atividades esportivas para crianças hospitalizadas e com deficiência.
São gestos transformadores.
Todos revelam a mesma compreensão: a de que a influência conquistada dentro de campo também pode transformar vidas fora dele.
Nenhum deles era obrigado a fazer isso.
Um jogador de futebol tem compromisso com o jogo.
Mas pode ir além.
Durante séculos, viajantes como Marco Polo e Alexis de Tocqueville ajudaram a revelar ao mundo povos, culturas e realidades distantes. A Copa do Mundo, de certa forma, cumpre hoje um papel semelhante.
Ela desloca o nosso olhar.
Faz com que bilhões de pessoas descubram lugares, histórias e acontecimentos que normalmente não ocupam o centro das conversas.
Às vezes por causa de um gol.
Às vezes por causa de uma dor.
É por isso que gosto de pensar que o futebol pode produzir algo que vai muito além do espetáculo.
Craques são admirados pelo talento.
Ídolos são lembrados pelas escolhas.
É nesse momento que o craque se humaniza.
Porque a defesa da dignidade humana tem esse poder.
Ela faz com que atletas extraordinários ultrapassem as linhas do campo e se revelem, antes de tudo, como seres humanos.
Não é obrigação de um jogador se posicionar sobre tragédias.
Seu compromisso é com o jogo.
Mas, quando escolhe usar a voz que conquistou com seus pés para lembrar um povo que sofre, acontece algo importante.
Ele amplia a visibilidade de uma causa.
Mobiliza pessoas.
Catalisa gestos de solidariedade.
Impulsiona pautas que não podem ser esquecidas.
Todos eles nos mostram em um gesto que a fama pode servir para algo maior do que celebrar vitórias.
Pode servir para aliviar a dor de quem mais precisa.
🏆 FIFA libera Balogun para as oitavas após julgamento relâmpago; entenda por que a decisão saiu em poucas horas
A FIFA decidiu suspender os efeitos da expulsão do atacante Folarin Balogun e liberou o jogador para defender os Estados Unidos nas oitavas de final da Copa do Mundo contra a Bélgica. A decisão foi tomada poucas horas após a abertura do procedimento disciplinar, em um dos julgamentos mais rápidos do torneio.
Segundo reportagem do The Athletic, a entidade concluiu que havia fundamentos para afastar a suspensão automática decorrente do cartão vermelho.
A rapidez do julgamento está diretamente ligada ao modelo de Justiça Desportiva adotado pela FIFA durante a Copa do Mundo. Como o torneio possui partidas em intervalos de apenas três ou quatro dias, os órgãos judiciais trabalham em regime de plantão permanente para evitar que uma punição seja cumprida antes da análise do caso. Em outras palavras, a Justiça precisa decidir antes da partida seguinte, sob pena de tornar o recurso inútil.
O sistema disciplinar da FIFA prevê procedimentos sumários justamente para garantir o direito de defesa sem comprometer o calendário da competição. Em casos urgentes, como suspensões automáticas que podem impedir a participação de um atleta na rodada seguinte, o Comitê Disciplinar pode reunir-se imediatamente, analisar imagens, documentos e manifestações das partes e proferir decisão em poucas horas.
O caso de Balogun chama atenção porque, dias antes, a interpretação predominante era de que cartões vermelhos por decisões de campo não admitiriam recurso. A revisão do caso demonstra que, em situações excepcionais previstas pelo Código Disciplinar da FIFA - especialmente quando se entende haver erro evidente ou razões para afastar os efeitos disciplinares da decisão , a entidade pode reavaliar as consequências da expulsão.
Além do impacto esportivo para os Estados Unidos, o episódio evidencia um aspecto pouco conhecido da Copa do Mundo: a Justiça Desportiva funciona praticamente em tempo real.
Enquanto as seleções treinam e viajam entre sedes, advogados, procuradores e membros dos órgãos disciplinares trabalham contra o relógio para assegurar que decisões capazes de alterar uma partida sejam tomadas antes da bola voltar a rolar.