jorge jesus chegou à selecção e talvez isto não seja só uma notícia desportiva. pode ser uma daquelas pequenas vinganças que a vida concede já fora de prazo, sob a forma penteada de um remorso, porque portugal tem esta hábil mesquinhez de olhar para os seus homens vivos com a sobranceria dos obituários: primeiro ri-se, depois desconfia, depois põe-se à coca da falha, depois transforma-os numa anedota, e só muito mais tarde, se os títulos forem teimosos, se a realidade continuar a bater à porta com a insistência desagradável das coisas verdadeiras, lá admite, como o pretendente que depois de mil serenatas, cartas acumuladas, mensagens entregues e não lidas e olhares sem eco continua à porta, com as mãos inúteis e atrapalhadas, a dignidade enfiada nos bolsos, a cara indefesa dos que ainda esperam, até que um dia ela abre e lhe diz “entra”, porque às vezes só se ganha por atrito.
o país olhou anos a fio para a voz, para o cabelo, para a frase manca e a vaidade desvernizada, um modo de falar que parecia vir da rua onde os homens ainda discutem um lance como se discutir fosse uma maneira de não desaparecerem, e preferiu o boneco - o meme - ao profissional. era mais fácil. é sempre mais fácil do que admitir que aquele homem que aplicava canetas à gramática via no jogo coisas que ainda não tinham chegado ao resto de nós.
e isto irrita muita gente porque jorge jesus nunca soube vestir a inteligência na medida que os inteligentes de estimação gostam que a inteligência se vista: de fato discreto, frase assessorada, uma humildade higiénica com prudência de consultor da deloitte, a ambição toda passada a chuveiro e gel de banho antes de entrar na sala. nele vinha tudo à montra: a fome, a vaidade, o teatro e a certeza quase obscena de quem acredita que sabe. e sabia. sabia de futebol com uma mistura raríssima de método, superstição, ciência e vaidade.
as equipas dele jogavam.
jogavam, quero eu dizer, no sentido quase infantil e perdido da palavra, antes de os adultos terem transformado tudo em controlo de danos. jogavam na fé de que a bola ainda pudesse ser uma forma de alegria organizada, na ilusão de que era possível trabalhar uma equipa até ao osso e ainda assim deixá-la parecer livre, convicto de que o treino, em vez de meter grades à volta do talento, pudesse construir a casa onde o talento finalmente deixa de dormir ao relento. foi assim com saviola e aimar, dois jogadores que não pareciam combinar movimentos, mas continuar uma conversa antiga. foi assim no flamengo, onde gerson, everton ribeiro, arrascaeta, gabigol e bruno henrique não precisaram de ser domesticados por uma modernidade importada, mas de uma casa táctica onde ainda coubesse o descampado.
“los grandes jugadores no son ansiosos”, disse ele a aimar, e há frases que explicam um treinador melhor do que vinte conferências. o grande jogador não anda a mendigar a bola. aguarda-a. não se oferece como quem pede colo, a desafinar de leandro e leonardo . aparece no sítio onde o jogo, coitado, já estava à procura dele.
e talvez a nossa selecção, cheia de talento riquíssimo, carreiras, capas, patrocínios, debates, legados, fotografias, hinos cantados com a mão no peito e a cabeça já numa boate em ibiza, nas putas caras e nas influencers que só eram mais caras por fingirem que não eram putas, nas garrafas com fogo-de-artifício, nos sofás brancos, nos seguranças, nos amigos dos amigos, nessa pequena corte de parasitas, encostados à mesma madrugada, às mesmas garrafas, ao mesmo dinheiro que não deles, de costas voltadas para a bandeira, porque depois das cinco os deveres são outros, talvez precisasse de alguém que entrasse naquele balneário sem delicadezas. alguém que dissesse: pronto, calcem as botas. alguém capaz de olhar para o nome próprio e ver só o jogador, para a estátua e ver só o homem, para o povo e ver não uma plateia mas a responsabilidade de carregar o imaginário de uma nação estafada, insegura, a pedir uma pequena alegria porque a semana nas costas, porque o mês não fecha, porque o país perpetuamente nas lombas, porque há dias em que se chega a casa sem grandeza nenhuma, salvo essa esperança ridícula de que o campo ainda nos devolva, por noventa minutos, a vaidade das histórias que nos contávamos.
não sei se vai ganhar. talvez rebente, exagere, talvez se perca dentro da própria personagem. mas havia qualquer coisa de morta naquela paz anterior, naquela riqueza toda sem sangue, naquele talento de colecção privada guardado em vitrinas com o país à volta a bater palmas baixinho para não partir nada. agora há risco. ainda bem. a selecção precisava menos de serenidade e mais de alguém que abrisse a janela com a vontade ordinária e magnífica de jogar melhor do que os outros.
porque o futuro é dos românticos. e, se deus quiser, é capaz de ser nosso.
ao ver as "tascas" onde a malta anda a jantar nos Santos recordei-me disto. poucas coisas me alegram tanto como aquele tipo de estabelecimento que comprou um serviço de barro com o próprio nome gravado, meteu pimentos padrón e huevos rotos a fazer de infância nacional e convenceu a pobre criatura que lê a NIT, guarda restaurantes no Instagram e diz "temos de ir" a tudo o que tenha azulejo, luz quente e uma cadeira desconfortável com pretensões de autenticidade de que, por trazer o vinho num jarro em vez de numa garrafa com rótulo, aquilo é claramente um tasco, do mais típico que existe.
frequentado pelo grupo de amigas da Marta, três Ineses e uma Joana dos RH , todas em simulacro de tradição entre dois stories, uma vela torta e o conceito giríssimo de comer às porções, "porque isto é comida de avô", quando a merda mais típica que a velha lhe punha à frente era esparguete com frang e um vianetta do Dia.
a avó, coitada, não lhe deixou uma cozinha: deixou-lhe uma deixou-lhe uma varinha Moulinex “que ainda está aí prás curvas”, duas travessas da Vista Alegre que só tinham uso no Natal, uma gaveta cheia de sacos, uma receita de arroz de frango escrita sem medidas e a memória perfeitamente honesta de almoços despachados à pressa por mulheres cansadas, com loiça no lava-loiça, a televisão ligada noutra divisão e qualquer coisa a descongelar tarde demais.
é gentinha que chama "sem pretensões" a um sítio onde o copo foi escolhido por alguém saído dum workshop de branding e que ao terceiro jarro já fala da infância portuguesa como se tivesse passado os verões numa aldeia do interior, quando a experiência rural mais intensa que teve foi uma despedida de solteira em Évora, com alojamento local, brunch no dia seguinte e uma fotografia muito séria encostada a uma parede caiada, esse grande baptismo telúrico das almas que nunca apanharam um autocarro para a terra dos avós.
e é essa a parte bonita: nem falsificaram uma tradição, mas sim falsificaram a nostalgia privada da clientela, que é onde está o dinheiro a sério. já nem a tasca nos chega sem direcção artística. uma coisa é servir uma sandes de rojão chamada Pork Affair ou o crl. outra, bem mais grave, é convencer uma pirralha criada entre forno eléctrico, iogurtes líquidos, douradinhos com arroz de ervilhas e um pai a adormecer no sofá de comando na mão a ver o Highlander ou a Marés Vivas de que dorme nela uma memória ancestral de balcão, tremoço e toalha de papel, memória essa que passou trinta anos adormecida debaixo de um edredão da Zara Home até ser acordada por um empregado de bigode estudado e três petiscos castelhanos.
o que ali se serve não é só comida. é a possibilidade de ter tido outra origem, mas sem a maçada de a ter vivido. a Marta quer a tasca, mas não quer a porta da casa de banho que não fecha, o calendário da selecção desbotado eo garrafão aberto desde terça nem o senhor agostinho que meio torto começa a discorrer da ex-mulher como se estivesse numa comissão parlamentar de inquérito. quer o empregado castiço, mas não quer que ele se esqueça do pedido porque está a ver se o Leixões marcou, nem o quer a perguntar "é só isso?" com o merecido desprezo de quem percebeu, em três segundos, a indigência espiritual da mesa. quer esse mesmo empregado a tratá-la com uma familiaridade suficientemente rude para parecer verdadeira mas não tão rude que obrigue a uma reclamação no Google.
quer comida de avô, mas não quer o avô ali, vivo, a mastigar de boca aberta, a chamar "chefe" ao empregado, a tossir para o guardanapo, a perguntar quanto custou aquilo tudo, a explicar que ovos com batatas sempre houve e ninguém fazia disso uma civilização, e a contar pela décima terceira vez a história de quando foi a Chaves buscar umas peças para o carro e comeu uma vitela que, essa sim, era uma coisa séria. quer a aldeia, mas não quer a tia que pergunta pelo namorado. quer o tasco urbano, mas sem três maganos de colete reflector a ocuparem metade do balcão com a solenidade de quem reconstruiu o país e agora exige cerveja com Favaíto por serviços prestados à nação.
quer, no fundo, uma autenticidade disponível nos momentos exactos em que lhe convém, com a dose certa de gordura, ruído e desconforto, mas antes do ponto em que a experiência deixa de ser charmosa e passa a obrigá-la a lavar o casaco. a Marta, que nunca teve terra mas tem imensa vontade de a ter tido quer a pobreza de bistrô, miséria em doses para partilhar. é como aquelas pessoas que dizem que adoravam viver numa casa antiga até descobrirem que as casas antigas têm humidade, canalização vingativa e uma arrecadação que é um pequeno museu da inutilidade doméstica, onde toda a família guarda coisas que "um dia podem dar jeito", incluindo cabos de Nokia, recibos de 1987, chaves de portas que já não existem e uma tampa de tupperware que já não corresponde a nenhum recipiente vivo. a Marta quer raízes. mas raízes lavadas, com reserva às nove no TheFork, conta dividida por MB Way e sem uma tia de casaco polar a aparecer à mesa para perguntar, diante das três Ineses, se ela afinal ainda anda com aquele rapaz da barba do chapéu.
@Pedro_Frazao_ Muito bem. Então porque não deixa também uma carta à porta do seu partido? Se calhar é demasiado incómodo. Afinal os telhados são de vidro e atirar pedras ao ar pode fazê-los cair.
Ventura não fala. Ventura debita palavras.
Além de fazer recordar o tom de feira. Não pela qualidade dos pregões mas pelo seu tom megafónico especialista em querer se impôr pela lei do volume.
@PGavado@anselmocrespo É valorizar as carreiras que foram atacadas, espezinhadas e menosprezadas por um partido que apenas se servia de dar esmolas a uns para garantir votos, ignorando aqueles que todos os dias são a base de uma sociedade justa e equilibrada.
No #partidosocialista a memória é como uma prateleira acabada de comprar, vazia. E quando a enchem, não o fazem por menos de uns milhares de euros escondidos em livros.
@psocialista É incrível como de um galho de árvore conseguem fazer uma barcaça resistente e durável capaz de enfrentar intempéries. O PS não devia ter como líder o PNS, da maneira que vão buscar ideias rebuscadas, devia chamar-se MacGyver.
@RuiLopo12 Nem com ele a dizer que não, os próximos a dizerem que não. Insistem, insistem e insistem. Passos Coelho voltando terá que ser num papel ainda mais ativo e envolvente do que o de Presidente da República.
@PGavado É incrível que algo que até estava previsto no GreenBook da Segurança Social, escrito no governo de Costa, mexa tanto.
E não, não está previsto acabar com as reformas antecipadas. Muito menos privatizar as reformas. Isso é uma ideia já negada pela própria.
@Alexandrarfl O último parágrafo é inacreditável já que é exatamente isso que Carlos Moedas tem dado ênfase nos seus discursos e intervenções.
Copiar é fácil, fazer melhor, muito difícil.
Portanto, Pedro Nuno Santos diz que a agenda do atual governo é privatizar a segurança social e atacar direitos adquiridos relativamente às reformas antecipadas.
Apresentem soluções para resolver o buraco criado pelos governos PS! E deixem-se da constante hipocrisia política!
Nos últimos dias temos visto a esquerda que apregoa a defesa dos direitos das mulheres, a falhar em toda linha no seu aparente feminismo, e a direita anti corrupção e assaltos a roubar de forma tão simples quanto um carteirista.
Quis lançar o alarme público, diminuir a capacidade do PSD em manter as contas certas, e depois de ter sido contrariado pelas instâncias europeias, são agora os economistas que mostram que não haverá regresso a uma situação de défice das contas públicas em 2025.
Luis Montenegro este fim de semana afirmou, e bem, que somos um país seguro mas que isso nunca pode ser dado como um dado adquirido. Ontem no Martim Moniz, tivemos mais uma vez dois episódios lamentáveis daquilo que não queremos que aconteça em Portugal.
Luis Montenegro ontem foi claro como água. Estamos num país seguro, mas essa segurança tem de ser mantida! Independentemente de nacionalidades e credos.
Quem diz que o governo segue uma agenda extremista, são os que querem impor uma ideologia na qual os portugueses não se revêem
Pedro Marques lançou, @PNSpedronuno defendeu com unhas e dentes, e o resultado é o que se vê, em tudo semelhante à governação do @psocialista , um autêntico empurrar com a barriga. O projeto Ferrovia 2020, que seria para terminar em 2021, provavelmente nem em 2027 estará pronto.