SEJA FELIZ EM HAVANA, COM OU SEM BARBA
"A esquerda não tem nem ideia do mundo em que vive." A frase não é minha. É de José Saramago, Nobel de Literatura, comunista de carteirinha e ateu que escreveu um "evangelho". Ele havia dito isso a um jornal argentino, com um palavrão no meio. O Nobel tinha licença para o palavrão. Eu tenho licença para traduzir o espírito da coisa.
Anos depois, Saramago reclamou que a esquerda respondera com o mais gelado dos silêncios. No mesmo texto, jurava que Marx nunca tivera tanta razão. Morreu em 2010, sem perceber que o problema estava no livro de sua cabeceira.
A esquerda não ignora o mundo por falta de leitura. Leu Marx, leu Gramsci, sublinhou tudo. Leu como quem decora o catecismo. Eu li como quem confere a conta do restaurante, e a conta nunca fechou. Quando a teoria briga com os fatos, o militante fica com a teoria, fiel à fórmula atribuída a Nelson Rodrigues: se os fatos estão contra mim, pior para os fatos.
Conheço essa turma de perto. Em 1992, eu apresentava o 25ª Hora, na TV Record, e convidei para uma entrevista um deputado federal em primeiro mandato chamado Jair Bolsonaro. Tínhamos passado pelas mesmas escolas, em épocas diferentes, mas essa história eu conto mais adiante. Bolsonaro usou cada minuto para dar a sua versão de 1964, que chamava de revolução. Não xingou nem ofendeu ninguém. Apenas enfileirou, em rede nacional, fatos que a grande imprensa preferia deixar na gaveta. Foi um estrondo.
No dia seguinte, chegou o pedido do PT: espaço para José Dirceu. Concedido. Dirceu sentou-se na mesma cadeira, teve o mesmo tempo e contou a sua versão do que chamava de ditadura militar, nome que a grande imprensa acabaria adotando como oficial. Na minha bancada, os dois lados falaram. Anote.
Corta para 1994. Fernando Henrique contra Luiz Inácio da Silva, o Lula. Fiz a escolha de quem não tinha escolha. Entre a esquerda caviar, que cita Max Weber no jantar, e a esquerda do Foro de São Paulo, que cita Fidel no comício, fiquei com o caviar, apesar de preferir uma boa feijoada.
Eu era um dos comentaristas do Record em Notícias, o debate do meio-dia. Comentando o tom raivoso da campanha petista, dirigi-me a José Dirceu, então candidato do PT ao governo de São Paulo, o mesmo que eu havia entrevistado dois anos antes, e disse, ao vivo: "Por favor, pega um avião, eu vou lhe dar um conselho, e vai para Cuba. Seja feliz em Havana."
No mesmo programa, o deputado estadual Edson Ferrarini, do PL, falou em guerrilheiros que haviam matado soldados inocentes. O juiz Celso José Pimentel, do TRE, viu calúnia, "em tese", em nossas falas. O tribunal suspendeu duas edições do programa, deu direito de resposta ao candidato e mandou a fita para a Procuradoria. A Folha de S.Paulo registrou tudo em 11 de agosto de 1994, e a página está logo abaixo. Em 1992, dei o microfone a Dirceu. Em 1994, ele foi ao tribunal calar o meu.
No programa seguinte, subi um degrau e mandei recado ao próprio Luiz Inácio da Silva, o Lula: "Tire a sua barba e mostre quem você realmente é ao povo brasileiro." Nova punição para a emissora, novo processo nas minhas costas.
Como acabou? Venci os dois processos na Justiça e não pedi nada em troca. São Paulo respondeu por mim: a Câmara Municipal me deu a Medalha Anchieta e o Título de Cidadão Paulistano. Deixei a vida seguir, e ela seguiu por caminhos curiosos.
Em 2002, por meio de um amigo, conheci o Frei Betto, um frade dominicano que havia participado da guerrilha urbana da ALN de Marighella e passado quatro anos preso pelo governo militar. Já em liberdade, escreveu "Fidel e a Religião". Fazia décadas que ele era confidente do barbudo. Logo na primeira conversa, contei-lhe a história das escolas: passei pela Escola Preparatória de Cadetes, em Campinas, e me formei, em 1982, na Academia Militar das Agulhas Negras, como oficial de Infantaria. Disse-lhe, também, que havia deixado o Exército em 1985, como primeiro-tenente, três anos antes do capitão Jair Bolsonaro. Imagine a cena: o ex-oficial de Infantaria frente a frente com o ex-guerrilheiro. Ele me olhou com cara de espanto. Natural.
Um frade e um pastor, em lados opostos de quase tudo. Sempre nos demos bem. Os livros dele chegavam com dedicatória: "Ao pastor Didini". Eu lia todos. Frei Betto me respondeu com dedicatórias. Dirceu e a campanha de Luiz Inácio da Silva, o Lula, com processos.
Trinta e dois anos depois daquele agosto, faço as contas. Quem tinha 20 anos em 1994 tem hoje 52. Salvo os militantes da UNE, duvido que essa geração conheça esses fatos. Nikolas Ferreira ainda levaria dois anos para nascer. Flávio Bolsonaro era um menino de 13. Sergio Moro tinha acabado de fazer 22 e estudava Direito em Maringá. Boa parte dos protagonistas de hoje não viu o filme. Eu estava no elenco.
No domingo, dia 4, São Paulo votou. E justamente aqui, na terra da Record, onde o programa acabou censurado. A grande maioria dos eleitores não viu aquele filme, mas parece ter assistido à reprise. Zé Dirceu tentou voltar à Câmara e ficou de fora. Não foi para Havana, claro, mas também não foi para Brasília. E Luiz Inácio da Silva, o Lula, continua de barba.
Eu também continuo por aqui, graças a Deus, com histórias inéditas... para quem gosta de reprise.
🗞️PARA QUE SERVE A OMBUDSMAN DA FOLHA? 📰
Quem abriu o site da Folha de S.Paulo nesta quinta-feira, 8 de outubro, encontrou na home a foto de Dora Kramer e, logo abaixo, a frase “Histórico golpista da família Bolsonaro provoca suspeitas”. Lida de passagem, a frase parece dela.
Dora Kramer não precisa de advogado, e eu não me candidato ao cargo. Ela tem 71 anos, 52 deles de redação. Começou em 1974, aos 18, ainda estudante, no extinto Diário Popular, passou pelo Jornal do Brasil, pelo Estadão e pela Veja, morou 22 anos em Brasília, essa Versalhes de concreto, e hoje escreve na Folha e comenta na Jovem Pan News.
Tem também um passado, como boa parte da imprensa dos anos 1970. Em 2009, o jornalista Olímpio Cruz Neto escreveu, num texto reproduzido pelo Vermelho, portal ligado ao PCdoB, que Dora militou na juventude no antigo PCB. Escreveu também que Míriam Leitão, do Grupo Globo, militava no PCdoB.
Voltemos à coluna de opinião de Dora Kramer. Ela trata de um discurso de Flávio Bolsonaro. Na terça, em Goiânia, ao receber o apoio de Ronaldo Caiado para o segundo turno, o candidato do PL anunciou que usaria a maioria no Congresso “para a gente mudar a Constituição, para a gente redemocratizar este país, para as instituições voltarem a respeitar a Constituição”. Traduzo: o recado tem endereço, e o endereço fica na Praça dos Três Poderes, no prédio do Supremo.
Dora desconfia da palavra “redemocratizar” na boca da família Bolsonaro e cobra de Flávio clareza sobre o que ele pretende mudar. É opinião, e coluna de opinião serve para isso. Quem não gosta tem o resto do jornal.
O resto do jornal, porém, resolveu ajudar. Dentro, na página da coluna, o título fala da suspeita que Flávio gerou ao se propor a redemocratizar o país. Fora, na vitrine, a suspeita virou “histórico golpista da família”. Em qualquer redação, da Barão de Limeira a Nova York, chamada de capa sai da mesa do editor. A colunista entrega o texto e vai para casa.
E a vitrine é tudo o que o brasileiro lê. Ele passa o polegar pela tela, tira um print e despacha para o grupo da família, onde a tia comenta e o cunhado retruca. Em dez minutos, a ex-militante do PCB vira autora de uma frase que talvez nem seja dela. A direita a xinga, a esquerda a aplaude, e ninguém fica sabendo o que de fato ela quis ao questionar a fala de Flávio.
A Folha se orgulha de ter sido o primeiro jornal brasileiro a ter um ombudsman, em 1989. A palavra veio da Suécia, país onde, que eu saiba, capa de jornal não costuma ter opinião própria. Para que serve o cargo? Em tese, para dizer ao jornal, em público, o que o leitor pensa quando a capa diz mais do que a coluna.
Dora Kramer quer saber de Flávio Bolsonaro o que ele entende por redemocratizar. Eu me contento com menos. Quero saber quem escreveu a chamada.
Com a palavra, a ombudsman. Só peço que não mexam no título da minha crônica de opinião.
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Quem abriu o site da Folha de S.Paulo nesta quinta-feira, 8 de outubro, encontrou na home a foto de Dora Kramer e, logo abaixo, a frase “Histórico golpista da família Bolsonaro provoca suspeitas”. Lida de passagem, a frase parece dela.
Dora Kramer não precisa de advogado, e eu não me candidato ao cargo. Ela tem 71 anos, 52 deles de redação. Começou em 1974, aos 18, ainda estudante, no extinto Diário Popular, passou pelo Jornal do Brasil, pelo Estadão e pela Veja, morou 22 anos em Brasília, essa Versalhes de concreto, e hoje escreve na Folha e comenta na Jovem Pan News.
Tem também um passado, como boa parte da imprensa dos anos 1970. Em 2009, o jornalista Olímpio Cruz Neto escreveu, num texto reproduzido pelo Vermelho, portal ligado ao PCdoB, que Dora militou na juventude no antigo PCB. Escreveu também que Míriam Leitão, do Grupo Globo, militava no PCdoB.
Voltemos à coluna de opinião de Dora Kramer. Ela trata de um discurso de Flávio Bolsonaro. Na terça, em Goiânia, ao receber o apoio de Ronaldo Caiado para o segundo turno, o candidato do PL anunciou que usaria a maioria no Congresso “para a gente mudar a Constituição, para a gente redemocratizar este país, para as instituições voltarem a respeitar a Constituição”. Traduzo: o recado tem endereço, e o endereço fica na Praça dos Três Poderes, no prédio do Supremo.
Dora desconfia da palavra “redemocratizar” na boca da família Bolsonaro e cobra de Flávio clareza sobre o que ele pretende mudar. É opinião, e coluna de opinião serve para isso. Quem não gosta tem o resto do jornal.
O resto do jornal, porém, resolveu ajudar. Dentro, na página da coluna, o título fala da suspeita que Flávio gerou ao se propor a redemocratizar o país. Fora, na vitrine, a suspeita virou “histórico golpista da família”. Em qualquer redação, da Barão de Limeira a Nova York, chamada de capa sai da mesa do editor. A colunista entrega o texto e vai para casa.
E a vitrine é tudo o que o brasileiro lê. Ele passa o polegar pela tela, tira um print e despacha para o grupo da família, onde a tia comenta e o cunhado retruca. Em dez minutos, a ex-militante do PCB vira autora de uma frase que talvez nem seja dela. A direita a xinga, a esquerda a aplaude, e ninguém fica sabendo o que de fato ela quis ao questionar a fala de Flávio.
A Folha se orgulha de ter sido o primeiro jornal brasileiro a ter um ombudsman, em 1989. A palavra veio da Suécia, país onde, que eu saiba, capa de jornal não costuma ter opinião própria. Para que serve o cargo? Em tese, para dizer ao jornal, em público, o que o leitor pensa quando a capa diz mais do que a coluna.
Dora Kramer quer saber de Flávio Bolsonaro o que ele entende por redemocratizar. Eu me contento com menos. Quero saber quem escreveu a chamada.
Com a palavra, a ombudsman. Só peço que não mexam no título da minha crônica de opinião.
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Quem abriu o site da Folha de S.Paulo nesta quinta-feira, 8 de outubro, encontrou na home a foto de Dora Kramer e, logo abaixo, a frase “Histórico golpista da família Bolsonaro provoca suspeitas”. Lida de passagem, a frase parece dela.
Dora Kramer não precisa de advogado, e eu não me candidato ao cargo. Ela tem 71 anos, 52 deles de redação. Começou em 1974, aos 18, ainda estudante, no extinto Diário Popular, passou pelo Jornal do Brasil, pelo Estadão e pela Veja, morou 22 anos em Brasília, essa Versalhes de concreto, e hoje escreve na Folha e comenta na Jovem Pan News.
Tem também um passado, como boa parte da imprensa dos anos 1970. Em 2009, o jornalista Olímpio Cruz Neto escreveu, num texto reproduzido pelo Vermelho, portal ligado ao PCdoB, que Dora militou na juventude no antigo PCB. Escreveu também que Míriam Leitão, do Grupo Globo, militava no PCdoB.
Voltemos à coluna de opinião de Dora Kramer. Ela trata de um discurso de Flávio Bolsonaro. Na terça, em Goiânia, ao receber o apoio de Ronaldo Caiado para o segundo turno, o candidato do PL anunciou que usaria a maioria no Congresso “para a gente mudar a Constituição, para a gente redemocratizar este país, para as instituições voltarem a respeitar a Constituição”. Traduzo: o recado tem endereço, e o endereço fica na Praça dos Três Poderes, no prédio do Supremo.
Dora desconfia da palavra “redemocratizar” na boca da família Bolsonaro e cobra de Flávio clareza sobre o que ele pretende mudar. É opinião, e coluna de opinião serve para isso. Quem não gosta tem o resto do jornal.
O resto do jornal, porém, resolveu ajudar. Dentro, na página da coluna, o título fala da suspeita que Flávio gerou ao se propor a redemocratizar o país. Fora, na vitrine, a suspeita virou “histórico golpista da família”. Em qualquer redação, da Barão de Limeira a Nova York, chamada de capa sai da mesa do editor. A colunista entrega o texto e vai para casa.
E a vitrine é tudo o que o brasileiro lê. Ele passa o polegar pela tela, tira um print e despacha para o grupo da família, onde a tia comenta e o cunhado retruca. Em dez minutos, a ex-militante do PCB vira autora de uma frase que talvez nem seja dela. A direita a xinga, a esquerda a aplaude, e ninguém fica sabendo o que de fato ela quis ao questionar a fala de Flávio.
A Folha se orgulha de ter sido o primeiro jornal brasileiro a ter um ombudsman, em 1989. A palavra veio da Suécia, país onde, que eu saiba, capa de jornal não costuma ter opinião própria. Para que serve o cargo? Em tese, para dizer ao jornal, em público, o que o leitor pensa quando a capa diz mais do que a coluna.
Dora Kramer quer saber de Flávio Bolsonaro o que ele entende por redemocratizar. Eu me contento com menos. Quero saber quem escreveu a chamada.
Com a palavra, a ombudsman. Só peço que não mexam no título da minha crônica de opinião.
"CARNE PODRE!"
O LEÃO QUE RUGIU EM JUDÁ TAMBÉM RUGIU EM BRASÍLIA 🦁
Em maio, longe de querer profetizar, escrevi no Substack sobre um pastor de ovelhas de Tecoa que carregava um leão dentro do peito. Achei que o assunto estava encerrado. Amós saiu de cena há quase 2.800 anos, e leão de profeta dorme sossegado na cova dos leões, com Daniel.
Mas houve um que pulou. E veste verde e amarelo.
Chama-se Alan Chaves, é de São Paulo e diz pregar na rua há 29 anos. Já gritou o nome de Jesus na Praça da Sé, na Avenida Paulista, na areia de Balneário Camboriú e no meio da Times Square. Não tem templo nem microfone. Tem a Bíblia debaixo do braço, uma garrafa d'água na mão e uma voz que deixa no chinelo o carro da pamonha.
Em junho de 2024, resolveu pregar no Muro das Lamentações, em Jerusalém. Durou pouco. Os fiéis ergueram a Torá na frente da Bíblia dele, e as crianças, cantando e batendo palmas, foram empurrando o pregador para fora. Muita gente riu. Eu me lembrei de Betel.
Foi lá, no santuário do rei de Israel, que Amós fez a mesma coisa, por volta de 760 antes de Cristo. Tinha saído de Judá para anunciar o juízo. O sacerdote Amasias, homem do palácio, mandou que ele fosse comer o seu pão em outra freguesia. Ali, não. Ali era a casa do rei. Amós não discutiu credencial. Disse que não era profeta nem filho de profeta, apenas um boiadeiro que colhia sicômoros. E continuou falando.
A cena que me fez esquecer o café na xícara, porém, é outra. Alan está na Praça dos Três Poderes, em Brasília. O sol bate no blazer bege. De um lado fica o Supremo, do outro, o Palácio do Planalto. Ele não diz nomes, nem precisa. Aponta o dedo, chama o poder de carne podre, avisa que as manchetes de jornais vão estampar a vergonha de alguns que despacham ali e fecha com uma frase que todo leitor de Amós conhece: "Deus vai se encontrar contigo cara a cara."
Amós também afrontava os poderosos sem cerimônia. Chamou as senhoras ricas de Samaria de "vacas de Basã", e não consta que tenha pedido desculpas. E encerrava com o mesmo aviso: "Prepara-te, ó Israel, para te encontrares com o teu Deus."
O grito de Brasília, diz Alan, nasceu de uma palavra recebida em 2022. Naquele ano, o leão dentro dele despertou. O resto, quem conta é o calendário.
Em 4 de outubro, Luiz Inácio da Silva, o Lula, favorito das pesquisas durante meses, terminou o primeiro turno em segundo lugar, com 45% contra 47% de Flávio Bolsonaro. Das 54 cadeiras em disputa no Senado, o PT do barbudo levou seis. O PL levou dezenove. E os escândalos do governo, como o do INSS e outros tantos, continuam cheirando do lado de fora da cova, por mais que tentem enterrá-los.
Os ministros do Supremo, que até ontem se comportavam como donos absolutos da verdade, acordaram com um Senado que, a partir de 2027, terá 49 de seus 81 senadores alinhados à direita. É a maioria que pode abrir processo de impeachment contra eles. Robespierre também mandou muita gente para a guilhotina. Em julho de 1794, foi a vez dele.
A grande imprensa nem estava no sermão. Passou quase quatro anos noticiando um golpe que nunca houve e rindo das piadas prontas do barbudo. Agora vai ter de estampar as manchetes que o pregador anunciou.
Amós viu Deus de pé sobre um muro, com um fio de prumo na mão, medindo o que estava torto. Alan Chaves trouxe de volta o prumo de 2.800 anos atrás.
Alan prega até a exaustão e, assim como Amós, não é conhecido pelos bons modos. Profeta educado é coisa rara na Bíblia. Quem faz questão de etiqueta vai ouvir o sacerdote do rei.
Em Betel, mandaram Amós de volta para Judá. Em Jerusalém, mandaram Alan de volta para São Paulo.
Em Brasília, há muita gente sem saber para onde vai.
A crônica de maio, "Dentro daquele homem havia um leão", está no Substack:
https://t.co/2PpJgNY6Qn
"CARNE PODRE!"
O LEÃO QUE RUGIU EM JUDÁ TAMBÉM RUGIU EM BRASÍLIA 🦁
Em maio, longe de querer profetizar, escrevi no Substack sobre um pastor de ovelhas de Tecoa que carregava um leão dentro do peito. Achei que o assunto estava encerrado. Amós saiu de cena há quase 2.800 anos, e leão de profeta dorme sossegado na cova dos leões, com Daniel.
Mas houve um que pulou. E veste verde e amarelo.
Chama-se Alan Chaves, é de São Paulo e diz pregar na rua há 29 anos. Já gritou o nome de Jesus na Praça da Sé, na Avenida Paulista, na areia de Balneário Camboriú e no meio da Times Square. Não tem templo nem microfone. Tem a Bíblia debaixo do braço, uma garrafa d'água na mão e uma voz que deixa no chinelo o carro da pamonha.
Em junho de 2024, resolveu pregar no Muro das Lamentações, em Jerusalém. Durou pouco. Os fiéis ergueram a Torá na frente da Bíblia dele, e as crianças, cantando e batendo palmas, foram empurrando o pregador para fora. Muita gente riu. Eu me lembrei de Betel.
Foi lá, no santuário do rei de Israel, que Amós fez a mesma coisa, por volta de 760 antes de Cristo. Tinha saído de Judá para anunciar o juízo. O sacerdote Amasias, homem do palácio, mandou que ele fosse comer o seu pão em outra freguesia. Ali, não. Ali era a casa do rei. Amós não discutiu credencial. Disse que não era profeta nem filho de profeta, apenas um boiadeiro que colhia sicômoros. E continuou falando.
A cena que me fez esquecer o café na xícara, porém, é outra. Alan está na Praça dos Três Poderes, em Brasília. O sol bate no blazer bege. De um lado fica o Supremo, do outro, o Palácio do Planalto. Ele não diz nomes, nem precisa. Aponta o dedo, chama o poder de carne podre, avisa que as manchetes de jornais vão estampar a vergonha de alguns que despacham ali e fecha com uma frase que todo leitor de Amós conhece: "Deus vai se encontrar contigo cara a cara."
Amós também afrontava os poderosos sem cerimônia. Chamou as senhoras ricas de Samaria de "vacas de Basã", e não consta que tenha pedido desculpas. E encerrava com o mesmo aviso: "Prepara-te, ó Israel, para te encontrares com o teu Deus."
O grito de Brasília, diz Alan, nasceu de uma palavra recebida em 2022. Naquele ano, o leão dentro dele despertou. O resto, quem conta é o calendário.
Em 4 de outubro, Luiz Inácio da Silva, o Lula, favorito das pesquisas durante meses, terminou o primeiro turno em segundo lugar, com 45% contra 47% de Flávio Bolsonaro. Das 54 cadeiras em disputa no Senado, o PT do barbudo levou seis. O PL levou dezenove. E os escândalos do governo, como o do INSS e outros tantos, continuam cheirando do lado de fora da cova, por mais que tentem enterrá-los.
Os ministros do Supremo, que até ontem se comportavam como donos absolutos da verdade, acordaram com um Senado que, a partir de 2027, terá 49 de seus 81 senadores alinhados à direita. É a maioria que pode abrir processo de impeachment contra eles. Robespierre também mandou muita gente para a guilhotina. Em julho de 1794, foi a vez dele.
A grande imprensa nem estava no sermão. Passou quase quatro anos noticiando um golpe que nunca houve e rindo das piadas prontas do barbudo. Agora vai ter de estampar as manchetes que o pregador anunciou.
Amós viu Deus de pé sobre um muro, com um fio de prumo na mão, medindo o que estava torto. Alan Chaves trouxe de volta o prumo de 2.800 anos atrás.
Alan prega até a exaustão e, assim como Amós, não é conhecido pelos bons modos. Profeta educado é coisa rara na Bíblia. Quem faz questão de etiqueta vai ouvir o sacerdote do rei.
Em Betel, mandaram Amós de volta para Judá. Em Jerusalém, mandaram Alan de volta para São Paulo.
Em Brasília, há muita gente sem saber para onde vai.
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O LEÃO QUE RUGIU EM JUDÁ TAMBÉM RUGIU EM BRASÍLIA 🦁
Em maio, longe de querer profetizar, escrevi no Substack sobre um pastor de ovelhas de Tecoa que carregava um leão dentro do peito. Achei que o assunto estava encerrado. Amós saiu de cena há quase 2.800 anos, e leão de profeta dorme sossegado na cova dos leões, com Daniel.
Mas houve um que pulou. E veste verde e amarelo.
Chama-se Alan Chaves, é de São Paulo e diz pregar na rua há 29 anos. Já gritou o nome de Jesus na Praça da Sé, na Avenida Paulista, na areia de Balneário Camboriú e no meio da Times Square. Não tem templo nem microfone. Tem a Bíblia debaixo do braço, uma garrafa d'água na mão e uma voz que deixa no chinelo o carro da pamonha.
Em junho de 2024, resolveu pregar no Muro das Lamentações, em Jerusalém. Durou pouco. Os fiéis ergueram a Torá na frente da Bíblia dele, e as crianças, cantando e batendo palmas, foram empurrando o pregador para fora. Muita gente riu. Eu me lembrei de Betel.
Foi lá, no santuário do rei de Israel, que Amós fez a mesma coisa, por volta de 760 antes de Cristo. Tinha saído de Judá para anunciar o juízo. O sacerdote Amasias, homem do palácio, mandou que ele fosse comer o seu pão em outra freguesia. Ali, não. Ali era a casa do rei. Amós não discutiu credencial. Disse que não era profeta nem filho de profeta, apenas um boiadeiro que colhia sicômoros. E continuou falando.
A cena que me fez esquecer o café na xícara, porém, é outra. Alan está na Praça dos Três Poderes, em Brasília. O sol bate no blazer bege. De um lado fica o Supremo, do outro, o Palácio do Planalto. Ele não diz nomes, nem precisa. Aponta o dedo, chama o poder de carne podre, avisa que as manchetes de jornais vão estampar a vergonha de alguns que despacham ali e fecha com uma frase que todo leitor de Amós conhece: "Deus vai se encontrar contigo cara a cara."
Amós também afrontava os poderosos sem cerimônia. Chamou as senhoras ricas de Samaria de "vacas de Basã", e não consta que tenha pedido desculpas. E encerrava com o mesmo aviso: "Prepara-te, ó Israel, para te encontrares com o teu Deus."
O grito de Brasília, diz Alan, nasceu de uma palavra recebida em 2022. Naquele ano, o leão dentro dele despertou. O resto, quem conta é o calendário.
Em 4 de outubro, Luiz Inácio da Silva, o Lula, favorito das pesquisas durante meses, terminou o primeiro turno em segundo lugar, com 45% contra 47% de Flávio Bolsonaro. Das 54 cadeiras em disputa no Senado, o PT do barbudo levou seis. O PL levou dezenove. E os escândalos do governo, como o do INSS e outros tantos, continuam cheirando do lado de fora da cova, por mais que tentem enterrá-los.
Os ministros do Supremo, que até ontem se comportavam como donos absolutos da verdade, acordaram com um Senado que, a partir de 2027, terá 49 de seus 81 senadores alinhados à direita. É a maioria que pode abrir processo de impeachment contra eles. Robespierre também mandou muita gente para a guilhotina. Em julho de 1794, foi a vez dele.
A grande imprensa nem estava no sermão. Passou quase quatro anos noticiando um golpe que nunca houve e rindo das piadas prontas do barbudo. Agora vai ter de estampar as manchetes que o pregador anunciou.
Amós viu Deus de pé sobre um muro, com um fio de prumo na mão, medindo o que estava torto. Alan Chaves trouxe de volta o prumo de 2.800 anos atrás.
Alan prega até a exaustão e, assim como Amós, não é conhecido pelos bons modos. Profeta educado é coisa rara na Bíblia. Quem faz questão de etiqueta vai ouvir o sacerdote do rei.
Em Betel, mandaram Amós de volta para Judá. Em Jerusalém, mandaram Alan de volta para São Paulo.
Em Brasília, há muita gente sem saber para onde vai.
A crônica de maio, "Dentro daquele homem havia um leão", está no Substack:
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O LEÃO QUE RUGIU EM JUDÁ TAMBÉM RUGIU EM BRASÍLIA 🦁
Em maio, longe de querer profetizar, escrevi no Substack sobre um pastor de ovelhas de Tecoa que carregava um leão dentro do peito. Achei que o assunto estava encerrado. Amós saiu de cena há quase 2.800 anos, e leão de profeta dorme sossegado na cova dos leões, com Daniel.
Mas houve um que pulou. E veste verde e amarelo.
Chama-se Alan Chaves, é de São Paulo e diz pregar na rua há 29 anos. Já gritou o nome de Jesus na Praça da Sé, na Avenida Paulista, na areia de Balneário Camboriú e no meio da Times Square. Não tem templo nem microfone. Tem a Bíblia debaixo do braço, uma garrafa d'água na mão e uma voz que deixa no chinelo o carro da pamonha.
Em junho de 2024, resolveu pregar no Muro das Lamentações, em Jerusalém. Durou pouco. Os fiéis ergueram a Torá na frente da Bíblia dele, e as crianças, cantando e batendo palmas, foram empurrando o pregador para fora. Muita gente riu. Eu me lembrei de Betel.
Foi lá, no santuário do rei de Israel, que Amós fez a mesma coisa, por volta de 760 antes de Cristo. Tinha saído de Judá para anunciar o juízo. O sacerdote Amasias, homem do palácio, mandou que ele fosse comer o seu pão em outra freguesia. Ali, não. Ali era a casa do rei. Amós não discutiu credencial. Disse que não era profeta nem filho de profeta, apenas um boiadeiro que colhia sicômoros. E continuou falando.
A cena que me fez esquecer o café na xícara, porém, é outra. Alan está na Praça dos Três Poderes, em Brasília. O sol bate no blazer bege. De um lado fica o Supremo, do outro, o Palácio do Planalto. Ele não diz nomes, nem precisa. Aponta o dedo, chama o poder de carne podre, avisa que as manchetes de jornais vão estampar a vergonha de alguns que despacham ali e fecha com uma frase que todo leitor de Amós conhece: "Deus vai se encontrar contigo cara a cara."
Amós também afrontava os poderosos sem cerimônia. Chamou as senhoras ricas de Samaria de "vacas de Basã", e não consta que tenha pedido desculpas. E encerrava com o mesmo aviso: "Prepara-te, ó Israel, para te encontrares com o teu Deus."
O grito de Brasília, diz Alan, nasceu de uma palavra recebida em 2022. Naquele ano, o leão dentro dele despertou. O resto, quem conta é o calendário.
Em 4 de outubro, Luiz Inácio da Silva, o Lula, favorito das pesquisas durante meses, terminou o primeiro turno em segundo lugar, com 45% contra 47% de Flávio Bolsonaro. Das 54 cadeiras em disputa no Senado, o PT do barbudo levou seis. O PL levou dezenove. E os escândalos do governo, como o do INSS e outros tantos, continuam cheirando do lado de fora da cova, por mais que tentem enterrá-los.
Os ministros do Supremo, que até ontem se comportavam como donos absolutos da verdade, acordaram com um Senado que, a partir de 2027, terá 49 de seus 81 senadores alinhados à direita. É a maioria que pode abrir processo de impeachment contra eles. Robespierre também mandou muita gente para a guilhotina. Em julho de 1794, foi a vez dele.
A grande imprensa nem estava no sermão. Passou quase quatro anos noticiando um golpe que nunca houve e rindo das piadas prontas do barbudo. Agora vai ter de estampar as manchetes que o pregador anunciou.
Amós viu Deus de pé sobre um muro, com um fio de prumo na mão, medindo o que estava torto. Alan Chaves trouxe de volta o prumo de 2.800 anos atrás.
Alan prega até a exaustão e, assim como Amós, não é conhecido pelos bons modos. Profeta educado é coisa rara na Bíblia. Quem faz questão de etiqueta vai ouvir o sacerdote do rei.
Em Betel, mandaram Amós de volta para Judá. Em Jerusalém, mandaram Alan de volta para São Paulo.
Em Brasília, há muita gente sem saber para onde vai.
A crônica de maio, "Dentro daquele homem havia um leão", está no Substack:
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O LEÃO QUE RUGIU EM JUDÁ TAMBÉM RUGIU EM BRASÍLIA 🦁
Em maio, longe de querer profetizar, escrevi no Substack sobre um pastor de ovelhas de Tecoa que carregava um leão dentro do peito. Achei que o assunto estava encerrado. Amós saiu de cena há quase 2.800 anos, e leão de profeta dorme sossegado na cova dos leões, com Daniel.
Mas houve um que pulou. E veste verde e amarelo.
Chama-se Alan Chaves, é de São Paulo e diz pregar na rua há 29 anos. Já gritou o nome de Jesus na Praça da Sé, na Avenida Paulista, na areia de Balneário Camboriú e no meio da Times Square. Não tem templo nem microfone. Tem a Bíblia debaixo do braço, uma garrafa d'água na mão e uma voz que deixa no chinelo o carro da pamonha.
Em junho de 2024, resolveu pregar no Muro das Lamentações, em Jerusalém. Durou pouco. Os fiéis ergueram a Torá na frente da Bíblia dele, e as crianças, cantando e batendo palmas, foram empurrando o pregador para fora. Muita gente riu. Eu me lembrei de Betel.
Foi lá, no santuário do rei de Israel, que Amós fez a mesma coisa, por volta de 760 antes de Cristo. Tinha saído de Judá para anunciar o juízo. O sacerdote Amasias, homem do palácio, mandou que ele fosse comer o seu pão em outra freguesia. Ali, não. Ali era a casa do rei. Amós não discutiu credencial. Disse que não era profeta nem filho de profeta, apenas um boiadeiro que colhia sicômoros. E continuou falando.
A cena que me fez esquecer o café na xícara, porém, é outra. Alan está na Praça dos Três Poderes, em Brasília. O sol bate no blazer bege. De um lado fica o Supremo, do outro, o Palácio do Planalto. Ele não diz nomes, nem precisa. Aponta o dedo, chama o poder de carne podre, avisa que as manchetes de jornais vão estampar a vergonha de alguns que despacham ali e fecha com uma frase que todo leitor de Amós conhece: "Deus vai se encontrar contigo cara a cara."
Amós também afrontava os poderosos sem cerimônia. Chamou as senhoras ricas de Samaria de "vacas de Basã", e não consta que tenha pedido desculpas. E encerrava com o mesmo aviso: "Prepara-te, ó Israel, para te encontrares com o teu Deus."
O grito de Brasília, diz Alan, nasceu de uma palavra recebida em 2022. Naquele ano, o leão dentro dele despertou. O resto, quem conta é o calendário.
Em 4 de outubro, Luiz Inácio da Silva, o Lula, favorito das pesquisas durante meses, terminou o primeiro turno em segundo lugar, com 45% contra 47% de Flávio Bolsonaro. Das 54 cadeiras em disputa no Senado, o PT do barbudo levou seis. O PL levou dezenove. E os escândalos do governo, como o do INSS e outros tantos, continuam cheirando do lado de fora da cova, por mais que tentem enterrá-los.
Os ministros do Supremo, que até ontem se comportavam como donos absolutos da verdade, acordaram com um Senado que, a partir de 2027, terá 49 de seus 81 senadores alinhados à direita. É a maioria que pode abrir processo de impeachment contra eles. Robespierre também mandou muita gente para a guilhotina. Em julho de 1794, foi a vez dele.
A grande imprensa nem estava no sermão. Passou quase quatro anos noticiando um golpe que nunca houve e rindo das piadas prontas do barbudo. Agora vai ter de estampar as manchetes que o pregador anunciou.
Amós viu Deus de pé sobre um muro, com um fio de prumo na mão, medindo o que estava torto. Alan Chaves trouxe de volta o prumo de 2.800 anos atrás.
Alan prega até a exaustão e, assim como Amós, não é conhecido pelos bons modos. Profeta educado é coisa rara na Bíblia. Quem faz questão de etiqueta vai ouvir o sacerdote do rei.
Em Betel, mandaram Amós de volta para Judá. Em Jerusalém, mandaram Alan de volta para São Paulo.
Em Brasília, há muita gente sem saber para onde vai.
A crônica de maio, "Dentro daquele homem havia um leão", está no Substack:
https://t.co/2PpJgNY6Qn
"CARNE PODRE!"
O LEÃO QUE RUGIU EM JUDÁ TAMBÉM RUGIU EM BRASÍLIA 🦁
Em maio, longe de querer profetizar, escrevi no Substack sobre um pastor de ovelhas de Tecoa que carregava um leão dentro do peito. Achei que o assunto estava encerrado. Amós saiu de cena há quase 2.800 anos, e leão de profeta dorme sossegado na cova dos leões, com Daniel.
Mas houve um que pulou. E veste verde e amarelo.
Chama-se Alan Chaves, é de São Paulo e diz pregar na rua há 29 anos. Já gritou o nome de Jesus na Praça da Sé, na Avenida Paulista, na areia de Balneário Camboriú e no meio da Times Square. Não tem templo nem microfone. Tem a Bíblia debaixo do braço, uma garrafa d'água na mão e uma voz que deixa no chinelo o carro da pamonha.
Em junho de 2024, resolveu pregar no Muro das Lamentações, em Jerusalém. Durou pouco. Os fiéis ergueram a Torá na frente da Bíblia dele, e as crianças, cantando e batendo palmas, foram empurrando o pregador para fora. Muita gente riu. Eu me lembrei de Betel.
Foi lá, no santuário do rei de Israel, que Amós fez a mesma coisa, por volta de 760 antes de Cristo. Tinha saído de Judá para anunciar o juízo. O sacerdote Amasias, homem do palácio, mandou que ele fosse comer o seu pão em outra freguesia. Ali, não. Ali era a casa do rei. Amós não discutiu credencial. Disse que não era profeta nem filho de profeta, apenas um boiadeiro que colhia sicômoros. E continuou falando.
A cena que me fez esquecer o café na xícara, porém, é outra. Alan está na Praça dos Três Poderes, em Brasília. O sol bate no blazer bege. De um lado fica o Supremo, do outro, o Palácio do Planalto. Ele não diz nomes, nem precisa. Aponta o dedo, chama o poder de carne podre, avisa que as manchetes de jornais vão estampar a vergonha de alguns que despacham ali e fecha com uma frase que todo leitor de Amós conhece: "Deus vai se encontrar contigo cara a cara."
Amós também afrontava os poderosos sem cerimônia. Chamou as senhoras ricas de Samaria de "vacas de Basã", e não consta que tenha pedido desculpas. E encerrava com o mesmo aviso: "Prepara-te, ó Israel, para te encontrares com o teu Deus."
O grito de Brasília, diz Alan, nasceu de uma palavra recebida em 2022. Naquele ano, o leão dentro dele despertou. O resto, quem conta é o calendário.
Em 4 de outubro, Luiz Inácio da Silva, o Lula, favorito das pesquisas durante meses, terminou o primeiro turno em segundo lugar, com 45% contra 47% de Flávio Bolsonaro. Das 54 cadeiras em disputa no Senado, o PT do barbudo levou seis. O PL levou dezenove. E os escândalos do governo, como o do INSS e outros tantos, continuam cheirando do lado de fora da cova, por mais que tentem enterrá-los.
Os ministros do Supremo, que até ontem se comportavam como donos absolutos da verdade, acordaram com um Senado que, a partir de 2027, terá 49 de seus 81 senadores alinhados à direita. É a maioria que pode abrir processo de impeachment contra eles. Robespierre também mandou muita gente para a guilhotina. Em julho de 1794, foi a vez dele.
A grande imprensa nem estava no sermão. Passou quase quatro anos noticiando um golpe que nunca houve e rindo das piadas prontas do barbudo. Agora vai ter de estampar as manchetes que o pregador anunciou.
Amós viu Deus de pé sobre um muro, com um fio de prumo na mão, medindo o que estava torto. Alan Chaves trouxe de volta o prumo de 2.800 anos atrás.
Alan prega até a exaustão e, assim como Amós, não é conhecido pelos bons modos. Profeta educado é coisa rara na Bíblia. Quem faz questão de etiqueta vai ouvir o sacerdote do rei.
Em Betel, mandaram Amós de volta para Judá. Em Jerusalém, mandaram Alan de volta para São Paulo.
Em Brasília, há muita gente sem saber para onde vai.
A crônica de maio, "Dentro daquele homem havia um leão", está no Substack:
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O LEÃO QUE RUGIU EM JUDÁ TAMBÉM RUGIU EM BRASÍLIA 🦁
Em maio, longe de querer profetizar, escrevi no Substack sobre um pastor de ovelhas de Tecoa que carregava um leão dentro do peito. Achei que o assunto estava encerrado. Amós saiu de cena há quase 2.800 anos, e leão de profeta dorme sossegado na cova dos leões, com Daniel.
Mas houve um que pulou. E veste verde e amarelo.
Chama-se Alan Chaves, é de São Paulo e diz pregar na rua há 29 anos. Já gritou o nome de Jesus na Praça da Sé, na Avenida Paulista, na areia de Balneário Camboriú e no meio da Times Square. Não tem templo nem microfone. Tem a Bíblia debaixo do braço, uma garrafa d'água na mão e uma voz que deixa no chinelo o carro da pamonha.
Em junho de 2024, resolveu pregar no Muro das Lamentações, em Jerusalém. Durou pouco. Os fiéis ergueram a Torá na frente da Bíblia dele, e as crianças, cantando e batendo palmas, foram empurrando o pregador para fora. Muita gente riu. Eu me lembrei de Betel.
Foi lá, no santuário do rei de Israel, que Amós fez a mesma coisa, por volta de 760 antes de Cristo. Tinha saído de Judá para anunciar o juízo. O sacerdote Amasias, homem do palácio, mandou que ele fosse comer o seu pão em outra freguesia. Ali, não. Ali era a casa do rei. Amós não discutiu credencial. Disse que não era profeta nem filho de profeta, apenas um boiadeiro que colhia sicômoros. E continuou falando.
A cena que me fez esquecer o café na xícara, porém, é outra. Alan está na Praça dos Três Poderes, em Brasília. O sol bate no blazer bege. De um lado fica o Supremo, do outro, o Palácio do Planalto. Ele não diz nomes, nem precisa. Aponta o dedo, chama o poder de carne podre, avisa que as manchetes de jornais vão estampar a vergonha de alguns que despacham ali e fecha com uma frase que todo leitor de Amós conhece: "Deus vai se encontrar contigo cara a cara."
Amós também afrontava os poderosos sem cerimônia. Chamou as senhoras ricas de Samaria de "vacas de Basã", e não consta que tenha pedido desculpas. E encerrava com o mesmo aviso: "Prepara-te, ó Israel, para te encontrares com o teu Deus."
O grito de Brasília, diz Alan, nasceu de uma palavra recebida em 2022. Naquele ano, o leão dentro dele despertou. O resto, quem conta é o calendário.
Em 4 de outubro, Luiz Inácio da Silva, o Lula, favorito das pesquisas durante meses, terminou o primeiro turno em segundo lugar, com 45% contra 47% de Flávio Bolsonaro. Das 54 cadeiras em disputa no Senado, o PT do barbudo levou seis. O PL levou dezenove. E os escândalos do governo, como o do INSS e outros tantos, continuam cheirando do lado de fora da cova, por mais que tentem enterrá-los.
Os ministros do Supremo, que até ontem se comportavam como donos absolutos da verdade, acordaram com um Senado que, a partir de 2027, terá 49 de seus 81 senadores alinhados à direita. É a maioria que pode abrir processo de impeachment contra eles. Robespierre também mandou muita gente para a guilhotina. Em julho de 1794, foi a vez dele.
A grande imprensa nem estava no sermão. Passou quase quatro anos noticiando um golpe que nunca houve e rindo das piadas prontas do barbudo. Agora vai ter de estampar as manchetes que o pregador anunciou.
Amós viu Deus de pé sobre um muro, com um fio de prumo na mão, medindo o que estava torto. Alan Chaves trouxe de volta o prumo de 2.800 anos atrás.
Alan prega até a exaustão e, assim como Amós, não é conhecido pelos bons modos. Profeta educado é coisa rara na Bíblia. Quem faz questão de etiqueta vai ouvir o sacerdote do rei.
Em Betel, mandaram Amós de volta para Judá. Em Jerusalém, mandaram Alan de volta para São Paulo.
Em Brasília, há muita gente sem saber para onde vai.
A crônica de maio, "Dentro daquele homem havia um leão", está no Substack:
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O LEÃO QUE RUGIU EM JUDÁ TAMBÉM RUGIU EM BRASÍLIA 🦁
Em maio, longe de querer profetizar, escrevi no Substack sobre um pastor de ovelhas de Tecoa que carregava um leão dentro do peito. Achei que o assunto estava encerrado. Amós saiu de cena há quase 2.800 anos, e leão de profeta dorme sossegado na cova dos leões, com Daniel.
Mas houve um que pulou. E veste verde e amarelo.
Chama-se Alan Chaves, é de São Paulo e diz pregar na rua há 29 anos. Já gritou o nome de Jesus na Praça da Sé, na Avenida Paulista, na areia de Balneário Camboriú e no meio da Times Square. Não tem templo nem microfone. Tem a Bíblia debaixo do braço, uma garrafa d'água na mão e uma voz que deixa no chinelo o carro da pamonha.
Em junho de 2024, resolveu pregar no Muro das Lamentações, em Jerusalém. Durou pouco. Os fiéis ergueram a Torá na frente da Bíblia dele, e as crianças, cantando e batendo palmas, foram empurrando o pregador para fora. Muita gente riu. Eu me lembrei de Betel.
Foi lá, no santuário do rei de Israel, que Amós fez a mesma coisa, por volta de 760 antes de Cristo. Tinha saído de Judá para anunciar o juízo. O sacerdote Amasias, homem do palácio, mandou que ele fosse comer o seu pão em outra freguesia. Ali, não. Ali era a casa do rei. Amós não discutiu credencial. Disse que não era profeta nem filho de profeta, apenas um boiadeiro que colhia sicômoros. E continuou falando.
A cena que me fez esquecer o café na xícara, porém, é outra. Alan está na Praça dos Três Poderes, em Brasília. O sol bate no blazer bege. De um lado fica o Supremo, do outro, o Palácio do Planalto. Ele não diz nomes, nem precisa. Aponta o dedo, chama o poder de carne podre, avisa que as manchetes de jornais vão estampar a vergonha de alguns que despacham ali e fecha com uma frase que todo leitor de Amós conhece: "Deus vai se encontrar contigo cara a cara."
Amós também afrontava os poderosos sem cerimônia. Chamou as senhoras ricas de Samaria de "vacas de Basã", e não consta que tenha pedido desculpas. E encerrava com o mesmo aviso: "Prepara-te, ó Israel, para te encontrares com o teu Deus."
O grito de Brasília, diz Alan, nasceu de uma palavra recebida em 2022. Naquele ano, o leão dentro dele despertou. O resto, quem conta é o calendário.
Em 4 de outubro, Luiz Inácio da Silva, o Lula, favorito das pesquisas durante meses, terminou o primeiro turno em segundo lugar, com 45% contra 47% de Flávio Bolsonaro. Das 54 cadeiras em disputa no Senado, o PT do barbudo levou seis. O PL levou dezenove. E os escândalos do governo, como o do INSS e outros tantos, continuam cheirando do lado de fora da cova, por mais que tentem enterrá-los.
Os ministros do Supremo, que até ontem se comportavam como donos absolutos da verdade, acordaram com um Senado que, a partir de 2027, terá 49 de seus 81 senadores alinhados à direita. É a maioria que pode abrir processo de impeachment contra eles. Robespierre também mandou muita gente para a guilhotina. Em julho de 1794, foi a vez dele.
A grande imprensa nem estava no sermão. Passou quase quatro anos noticiando um golpe que nunca houve e rindo das piadas prontas do barbudo. Agora vai ter de estampar as manchetes que o pregador anunciou.
Amós viu Deus de pé sobre um muro, com um fio de prumo na mão, medindo o que estava torto. Alan Chaves trouxe de volta o prumo de 2.800 anos atrás.
Alan prega até a exaustão e, assim como Amós, não é conhecido pelos bons modos. Profeta educado é coisa rara na Bíblia. Quem faz questão de etiqueta vai ouvir o sacerdote do rei.
Em Betel, mandaram Amós de volta para Judá. Em Jerusalém, mandaram Alan de volta para São Paulo.
Em Brasília, há muita gente sem saber para onde vai.
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Em maio, longe de querer profetizar, escrevi no Substack sobre um pastor de ovelhas de Tecoa que carregava um leão dentro do peito. Achei que o assunto estava encerrado. Amós saiu de cena há quase 2.800 anos, e leão de profeta dorme sossegado na cova dos leões, com Daniel.
Mas houve um que pulou. E veste verde e amarelo.
Chama-se Alan Chaves, é de São Paulo e diz pregar na rua há 29 anos. Já gritou o nome de Jesus na Praça da Sé, na Avenida Paulista, na areia de Balneário Camboriú e no meio da Times Square. Não tem templo nem microfone. Tem a Bíblia debaixo do braço, uma garrafa d'água na mão e uma voz que deixa no chinelo o carro da pamonha.
Em junho de 2024, resolveu pregar no Muro das Lamentações, em Jerusalém. Durou pouco. Os fiéis ergueram a Torá na frente da Bíblia dele, e as crianças, cantando e batendo palmas, foram empurrando o pregador para fora. Muita gente riu. Eu me lembrei de Betel.
Foi lá, no santuário do rei de Israel, que Amós fez a mesma coisa, por volta de 760 antes de Cristo. Tinha saído de Judá para anunciar o juízo. O sacerdote Amasias, homem do palácio, mandou que ele fosse comer o seu pão em outra freguesia. Ali, não. Ali era a casa do rei. Amós não discutiu credencial. Disse que não era profeta nem filho de profeta, apenas um boiadeiro que colhia sicômoros. E continuou falando.
A cena que me fez esquecer o café na xícara, porém, é outra. Alan está na Praça dos Três Poderes, em Brasília. O sol bate no blazer bege. De um lado fica o Supremo, do outro, o Palácio do Planalto. Ele não diz nomes, nem precisa. Aponta o dedo, chama o poder de carne podre, avisa que as manchetes de jornais vão estampar a vergonha de alguns que despacham ali e fecha com uma frase que todo leitor de Amós conhece: "Deus vai se encontrar contigo cara a cara."
Amós também afrontava os poderosos sem cerimônia. Chamou as senhoras ricas de Samaria de "vacas de Basã", e não consta que tenha pedido desculpas. E encerrava com o mesmo aviso: "Prepara-te, ó Israel, para te encontrares com o teu Deus."
O grito de Brasília, diz Alan, nasceu de uma palavra recebida em 2022. Naquele ano, o leão dentro dele despertou. O resto, quem conta é o calendário.
Em 4 de outubro, Luiz Inácio da Silva, o Lula, favorito das pesquisas durante meses, terminou o primeiro turno em segundo lugar, com 45% contra 47% de Flávio Bolsonaro. Das 54 cadeiras em disputa no Senado, o PT do barbudo levou seis. O PL levou dezenove. E os escândalos do governo, como o do INSS e outros tantos, continuam cheirando do lado de fora da cova, por mais que tentem enterrá-los.
Os ministros do Supremo, que até ontem se comportavam como donos absolutos da verdade, acordaram com um Senado que, a partir de 2027, terá 49 de seus 81 senadores alinhados à direita. É a maioria que pode abrir processo de impeachment contra eles. Robespierre também mandou muita gente para a guilhotina. Em julho de 1794, foi a vez dele.
A grande imprensa nem estava no sermão. Passou quase quatro anos noticiando um golpe que nunca houve e rindo das piadas prontas do barbudo. Agora vai ter de estampar as manchetes que o pregador anunciou.
Amós viu Deus de pé sobre um muro, com um fio de prumo na mão, medindo o que estava torto. Alan Chaves trouxe de volta o prumo de 2.800 anos atrás.
Alan prega até a exaustão e, assim como Amós, não é conhecido pelos bons modos. Profeta educado é coisa rara na Bíblia. Quem faz questão de etiqueta vai ouvir o sacerdote do rei.
Em Betel, mandaram Amós de volta para Judá. Em Jerusalém, mandaram Alan de volta para São Paulo.
Em Brasília, há muita gente sem saber para onde vai.
A crônica de maio, "Dentro daquele homem havia um leão", está no Substack:
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O LEÃO QUE RUGIU EM JUDÁ TAMBÉM RUGIU EM BRASÍLIA 🦁
Em maio, longe de querer profetizar, escrevi no Substack sobre um pastor de ovelhas de Tecoa que carregava um leão dentro do peito. Achei que o assunto estava encerrado. Amós saiu de cena há quase 2.800 anos, e leão de profeta dorme sossegado na cova dos leões, com Daniel.
Mas houve um que pulou. E veste verde e amarelo.
Chama-se Alan Chaves, é de São Paulo e diz pregar na rua há 29 anos. Já gritou o nome de Jesus na Praça da Sé, na Avenida Paulista, na areia de Balneário Camboriú e no meio da Times Square. Não tem templo nem microfone. Tem a Bíblia debaixo do braço, uma garrafa d'água na mão e uma voz que deixa no chinelo o carro da pamonha.
Em junho de 2024, resolveu pregar no Muro das Lamentações, em Jerusalém. Durou pouco. Os fiéis ergueram a Torá na frente da Bíblia dele, e as crianças, cantando e batendo palmas, foram empurrando o pregador para fora. Muita gente riu. Eu me lembrei de Betel.
Foi lá, no santuário do rei de Israel, que Amós fez a mesma coisa, por volta de 760 antes de Cristo. Tinha saído de Judá para anunciar o juízo. O sacerdote Amasias, homem do palácio, mandou que ele fosse comer o seu pão em outra freguesia. Ali, não. Ali era a casa do rei. Amós não discutiu credencial. Disse que não era profeta nem filho de profeta, apenas um boiadeiro que colhia sicômoros. E continuou falando.
A cena que me fez esquecer o café na xícara, porém, é outra. Alan está na Praça dos Três Poderes, em Brasília. O sol bate no blazer bege. De um lado fica o Supremo, do outro, o Palácio do Planalto. Ele não diz nomes, nem precisa. Aponta o dedo, chama o poder de carne podre, avisa que as manchetes de jornais vão estampar a vergonha de alguns que despacham ali e fecha com uma frase que todo leitor de Amós conhece: "Deus vai se encontrar contigo cara a cara."
Amós também afrontava os poderosos sem cerimônia. Chamou as senhoras ricas de Samaria de "vacas de Basã", e não consta que tenha pedido desculpas. E encerrava com o mesmo aviso: "Prepara-te, ó Israel, para te encontrares com o teu Deus."
O grito de Brasília, diz Alan, nasceu de uma palavra recebida em 2022. Naquele ano, o leão dentro dele despertou. O resto, quem conta é o calendário.
Em 4 de outubro, Luiz Inácio da Silva, o Lula, favorito das pesquisas durante meses, terminou o primeiro turno em segundo lugar, com 45% contra 47% de Flávio Bolsonaro. Das 54 cadeiras em disputa no Senado, o PT do barbudo levou seis. O PL levou dezenove. E os escândalos do governo, como o do INSS e outros tantos, continuam cheirando do lado de fora da cova, por mais que tentem enterrá-los.
Os ministros do Supremo, que até ontem se comportavam como donos absolutos da verdade, acordaram com um Senado que, a partir de 2027, terá 49 de seus 81 senadores alinhados à direita. É a maioria que pode abrir processo de impeachment contra eles. Robespierre também mandou muita gente para a guilhotina. Em julho de 1794, foi a vez dele.
A grande imprensa nem estava no sermão. Passou quase quatro anos noticiando um golpe que nunca houve e rindo das piadas prontas do barbudo. Agora vai ter de estampar as manchetes que o pregador anunciou.
Amós viu Deus de pé sobre um muro, com um fio de prumo na mão, medindo o que estava torto. Alan Chaves trouxe de volta o prumo de 2.800 anos atrás.
Alan prega até a exaustão e, assim como Amós, não é conhecido pelos bons modos. Profeta educado é coisa rara na Bíblia. Quem faz questão de etiqueta vai ouvir o sacerdote do rei.
Em Betel, mandaram Amós de volta para Judá. Em Jerusalém, mandaram Alan de volta para São Paulo.
Em Brasília, há muita gente sem saber para onde vai.
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Em maio, longe de querer profetizar, escrevi no Substack sobre um pastor de ovelhas de Tecoa que carregava um leão dentro do peito. Achei que o assunto estava encerrado. Amós saiu de cena há quase 2.800 anos, e leão de profeta dorme sossegado na cova dos leões, com Daniel.
Mas houve um que pulou. E veste verde e amarelo.
Chama-se Alan Chaves, é de São Paulo e diz pregar na rua há 29 anos. Já gritou o nome de Jesus na Praça da Sé, na Avenida Paulista, na areia de Balneário Camboriú e no meio da Times Square. Não tem templo nem microfone. Tem a Bíblia debaixo do braço, uma garrafa d'água na mão e uma voz que deixa no chinelo o carro da pamonha.
Em junho de 2024, resolveu pregar no Muro das Lamentações, em Jerusalém. Durou pouco. Os fiéis ergueram a Torá na frente da Bíblia dele, e as crianças, cantando e batendo palmas, foram empurrando o pregador para fora. Muita gente riu. Eu me lembrei de Betel.
Foi lá, no santuário do rei de Israel, que Amós fez a mesma coisa, por volta de 760 antes de Cristo. Tinha saído de Judá para anunciar o juízo. O sacerdote Amasias, homem do palácio, mandou que ele fosse comer o seu pão em outra freguesia. Ali, não. Ali era a casa do rei. Amós não discutiu credencial. Disse que não era profeta nem filho de profeta, apenas um boiadeiro que colhia sicômoros. E continuou falando.
A cena que me fez esquecer o café na xícara, porém, é outra. Alan está na Praça dos Três Poderes, em Brasília. O sol bate no blazer bege. De um lado fica o Supremo, do outro, o Palácio do Planalto. Ele não diz nomes, nem precisa. Aponta o dedo, chama o poder de carne podre, avisa que as manchetes de jornais vão estampar a vergonha de alguns que despacham ali e fecha com uma frase que todo leitor de Amós conhece: "Deus vai se encontrar contigo cara a cara."
Amós também afrontava os poderosos sem cerimônia. Chamou as senhoras ricas de Samaria de "vacas de Basã", e não consta que tenha pedido desculpas. E encerrava com o mesmo aviso: "Prepara-te, ó Israel, para te encontrares com o teu Deus."
O grito de Brasília, diz Alan, nasceu de uma palavra recebida em 2022. Naquele ano, o leão dentro dele despertou. O resto, quem conta é o calendário.
Em 4 de outubro, Luiz Inácio da Silva, o Lula, favorito das pesquisas durante meses, terminou o primeiro turno em segundo lugar, com 45% contra 47% de Flávio Bolsonaro. Das 54 cadeiras em disputa no Senado, o PT do barbudo levou seis. O PL levou dezenove. E os escândalos do governo, como o do INSS e outros tantos, continuam cheirando do lado de fora da cova, por mais que tentem enterrá-los.
Os ministros do Supremo, que até ontem se comportavam como donos absolutos da verdade, acordaram com um Senado que, a partir de 2027, terá 49 de seus 81 senadores alinhados à direita. É a maioria que pode abrir processo de impeachment contra eles. Robespierre também mandou muita gente para a guilhotina. Em julho de 1794, foi a vez dele.
A grande imprensa nem estava no sermão. Passou quase quatro anos noticiando um golpe que nunca houve e rindo das piadas prontas do barbudo. Agora vai ter de estampar as manchetes que o pregador anunciou.
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Em junho de 2024, resolveu pregar no Muro das Lamentações, em Jerusalém. Durou pouco. Os fiéis ergueram a Torá na frente da Bíblia dele, e as crianças, cantando e batendo palmas, foram empurrando o pregador para fora. Muita gente riu. Eu me lembrei de Betel.
Foi lá, no santuário do rei de Israel, que Amós fez a mesma coisa, por volta de 760 antes de Cristo. Tinha saído de Judá para anunciar o juízo. O sacerdote Amasias, homem do palácio, mandou que ele fosse comer o seu pão em outra freguesia. Ali, não. Ali era a casa do rei. Amós não discutiu credencial. Disse que não era profeta nem filho de profeta, apenas um boiadeiro que colhia sicômoros. E continuou falando.
A cena que me fez esquecer o café na xícara, porém, é outra. Alan está na Praça dos Três Poderes, em Brasília. O sol bate no blazer bege. De um lado fica o Supremo, do outro, o Palácio do Planalto. Ele não diz nomes, nem precisa. Aponta o dedo, chama o poder de carne podre, avisa que as manchetes de jornais vão estampar a vergonha de alguns que despacham ali e fecha com uma frase que todo leitor de Amós conhece: "Deus vai se encontrar contigo cara a cara."
Amós também afrontava os poderosos sem cerimônia. Chamou as senhoras ricas de Samaria de "vacas de Basã", e não consta que tenha pedido desculpas. E encerrava com o mesmo aviso: "Prepara-te, ó Israel, para te encontrares com o teu Deus."
O grito de Brasília, diz Alan, nasceu de uma palavra recebida em 2022. Naquele ano, o leão dentro dele despertou. O resto, quem conta é o calendário.
Em 4 de outubro, Luiz Inácio da Silva, o Lula, favorito das pesquisas durante meses, terminou o primeiro turno em segundo lugar, com 45% contra 47% de Flávio Bolsonaro. Das 54 cadeiras em disputa no Senado, o PT do barbudo levou seis. O PL levou dezenove. E os escândalos do governo, como o do INSS e outros tantos, continuam cheirando do lado de fora da cova, por mais que tentem enterrá-los.
Os ministros do Supremo, que até ontem se comportavam como donos absolutos da verdade, acordaram com um Senado que, a partir de 2027, terá 49 de seus 81 senadores alinhados à direita. É a maioria que pode abrir processo de impeachment contra eles. Robespierre também mandou muita gente para a guilhotina. Em julho de 1794, foi a vez dele.
A grande imprensa nem estava no sermão. Passou quase quatro anos noticiando um golpe que nunca houve e rindo das piadas prontas do barbudo. Agora vai ter de estampar as manchetes que o pregador anunciou.
Amós viu Deus de pé sobre um muro, com um fio de prumo na mão, medindo o que estava torto. Alan Chaves trouxe de volta o prumo de 2.800 anos atrás.
Alan prega até a exaustão e, assim como Amós, não é conhecido pelos bons modos. Profeta educado é coisa rara na Bíblia. Quem faz questão de etiqueta vai ouvir o sacerdote do rei.
Em Betel, mandaram Amós de volta para Judá. Em Jerusalém, mandaram Alan de volta para São Paulo.
Em Brasília, há muita gente sem saber para onde vai.
A crônica de maio, "Dentro daquele homem havia um leão", está no Substack:
https://t.co/2PpJgNY6Qn
"CARNE PODRE!"
O LEÃO QUE RUGIU EM JUDÁ TAMBÉM RUGIU EM BRASÍLIA 🦁
Em maio, longe de querer profetizar, escrevi no Substack sobre um pastor de ovelhas de Tecoa que carregava um leão dentro do peito. Achei que o assunto estava encerrado. Amós saiu de cena há quase 2.800 anos, e leão de profeta dorme sossegado na cova dos leões, com Daniel.
Mas houve um que pulou. E veste verde e amarelo.
Chama-se Alan Chaves, é de São Paulo e diz pregar na rua há 29 anos. Já gritou o nome de Jesus na Praça da Sé, na Avenida Paulista, na areia de Balneário Camboriú e no meio da Times Square. Não tem templo nem microfone. Tem a Bíblia debaixo do braço, uma garrafa d'água na mão e uma voz que deixa no chinelo o carro da pamonha.
Em junho de 2024, resolveu pregar no Muro das Lamentações, em Jerusalém. Durou pouco. Os fiéis ergueram a Torá na frente da Bíblia dele, e as crianças, cantando e batendo palmas, foram empurrando o pregador para fora. Muita gente riu. Eu me lembrei de Betel.
Foi lá, no santuário do rei de Israel, que Amós fez a mesma coisa, por volta de 760 antes de Cristo. Tinha saído de Judá para anunciar o juízo. O sacerdote Amasias, homem do palácio, mandou que ele fosse comer o seu pão em outra freguesia. Ali, não. Ali era a casa do rei. Amós não discutiu credencial. Disse que não era profeta nem filho de profeta, apenas um boiadeiro que colhia sicômoros. E continuou falando.
A cena que me fez esquecer o café na xícara, porém, é outra. Alan está na Praça dos Três Poderes, em Brasília. O sol bate no blazer bege. De um lado fica o Supremo, do outro, o Palácio do Planalto. Ele não diz nomes, nem precisa. Aponta o dedo, chama o poder de carne podre, avisa que as manchetes de jornais vão estampar a vergonha de alguns que despacham ali e fecha com uma frase que todo leitor de Amós conhece: "Deus vai se encontrar contigo cara a cara."
Amós também afrontava os poderosos sem cerimônia. Chamou as senhoras ricas de Samaria de "vacas de Basã", e não consta que tenha pedido desculpas. E encerrava com o mesmo aviso: "Prepara-te, ó Israel, para te encontrares com o teu Deus."
O grito de Brasília, diz Alan, nasceu de uma palavra recebida em 2022. Naquele ano, o leão dentro dele despertou. O resto, quem conta é o calendário.
Em 4 de outubro, Luiz Inácio da Silva, o Lula, favorito das pesquisas durante meses, terminou o primeiro turno em segundo lugar, com 45% contra 47% de Flávio Bolsonaro. Das 54 cadeiras em disputa no Senado, o PT do barbudo levou seis. O PL levou dezenove. E os escândalos do governo, como o do INSS e outros tantos, continuam cheirando do lado de fora da cova, por mais que tentem enterrá-los.
Os ministros do Supremo, que até ontem se comportavam como donos absolutos da verdade, acordaram com um Senado que, a partir de 2027, terá 49 de seus 81 senadores alinhados à direita. É a maioria que pode abrir processo de impeachment contra eles. Robespierre também mandou muita gente para a guilhotina. Em julho de 1794, foi a vez dele.
A grande imprensa nem estava no sermão. Passou quase quatro anos noticiando um golpe que nunca houve e rindo das piadas prontas do barbudo. Agora vai ter de estampar as manchetes que o pregador anunciou.
Amós viu Deus de pé sobre um muro, com um fio de prumo na mão, medindo o que estava torto. Alan Chaves trouxe de volta o prumo de 2.800 anos atrás.
Alan prega até a exaustão e, assim como Amós, não é conhecido pelos bons modos. Profeta educado é coisa rara na Bíblia. Quem faz questão de etiqueta vai ouvir o sacerdote do rei.
Em Betel, mandaram Amós de volta para Judá. Em Jerusalém, mandaram Alan de volta para São Paulo.
Em Brasília, há muita gente sem saber para onde vai.
A crônica de maio, "Dentro daquele homem havia um leão", está no Substack:
https://t.co/2PpJgNY6Qn
"CARNE PODRE!"
O LEÃO QUE RUGIU EM JUDÁ TAMBÉM RUGIU EM BRASÍLIA 🦁
Em maio, longe de querer profetizar, escrevi no Substack sobre um pastor de ovelhas de Tecoa que carregava um leão dentro do peito. Achei que o assunto estava encerrado. Amós saiu de cena há quase 2.800 anos, e leão de profeta dorme sossegado na cova dos leões, com Daniel.
Mas houve um que pulou. E veste verde e amarelo.
Chama-se Alan Chaves, é de São Paulo e diz pregar na rua há 29 anos. Já gritou o nome de Jesus na Praça da Sé, na Avenida Paulista, na areia de Balneário Camboriú e no meio da Times Square. Não tem templo nem microfone. Tem a Bíblia debaixo do braço, uma garrafa d'água na mão e uma voz que deixa no chinelo o carro da pamonha.
Em junho de 2024, resolveu pregar no Muro das Lamentações, em Jerusalém. Durou pouco. Os fiéis ergueram a Torá na frente da Bíblia dele, e as crianças, cantando e batendo palmas, foram empurrando o pregador para fora. Muita gente riu. Eu me lembrei de Betel.
Foi lá, no santuário do rei de Israel, que Amós fez a mesma coisa, por volta de 760 antes de Cristo. Tinha saído de Judá para anunciar o juízo. O sacerdote Amasias, homem do palácio, mandou que ele fosse comer o seu pão em outra freguesia. Ali, não. Ali era a casa do rei. Amós não discutiu credencial. Disse que não era profeta nem filho de profeta, apenas um boiadeiro que colhia sicômoros. E continuou falando.
A cena que me fez esquecer o café na xícara, porém, é outra. Alan está na Praça dos Três Poderes, em Brasília. O sol bate no blazer bege. De um lado fica o Supremo, do outro, o Palácio do Planalto. Ele não diz nomes, nem precisa. Aponta o dedo, chama o poder de carne podre, avisa que as manchetes de jornais vão estampar a vergonha de alguns que despacham ali e fecha com uma frase que todo leitor de Amós conhece: "Deus vai se encontrar contigo cara a cara."
Amós também afrontava os poderosos sem cerimônia. Chamou as senhoras ricas de Samaria de "vacas de Basã", e não consta que tenha pedido desculpas. E encerrava com o mesmo aviso: "Prepara-te, ó Israel, para te encontrares com o teu Deus."
O grito de Brasília, diz Alan, nasceu de uma palavra recebida em 2022. Naquele ano, o leão dentro dele despertou. O resto, quem conta é o calendário.
Em 4 de outubro, Luiz Inácio da Silva, o Lula, favorito das pesquisas durante meses, terminou o primeiro turno em segundo lugar, com 45% contra 47% de Flávio Bolsonaro. Das 54 cadeiras em disputa no Senado, o PT do barbudo levou seis. O PL levou dezenove. E os escândalos do governo, como o do INSS e outros tantos, continuam cheirando do lado de fora da cova, por mais que tentem enterrá-los.
Os ministros do Supremo, que até ontem se comportavam como donos absolutos da verdade, acordaram com um Senado que, a partir de 2027, terá 49 de seus 81 senadores alinhados à direita. É a maioria que pode abrir processo de impeachment contra eles. Robespierre também mandou muita gente para a guilhotina. Em julho de 1794, foi a vez dele.
A grande imprensa nem estava no sermão. Passou quase quatro anos noticiando um golpe que nunca houve e rindo das piadas prontas do barbudo. Agora vai ter de estampar as manchetes que o pregador anunciou.
Amós viu Deus de pé sobre um muro, com um fio de prumo na mão, medindo o que estava torto. Alan Chaves trouxe de volta o prumo de 2.800 anos atrás.
Alan prega até a exaustão e, assim como Amós, não é conhecido pelos bons modos. Profeta educado é coisa rara na Bíblia. Quem faz questão de etiqueta vai ouvir o sacerdote do rei.
Em Betel, mandaram Amós de volta para Judá. Em Jerusalém, mandaram Alan de volta para São Paulo.
Em Brasília, há muita gente sem saber para onde vai.
A crônica de maio, "Dentro daquele homem havia um leão", está no Substack:
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"CARNE PODRE!"
O LEÃO QUE RUGIU EM JUDÁ TAMBÉM RUGIU EM BRASÍLIA 🦁
Em maio, longe de querer profetizar, escrevi no Substack sobre um pastor de ovelhas de Tecoa que carregava um leão dentro do peito. Achei que o assunto estava encerrado. Amós saiu de cena há quase 2.800 anos, e leão de profeta dorme sossegado na cova dos leões, com Daniel.
Mas houve um que pulou. E veste verde e amarelo.
Chama-se Alan Chaves, é de São Paulo e diz pregar na rua há 29 anos. Já gritou o nome de Jesus na Praça da Sé, na Avenida Paulista, na areia de Balneário Camboriú e no meio da Times Square. Não tem templo nem microfone. Tem a Bíblia debaixo do braço, uma garrafa d'água na mão e uma voz que deixa no chinelo o carro da pamonha.
Em junho de 2024, resolveu pregar no Muro das Lamentações, em Jerusalém. Durou pouco. Os fiéis ergueram a Torá na frente da Bíblia dele, e as crianças, cantando e batendo palmas, foram empurrando o pregador para fora. Muita gente riu. Eu me lembrei de Betel.
Foi lá, no santuário do rei de Israel, que Amós fez a mesma coisa, por volta de 760 antes de Cristo. Tinha saído de Judá para anunciar o juízo. O sacerdote Amasias, homem do palácio, mandou que ele fosse comer o seu pão em outra freguesia. Ali, não. Ali era a casa do rei. Amós não discutiu credencial. Disse que não era profeta nem filho de profeta, apenas um boiadeiro que colhia sicômoros. E continuou falando.
A cena que me fez esquecer o café na xícara, porém, é outra. Alan está na Praça dos Três Poderes, em Brasília. O sol bate no blazer bege. De um lado fica o Supremo, do outro, o Palácio do Planalto. Ele não diz nomes, nem precisa. Aponta o dedo, chama o poder de carne podre, avisa que as manchetes de jornais vão estampar a vergonha de alguns que despacham ali e fecha com uma frase que todo leitor de Amós conhece: "Deus vai se encontrar contigo cara a cara."
Amós também afrontava os poderosos sem cerimônia. Chamou as senhoras ricas de Samaria de "vacas de Basã", e não consta que tenha pedido desculpas. E encerrava com o mesmo aviso: "Prepara-te, ó Israel, para te encontrares com o teu Deus."
O grito de Brasília, diz Alan, nasceu de uma palavra recebida em 2022. Naquele ano, o leão dentro dele despertou. O resto, quem conta é o calendário.
Em 4 de outubro, Luiz Inácio da Silva, o Lula, favorito das pesquisas durante meses, terminou o primeiro turno em segundo lugar, com 45% contra 47% de Flávio Bolsonaro. Das 54 cadeiras em disputa no Senado, o PT do barbudo levou seis. O PL levou dezenove. E os escândalos do governo, como o do INSS e outros tantos, continuam cheirando do lado de fora da cova, por mais que tentem enterrá-los.
Os ministros do Supremo, que até ontem se comportavam como donos absolutos da verdade, acordaram com um Senado que, a partir de 2027, terá 49 de seus 81 senadores alinhados à direita. É a maioria que pode abrir processo de impeachment contra eles. Robespierre também mandou muita gente para a guilhotina. Em julho de 1794, foi a vez dele.
A grande imprensa nem estava no sermão. Passou quase quatro anos noticiando um golpe que nunca houve e rindo das piadas prontas do barbudo. Agora vai ter de estampar as manchetes que o pregador anunciou.
Amós viu Deus de pé sobre um muro, com um fio de prumo na mão, medindo o que estava torto. Alan Chaves trouxe de volta o prumo de 2.800 anos atrás.
Alan prega até a exaustão e, assim como Amós, não é conhecido pelos bons modos. Profeta educado é coisa rara na Bíblia. Quem faz questão de etiqueta vai ouvir o sacerdote do rei.
Em Betel, mandaram Amós de volta para Judá. Em Jerusalém, mandaram Alan de volta para São Paulo.
Em Brasília, há muita gente sem saber para onde vai.
A crônica de maio, "Dentro daquele homem havia um leão", está no Substack:
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"CARNE PODRE!"
O LEÃO QUE RUGIU EM JUDÁ TAMBÉM RUGIU EM BRASÍLIA 🦁
Em maio, longe de querer profetizar, escrevi no Substack sobre um pastor de ovelhas de Tecoa que carregava um leão dentro do peito. Achei que o assunto estava encerrado. Amós saiu de cena há quase 2.800 anos, e leão de profeta dorme sossegado na cova dos leões, com Daniel.
Mas houve um que pulou. E veste verde e amarelo.
Chama-se Alan Chaves, é de São Paulo e diz pregar na rua há 29 anos. Já gritou o nome de Jesus na Praça da Sé, na Avenida Paulista, na areia de Balneário Camboriú e no meio da Times Square. Não tem templo nem microfone. Tem a Bíblia debaixo do braço, uma garrafa d'água na mão e uma voz que deixa no chinelo o carro da pamonha.
Em junho de 2024, resolveu pregar no Muro das Lamentações, em Jerusalém. Durou pouco. Os fiéis ergueram a Torá na frente da Bíblia dele, e as crianças, cantando e batendo palmas, foram empurrando o pregador para fora. Muita gente riu. Eu me lembrei de Betel.
Foi lá, no santuário do rei de Israel, que Amós fez a mesma coisa, por volta de 760 antes de Cristo. Tinha saído de Judá para anunciar o juízo. O sacerdote Amasias, homem do palácio, mandou que ele fosse comer o seu pão em outra freguesia. Ali, não. Ali era a casa do rei. Amós não discutiu credencial. Disse que não era profeta nem filho de profeta, apenas um boiadeiro que colhia sicômoros. E continuou falando.
A cena que me fez esquecer o café na xícara, porém, é outra. Alan está na Praça dos Três Poderes, em Brasília. O sol bate no blazer bege. De um lado fica o Supremo, do outro, o Palácio do Planalto. Ele não diz nomes, nem precisa. Aponta o dedo, chama o poder de carne podre, avisa que as manchetes de jornais vão estampar a vergonha de alguns que despacham ali e fecha com uma frase que todo leitor de Amós conhece: "Deus vai se encontrar contigo cara a cara."
Amós também afrontava os poderosos sem cerimônia. Chamou as senhoras ricas de Samaria de "vacas de Basã", e não consta que tenha pedido desculpas. E encerrava com o mesmo aviso: "Prepara-te, ó Israel, para te encontrares com o teu Deus."
O grito de Brasília, diz Alan, nasceu de uma palavra recebida em 2022. Naquele ano, o leão dentro dele despertou. O resto, quem conta é o calendário.
Em 4 de outubro, Luiz Inácio da Silva, o Lula, favorito das pesquisas durante meses, terminou o primeiro turno em segundo lugar, com 45% contra 47% de Flávio Bolsonaro. Das 54 cadeiras em disputa no Senado, o PT do barbudo levou seis. O PL levou dezenove. E os escândalos do governo, como o do INSS e outros tantos, continuam cheirando do lado de fora da cova, por mais que tentem enterrá-los.
Os ministros do Supremo, que até ontem se comportavam como donos absolutos da verdade, acordaram com um Senado que, a partir de 2027, terá 49 de seus 81 senadores alinhados à direita. É a maioria que pode abrir processo de impeachment contra eles. Robespierre também mandou muita gente para a guilhotina. Em julho de 1794, foi a vez dele.
A grande imprensa nem estava no sermão. Passou quase quatro anos noticiando um golpe que nunca houve e rindo das piadas prontas do barbudo. Agora vai ter de estampar as manchetes que o pregador anunciou.
Amós viu Deus de pé sobre um muro, com um fio de prumo na mão, medindo o que estava torto. Alan Chaves trouxe de volta o prumo de 2.800 anos atrás.
Alan prega até a exaustão e, assim como Amós, não é conhecido pelos bons modos. Profeta educado é coisa rara na Bíblia. Quem faz questão de etiqueta vai ouvir o sacerdote do rei.
Em Betel, mandaram Amós de volta para Judá. Em Jerusalém, mandaram Alan de volta para São Paulo.
Em Brasília, há muita gente sem saber para onde vai.
A crônica de maio, "Dentro daquele homem havia um leão", está no Substack:
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O LEÃO QUE RUGIU EM JUDÁ TAMBÉM RUGIU EM BRASÍLIA 🦁
Em maio, longe de querer profetizar, escrevi no Substack sobre um pastor de ovelhas de Tecoa que carregava um leão dentro do peito. Achei que o assunto estava encerrado. Amós saiu de cena há quase 2.800 anos, e leão de profeta dorme sossegado na cova dos leões, com Daniel.
Mas houve um que pulou. E veste verde e amarelo.
Chama-se Alan Chaves, é de São Paulo e diz pregar na rua há 29 anos. Já gritou o nome de Jesus na Praça da Sé, na Avenida Paulista, na areia de Balneário Camboriú e no meio da Times Square. Não tem templo nem microfone. Tem a Bíblia debaixo do braço, uma garrafa d'água na mão e uma voz que deixa no chinelo o carro da pamonha.
Em junho de 2024, resolveu pregar no Muro das Lamentações, em Jerusalém. Durou pouco. Os fiéis ergueram a Torá na frente da Bíblia dele, e as crianças, cantando e batendo palmas, foram empurrando o pregador para fora. Muita gente riu. Eu me lembrei de Betel.
Foi lá, no santuário do rei de Israel, que Amós fez a mesma coisa, por volta de 760 antes de Cristo. Tinha saído de Judá para anunciar o juízo. O sacerdote Amasias, homem do palácio, mandou que ele fosse comer o seu pão em outra freguesia. Ali, não. Ali era a casa do rei. Amós não discutiu credencial. Disse que não era profeta nem filho de profeta, apenas um boiadeiro que colhia sicômoros. E continuou falando.
A cena que me fez esquecer o café na xícara, porém, é outra. Alan está na Praça dos Três Poderes, em Brasília. O sol bate no blazer bege. De um lado fica o Supremo, do outro, o Palácio do Planalto. Ele não diz nomes, nem precisa. Aponta o dedo, chama o poder de carne podre, avisa que as manchetes de jornais vão estampar a vergonha de alguns que despacham ali e fecha com uma frase que todo leitor de Amós conhece: "Deus vai se encontrar contigo cara a cara."
Amós também afrontava os poderosos sem cerimônia. Chamou as senhoras ricas de Samaria de "vacas de Basã", e não consta que tenha pedido desculpas. E encerrava com o mesmo aviso: "Prepara-te, ó Israel, para te encontrares com o teu Deus."
O grito de Brasília, diz Alan, nasceu de uma palavra recebida em 2022. Naquele ano, o leão dentro dele despertou. O resto, quem conta é o calendário.
Em 4 de outubro, Luiz Inácio da Silva, o Lula, favorito das pesquisas durante meses, terminou o primeiro turno em segundo lugar, com 45% contra 47% de Flávio Bolsonaro. Das 54 cadeiras em disputa no Senado, o PT do barbudo levou seis. O PL levou dezenove. E os escândalos do governo, como o do INSS e outros tantos, continuam cheirando do lado de fora da cova, por mais que tentem enterrá-los.
Os ministros do Supremo, que até ontem se comportavam como donos absolutos da verdade, acordaram com um Senado que, a partir de 2027, terá 49 de seus 81 senadores alinhados à direita. É a maioria que pode abrir processo de impeachment contra eles. Robespierre também mandou muita gente para a guilhotina. Em julho de 1794, foi a vez dele.
A grande imprensa nem estava no sermão. Passou quase quatro anos noticiando um golpe que nunca houve e rindo das piadas prontas do barbudo. Agora vai ter de estampar as manchetes que o pregador anunciou.
Amós viu Deus de pé sobre um muro, com um fio de prumo na mão, medindo o que estava torto. Alan Chaves trouxe de volta o prumo de 2.800 anos atrás.
Alan prega até a exaustão e, assim como Amós, não é conhecido pelos bons modos. Profeta educado é coisa rara na Bíblia. Quem faz questão de etiqueta vai ouvir o sacerdote do rei.
Em Betel, mandaram Amós de volta para Judá. Em Jerusalém, mandaram Alan de volta para São Paulo.
Em Brasília, há muita gente sem saber para onde vai.
A crônica de maio, "Dentro daquele homem havia um leão", está no Substack:
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