Sou professor de Sociologia e pesquisador das relações entre religião, discurso, política e educação. Interessa-me especialmente compreender o que acontece quando tradições religiosas precisam responder às transformações do mundo contemporâneo: autoridade, identidade, diferença, direitos humanos, democracia e esfera pública estão no centro dessas investigações.
Por aqui, compartilho pesquisas, textos e provocações.
Produção acadêmica: https://t.co/yX1jtYeKFH
Há uma ideia no pensamento de Karl Barth que me parece especialmente provocadora. Em Der Römerbrief (A Carta aos Romanos), sobretudo na segunda edição (1922), Barth retoma de Kierkegaard a noção de uma diferença qualitativa infinita entre Deus e o ser humano. Em outras palavras, Deus não se confunde com aquilo que pensamos, dizemos ou ensinamos sobre ele. E daí vem uma consequência radical: a própria religião, inclusive o cristianismo, também está sob o juízo de Deus. Nenhuma igreja, doutrina, liderança religiosa ou confissão de fé está acima disso. Talvez esteja aí uma das maiores contribuições de Barth: mostrar que a própria fé pode e deve abrir espaço para a crítica da religião. Afinal, quando uma religião reivindica o direito de julgar o mundo em nome de Deus, mas se considera livre desse mesmo juízo, talvez já não esteja defendendo a soberania divina, mas simplesmente a sua própria autoridade.
Já que o principal assunto de hoje é política... vou mudar um pouco o tom e falar de teologia. rs O grande ganho crítico do barthianismo talvez esteja justamente na recusa de conferir a qualquer instância humana — seja a interpretação fundamentalista da Bíblia, o magistério eclesiástico ou a experiência profética individual — a prerrogativa de identificar sua própria palavra com a Palavra de Deus. Não porque Deus não possa falar, mas precisamente porque, se Deus fala, essa fala não está à disposição daqueles que reivindicam representá-lo. Entre o discurso humano e a revelação divina permanece uma diferença que nenhuma autoridade doutrinária, institucional ou carismática consegue eliminar por iniciativa própria.
Permita-me uma observação, Mateus. Posso estar enganado, mas me parecem duas questões distintas. Uma é a experiência de quem foi constrangido ou mesmo afastado de sua comunidade religiosa por razões político-ideológicas. Outra é a discussão sobre como enfrentar eleitoralmente o bolsonarismo. Afinal, ser de direita e não votar em Bolsonaro não implica necessariamente sofrer o mesmo constrangimento. Há uma assimetria que merece atenção: em determinados segmentos religiosos, a hegemonia político-ideológica tem sido da ultradireita, não da esquerda. Por isso, considero problemática a ideia de uma suposta simetria da polarização.
Parece-me que a estratégia dos dois discursos tem funcionado bem. Para a própria bolha e para os eleitores em potencial, promessas e mais promessas de prosperidade. Para os agentes do mercado, promessas e mais promessas de cortes de gastos. O problema é que cortes de gastos não são, por definição, uma política de prosperidade. Dependendo de onde incidem, podem comprometer investimentos, serviços públicos, emprego e renda. A questão, portanto, não é simplesmente saber se as contas fecham, mas qual projeto de desenvolvimento está sendo anunciado e quais interesses ele pretende atender. Afinal, promete-se prosperidade para quem e austeridade às custas de quem?
Cortar gastos desacelera a economia e o autônomo é um dos primeiros a sentir. O Made mediu impactos diretos da desaceleração econômica em diferentes tipos de trabalhadores: MEI, autônomos, trabalhadores do setor privado (formais e informais), servidores públicos e empregadores.
No mundo inteiro o “ajuste fiscal” da extrema-direita é esse aí: corte de investimentos e gastos sociais, e redução de impostos para ricos e grandes empresas (como na primeira versão do PERSE). O resultado é deterioração fiscal e piora da atividade econômica
@gutsiqueira Pergunto porque reconhecer a necessidade de ajuste não resolve a questão de como realizá-lo, nem de quem teria condições de conduzi-lo. ;-)
A valorização real do salário mínimo talvez seja uma das maiores conquistas sociais da Nova República. Seus avanços remontam ao governo FHC e sua consolidação ocorreu nos governos seguintes. O próprio Lula, com Palocci na Fazenda e Henrique Meirelles no Banco Central, realizou um rigoroso ajuste fiscal a partir de 2003 sem interromper essa trajetória.
Mas há uma questão econômica frequentemente negligenciada: como realizar um ajuste fiscal enfraquecendo um dos mecanismos de sustentação da demanda interna? A renda dos trabalhadores mais pobres não representa apenas despesa ou custo de produção; representa também consumo, circulação monetária, atividade econômica e arrecadação tributária.
Não por acaso, até pesquisadores do FMI vêm questionando, há anos, os efeitos contraproducentes da austeridade sobre o crescimento e a desigualdade.
Reconhecer a necessidade de equilíbrio fiscal não significa aceitar que seus custos devam recair prioritariamente sobre os trabalhadores de menor renda. Afinal, um ajuste que compromete o crescimento pode acabar dificultando a própria sustentabilidade fiscal que pretende assegurar.
A questão, portanto, não é simplesmente quanto cortar, mas o que preservar, quem deve contribuir e quais consequências econômicas e sociais estamos dispostos a produzir.
+ Não adianta propor apenas cortar cargos e supersalários; embora seja positivo, passa longe de bastar. Subir impostos também já esgotou. Cortar gastos será inevitável, sobretudo no ganho real do salário mínimo. Ambos terão de fazê-lo.
Gutierres, uma pergunta sincera: entre Lula e Flávio Bolsonaro, quem você considera que teria maior capacidade política e técnica para conduzir um ajuste fiscal consistente, sem aventuras macroeconômicas e sem comprometer desnecessariamente o crescimento e a renda dos trabalhadores?
A trajetória histórica do IPCA e da Selic no Brasil revela relações macroeconômicas que não podem ser reduzidas a explicações lineares.
O gráfico apresenta a evolução da inflação e dos juros básicos, mas não estabelece, isoladamente, relações de causalidade entre política fiscal, política monetária e crescimento.
É justamente aqui que uma perspectiva keynesiana acrescenta uma questão fundamental: ajustes fiscais podem produzir efeitos sobre a demanda agregada, o emprego e a arrecadação, dependendo de sua composição e das condições econômicas.
Portanto, responsabilidade fiscal não significa simplesmente reduzir despesas, mas também avaliar as consequências econômicas e distributivas dessas escolhas.
A pergunta não é apenas quanto o Estado economiza, mas quais efeitos essa economia produz sobre a sociedade e sobre a própria atividade econômica.
Gutierres, menos... Creio que podemos dispensar as observações sobre os instrumentos utilizados na revisão de um texto e nos concentrar no mérito dos argumentos.
Compreendo a distinção entre eliminar e limitar os ganhos reais do salário mínimo. Minha objeção, contudo, permanece: por que apresentar essa limitação como uma inevitabilidade fiscal, sem considerar seus efeitos sobre a demanda agregada, o consumo das famílias de baixa renda e a própria arrecadação?
Naturalmente, o desequilíbrio fiscal pode pressionar juros e inflação. Mas ajustes fiscais também podem produzir efeitos contracionistas, a depender de sua composição e do contexto econômico. São problemas que precisam ser examinados conjuntamente.
O ponto não é negar a necessidade de ajuste, mas questionar seus pressupostos, sua composição e a distribuição social de seus custos. Parece-me uma divergência econômica perfeitamente legítima, que merece ser discutida nesse plano.
Há uma dimensão muito concreta nessa discussão. Quando um trabalhador que recebe um salário mínimo tem seu poder de compra reduzido, ele consome menos no mercadinho, na farmácia, na feira, na padaria. O pequeno comerciante vende menos, reduz encomendas, adia contratações. A atividade econômica perde dinamismo e o próprio Estado pode arrecadar menos.
É o velho problema keynesiano: aquilo que parece economia na planilha do governo pode representar perda de renda, emprego e arrecadação no conjunto da economia.
Por que, então, começar o ajuste justamente pelo salário mínimo? Por que não discutir com igual rigor os gastos tributários pouco eficazes, os subsídios sem contrapartidas, as distorções tributárias que favorecem rendas elevadas e a qualidade do gasto público?
Nenhuma dessas alternativas, isoladamente, resolve o problema fiscal. Mas demonstram que há escolhas distributivas envolvidas. O ajuste necessário não precisa ser socialmente regressivo, nem economicamente contraproducente. Responsabilidade fiscal também exige preservar as condições de crescimento que tornam as contas públicas sustentáveis.
Viralizou o corte de um debate entre Lula e Serra realizado em 2002: por conta da forma civilizada que o petista e o tucano debatiam propostas. O que mudou daquele debate para este? Do lado da Esquerda ainda é o mesmo Lula, do outro lado a civilidade deu lugar à barbárie.
Caro Douglas, penso que sua crítica parte de uma interpretação que não corresponde exatamente ao argumento apresentado. Em nenhum momento se afirmou que votar no 13 seria moralmente aceitável e votar no 22, não. Essa não é a questão em discussão.
Minha ressalva diz respeito à equivalência histórica que você estabelece. A esquerda evangélica brasileira possui trajetórias bastante heterogêneas, com forte presença do protestantismo ecumênico e da Teologia da Missão Integral, tradições que não podem ser simplesmente confundidas com a filosofia reformacional.
Evidentemente, existem intersecções e casos particulares. Mas afirmar que haveria uma “ala substancial” da esquerda evangélica instrumentalizando a filosofia reformacional exige uma demonstração mais cuidadosa. Quais grupos, instituições, redes intelectuais e produções teológicas sustentariam essa caracterização?
A existência de pastores calvinistas com posições políticas à esquerda não comprova, por si só, a existência de um movimento reformacional de esquerda com dimensão equivalente à das articulações conservadoras que vêm sendo estudadas.
É perfeitamente legítimo criticar a instrumentalização política da religião em qualquer campo ideológico. Entretanto, reduzir essa discussão à oposição entre os números 13 e 22 acaba deslocando o debate do terreno da análise histórica para o da disputa político-partidária.
Meu interesse é justamente compreender os processos pelos quais determinadas interpretações religiosas se articulam a projetos políticos e conquistam hegemonia. Isso exige atenção às diferentes trajetórias históricas, aos atores envolvidos e às condições concretas dessas articulações, sem pressupor equivalências que ainda precisam ser demonstradas.
Reverendo, agradeço a resposta. Talvez estejamos examinando dimensões diferentes do mesmo fenômeno. Não estou negando a densidade filosófica ou metaepistemológica da noção de cosmovisão cristã, tampouco afirmando que esses grupos não possuam estratégias.
Minha questão é outra: como um repertório teológico-filosófico, cuja circulação no Brasil antecede bastante a atual conjuntura política, passou a desempenhar determinadas funções de articulação e legitimação política?
Ricardo Quadros Gouvêa, por exemplo, já discutia a filosofia reformacional na década de 1990. Na minha própria experiência de formação teológica (presbiteriana), nos anos 2000, esse repertório circulava também em discussões sobre cultura, arte, filosofia e educação, sem necessariamente assumir a configuração político-eleitoral que observamos posteriormente.
Quando me refiro à cosmovisão cristã como significante vazio, não estou dizendo que a expressão careça de conteúdo conceitual. Estou interessado na função que ela pode desempenhar ao articular demandas heterogêneas sob uma identidade aparentemente comum.
Daí a importância de distinguir a tradição intelectual, suas diferentes apropriações históricas e os processos pelos quais determinadas interpretações conquistam hegemonia.
Quanto à eficácia das estratégias eleitorais desses grupos, sua observação merece consideração. Mas me parece uma questão distinta daquela que procuro examinar: a constituição histórica de uma gramática político-religiosa capaz de produzir identidades, alianças e formas de incidência pública.
Reverendo, entendo sua observação, sobretudo diante de alianças eleitorais que parecem bastante contraditórias. Mas talvez o fenômeno seja um pouco mais complexo.
Não me parece que faltem propriamente estratégias a esses grupos. Há redes de formação intelectual, produção editorial e atuação institucional que ultrapassam bastante as disputas eleitorais.
A própria expressão “cosmovisão cristã” pode funcionar como um significante vazio, capaz de reunir demandas religiosas, morais e políticas bastante distintas sob uma aparente unidade. Isso ajuda a compreender como grupos que nem sempre compartilham os mesmos pressupostos conseguem construir alianças e identidades políticas comuns.
Nesse sentido, talvez o candidato não seja simplesmente o primeiro que aparece, mas aquele que, em determinada conjuntura, consegue condensar essas expectativas, mesmo sem representar integralmente os projetos envolvidos.
É justamente essa articulação, com suas ambiguidades e contradições, que me parece interessante compreender.
@CaioPeres18 , acho que você toca num ponto muito importante. Curiosamente, em um artigo que publiquei em 2020, procurei enfrentar uma questão bastante próxima.
Minha hipótese era que o fracasso daquela tentativa evangelical de constituir uma alternativa ao fundamentalismo, especialmente a partir dos anos 1990, havia contribuído para tornar setores do protestantismo brasileiro mais vulneráveis às articulações políticas conservadoras.
Isso envolve, evidentemente, problemas teológicos relacionados à autoridade, ao dogmatismo e à dificuldade de circulação de uma reflexão crítica no interior das igrejas.
Apenas acrescentaria uma nuance: essas concepções de poder também possuem história e são atravessadas por disputas internas à própria tradição.
Talvez seja importante compreender não apenas quais teologias legitimam determinadas relações de poder, mas como algumas dessas interpretações conseguem se tornar dominantes, enquanto outras acabam marginalizadas.