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Antes de se tornar o "bairro japonês", a Liberdade era uma rota de fuga usada pelos escravizados. A área do bairro pertencia ao chamado Quilombo do Saracura, que era um dos mais importantes de São Paulo. Essa área também acolhia os negros alforriados de SP, que foram expulsos da região do centro histórico.
Era na Liberdade que ficava o pelourinho da cidade e mais tarde o largo da forca. Muito próximo ao largo, ficava o Cemitério dos Aflitos. Esse cemitério, datado do século XVIII, é onde eram enterrados os escravos, os negros livros, os indígenas, os moradores de rua, os enforcados - enfim, todos que eram socialmente excluídos ou vistos como "indesejáveis" - já que as pessoas que tinham posses eram sepultadas nos interiores das igrejas.
A Capela dos Aflitos que a reportagem menciona era a capela desse cemitério. Essa capela também é o centro de devoção de um dos mais importantes santos populares do Brasil. Chaguinhas, um soldado negro que foi executado no Largo da Forca por ter liderado um levante nativista contra o atraso no pagamento de salários, no fim do período colonial.
A Liberdade também foi um dos principais redutos da cultura negra de SP. É lá que surgiu a escola de samba Vai Vai, era lá que sempre estava Madrinha Eunice, fundadora da Lavapés, etc.
O problema é que toda essa história foi apagada. O Cemitério dos Aflitos foi demolido pra permitir a expansão urbana. A capela foi retalhada, abandonada e relegada a um beco escondido. A Vai Vai foi expulsa pra permitir a construção do metrô.
Ao mesmo tempo, na segunda metade do século XX, a Liberdade começou a ser modelado pra se tornar um bairro japonês, com as fachadas decoradas, letreiros em japonês, jardins orientais, portais, lanternas japonesas, etc.
Isso ocorreu inclusive na Rua dos Aflitos, onde ficava o antigo cemitério dos negros. Até mesmo a vista da Capela dos Aflitos era prejudicada pela presença das lanternas japonesas, que são grandes e chamativas.
Então o movimento negro reivindicava que as lanternas na Rua dos Aflitos fossem retiradas, para permitir uma valorização, um resgate da memória das raízes negras do bairro. Essa alteração vai se limitar a essa rua, que é particularmente ligada à história negra da Liberdade, e que é o endereço onde se pretende construir, no futuro, um museu das raízes negras da Liberdade.