O Golden State Warriors não disputava um jogo importante há quase um ano.
Stephen Curry, que sempre foi um gigante em jogos decisivos, não vivia um grande palco desde o Jogo 1 das semifinais de conferência do ano passado, quando saiu lesionado com um problema no posterior da coxa, levando consigo as chances do time.
No jogo de ontem, a falta de ritmo e entrosamento poderia ter sido uma desculpa plausível para uma eventual derrota. Afinal, Curry havia jogado apenas quatro partidas desde 30 de janeiro. Al Horford tinha atuado em apenas dois jogos desde 13 de março. Kristaps Porzingis mal havia jogado ao lado de Curry. Brandin Podziemski e Gui Santos, ambos com 23 anos, não estavam acostumados a papéis centrais em jogos de vida ou morte.
Ainda assim, todos foram protagonistas quando o time mais precisou. Conseguiram arrancar uma vitória fora de casa, contra um time muito forte e um ginásio ensurdecedor.
No momento decisivo da partida, Stephen Curry fez novamente o sinal lendário para Draymond Green, pedindo a jogada entre os dois que devastou a NBA nos últimos 12 anos. Com o jogo empatado a um minuto do fim, Curry pediu um “ghost screen” de Green.
“Ele sabia que ia funcionar e chamou a jogada ali mesmo”, explicou Green, estalando os dedos, como se imitasse o gesto.
“Meu trabalho é só deixá-lo livre e devolver a bola para ele, e ele fez o resto. São 14 anos. Isso não acontece da noite para o dia. É muito teste, muito erro. E, o mais importante, nosso técnico tem total confiança na gente para resolver. Ele nos coloca em ótimas situações para conseguirmos executar.”
E executaram. Mais uma vez.
Green simulou o bloqueio no topo da quadra com um ghost screen, sem contato, e girou para receber o passe por trás das costas. Curry leu instantaneamente, contornou a ação, recebeu o handoff de volta e, com a defesa desorganizada, criou espaço para a bola de três que desempatou o jogo a 50.4 segundos do fim.
E o que falar sobre Draymond Green?
Após o pedido de tempo dos Clippers, Green leu a reposição lateral e interceptou o passe que iria para Kawhi Leonard. Na posse seguinte, já com os Warriors seis pontos à frente após a jogada de três pontos de Podziemski, Green ainda conseguiu desarmar Leonard enquanto ele driblava.
Absolutamente clutch na defesa. Mentalidade campeã, até mesmo em uma temporada frustrante.
Partidas, atuações e vitórias como essa explicam por que Curry, Green e o técnico Steve Kerr se recusaram a ceder enquanto o Warriors, desfalcado, enfrentava dificuldades nesta temporada.
“Existe um motivo para termos quatro títulos, e é a competitividade, o coração, a vontade”, disse Kerr. “Foi um ano muito difícil, mas isso mostra do que eles são feitos, do que nós somos feitos. Eu disse a eles: com todas as vitórias que tivemos aqui, muitas delas com muito mais em jogo, essa está entre as maiores, justamente por onde estamos, pela nossa idade e pela queda de desempenho nesta temporada. As lesões. Foi simplesmente uma demonstração linda de vontade competitiva.”
A franquia não planejava disputar o play-in nesta temporada, mas apostar em estrelas com idade avançada ao longo de uma campanha de 82 jogos sempre foi um risco elevado. A 15ª temporada de Butler terminou em janeiro, quando ele rompeu o ligamento do joelho direito, enquanto a 17ª temporada de Curry foi prejudicada por problemas recorrentes no joelho.
“Não tivemos nosso grupo junto por tempo suficiente para saber exatamente como as coisas vão acontecer”, disse Curry. “Em anos anteriores, você sabe mais ou menos o que esperar pelo histórico do time. Com esse grupo, não temos isso, então estamos tentando montar tudo em tempo real.”
Vale ressaltar que Curry começou muito mal a partida, convertendo apenas 2 de 9 arremessos, antes de despertar e incendiar Los Angeles com 27 pontos no segundo tempo.
“É por isso que o Steph voltou”, disse Kerr. “Todo mundo que achava que ele deveria ter ficado fora pelo resto da temporada, é isso que ele faz. É isso que ele é. Se ele puder competir, ele vai competir.”
O mesmo vale para Green, que compensou atuações irregulares na temporada regular com um nível defensivo que leva Kerr a chamá-lo de o melhor defensor que já viu.
Green jogou tão bem que Curry disse não ter palavras para descrevê-lo. Leonard, no entanto, teve.
“Defensor de Hall da Fama”, disse o duas vezes MVP das Finais. “Foi difícil até conseguir arremessar.”
Para além do protagonismo de Curry e Green, Al Horford converteu quatro bolas de três no quarto período, Gui Santos e Kristaps Porzingis marcaram 20 pontos cada, e Brandin Podziemski contribuiu com 17.
E o que falar sobre Gui Santos? Atacava o garrafão como se fosse um veterano na NBA. Terminou com 20 pontos, seis rebotes e cinco assistências, com o Warriors vencendo por 16 pontos enquanto ele esteve em quadra. Uma das maiores atuações de um brasileiro que já vi ao vivo na NBA.
“Esses caras tiveram que crescer ao longo da temporada”, disse Payton. “Eles vêm fazendo isso há meses. Só entram e jogam. Esse foi um daqueles testes para o Steve e a comissão confiarem neles nesses momentos. Isso só fortalece nossa confiança para o que vem pela frente.”
E, mais uma vez, quando as luzes se acenderam e os holofotes se voltaram para eles, o Golden State Warriors demonstrou por que segue sendo dono de um dos palcos mais enigmáticos da NBA, mesmo em uma temporada para ser esquecida e que, muito provavelmente, deve ser encerrada no máximo até o primeiro round dos playoffs.