MEU DEUS! D'Baby Adams CBE, joia da Royal Shakespeare Company, quebra seu voto de silêncio da quaresma para comentar o #Oscars
“Ah, sim… a vitória norueguesa. Finalmente um pouco de ar fresco naquele circo anual que se tornou a categoria de Filme Internacional. Valor Sentimental trouxe algo que, francamente, andava em falta: disciplina estética, rigor narrativo e, sobretudo, sobriedade, qualidades que o cinema europeu ainda parece levar a sério.
Quanto ao Agente Secreto do Brasil… bem, devo dizer que não fiquei surpresa. Há muito tempo parte do cinema latino-americano parece confundir intensidade emocional com profundidade artística. O resultado costuma ser uma mistura de atuação pastelão, quase caricata de telenovela, personagens sempre à beira de um colapso dramático, muita câmera nervosa, miséria estilizada e aquela mesma narrativa cansada de sempre, apresentada como se fosse uma grande revelação moral. E então surge um fenômeno curioso: admiradores absolutamente alucinados tratando o filme como se fosse final de Copa do Mundo, torcendo, brigando e transformando qualquer crítica estética em traição nacional. Mas cinema não é competição esportiva, e sofrimento social, por si só, não se transforma automaticamente em grande arte. Não equivale.
E sejamos honestos: a vitória brasileira do ano passado com Ainda Estou Aqui foi, no mínimo, curiosa. Nos bastidores todos comentavam o que parecia uma verdadeira smear campaign contra o favorito, Emilia Pérez. O filme era imperfeito, certamente, mas havia ali uma ambição formal e um senso de espetáculo que faltavam a muitos concorrentes. De repente surgiram narrativas morais, campanhas de pressão, artigos indignados… e o resultado foi previsível.
Este ano, felizmente, os votantes pareceram lembrar que cinema também é forma, linguagem e composição, não apenas discurso político embalado para festivais.
A Noruega venceu porque apresentou um filme que parecia, simplesmente, cinema. E isso, meus queridos, já é uma raridade suficiente.”