De repente, metade do Brasil resolveu que ser adulto é não se indignar.
Adulto é quem olha para Brasília, vê a conta, paga a conta e não pergunta quem pediu o vinho. Descobre outro escândalo, outro privilégio, outro pedaço da renda desaparecendo e conclui, com a serenidade bovina dos maduros: política é assim mesmo.
E então aparece Renan Santos irritado. Pronto. O problema do Brasil passa a ser o tom de voz de Renan Santos. Não a conta. O tom. Não Brasília. A irritabilidade. Não aquilo que provoca a revolta, mas a falta de educação de quem ainda consegue se revoltar.
É extraordinário. A indignação virou tabu no Brasil. A senhorinha pobre recebe o Bolsa Família, chega ao supermercado, olha o preço do café e se indigna. Pode se indignar intimamente. Só precisa se calar.
O empresário paga milhões em DARF, olha a folha, vê o funcionário insatisfeito, paga mais segurança, mais juros, mais imposto, mais energia e sabe quanto dinheiro manda todos os meses para o Estado. Pode ficar indignado. Só não pode demonstrar. Tem que ser adulto.
O trabalhador olha o desconto do INSS, acompanha denúncias de fraude, desperdício e corrupção e percebe que aquele dinheiro desaparece do salário antes mesmo de chegar à conta. Pode sentir raiva. Mas discretamente. Porque indignação pública agora é desequilíbrio emocional.
O Brasil descobriu uma forma sofisticadíssima de castração: transformar a revolta em falta de educação. Talvez esse seja um dos sinais mais profundos de uma sociedade que aprendeu a conviver com formas autoritárias de poder. Não é quando todo mundo começa a gritar. É quando ninguém mais acha adequado gritar.
A verdadeira domesticação não acontece quando o governo manda você ficar quieto. Acontece quando o seu vizinho manda. Não precisa mais de censura. Basta o vizinho.
“Fale mais baixo.” “Seja adulto.” “Política é negociação.” “Você precisa entender como as coisas funcionam.” Entender como as coisas funcionam virou o nome elegante para aceitar que funcionem daquele jeito.
E talvez seja justamente aí que as pessoas errem ao imaginarem uma ditadura. Ditadura não é apenas protocolo, tanque na rua, general na televisão, jornal fechado ou decreto pregado na porta. Ela também se constrói no imaginário coletivo.
Começa quando uma sociedade aprende quais indignações são permitidas e quais devem provocar vergonha. Quando algumas pessoas podem gritar porque representam causas socialmente autorizadas, enquanto outras precisam aceitar silenciosamente a conta. Quando indignação passa a precisar de carimbo moral.
O passo seguinte é ainda mais perverso: transformar resignação em superioridade intelectual. Quem aceita tudo serenamente torna-se sofisticado. Quem ainda se revolta é primitivo, histérico, radical, infantil. O cidadão domesticado ganha o diploma imaginário da maturidade.
É nesse ponto que Renan Santos se torna interessante, independentemente de ganhar eleição. Ele vem de um movimento pequeno, de rua, frequentemente arrogante, muitas vezes irritante e cheio daquela insolência típica de quem ainda não administrou um país, uma estatal, um orçamento de bilhões e uma coalizão inteira.
Ótimo. Deixem que seja arrogante. Toda força política nova possui a arrogância de ainda não ter sido testada pelo poder. Renan pode ser insolente, pode ser amador, pode desaparecer amanhã. Irrelevante para esta discussão. O que importa é que ele ainda grita.
E gritar, neste país, passou a adquirir um ar pornográfico. A indignação constrange. A revolta deixa as pessoas desconfortáveis. Não porque seja necessariamente falsa, mas porque lembra aos resignados aquilo que precisaram anestesiar para continuar vivendo normalmente.
Lula também já foi o homem indignado contra a República. Construiu para si a imagem daquele que denunciava as imoralidades dos que estavam no poder e falava em nome de quem não tinha voz. Era a indignação transformada em identidade política.
Bolsonaro produziu outra versão do mesmo arquétipo. Durante décadas foi o deputado inconveniente, o sujeito que supostamente dizia aquilo que ninguém tinha coragem de dizer. Cresceu exatamente porque milhões de brasileiros reconheceram naquela irritação algo que também sentiam.
Agora surge um terceiro fenômeno e uma parcela do país decide que a indignação virou adolescência. Por quê? Porque não é a indignação autorizada. Renan não diz ser o pai dos pobres nem o capitão de uma nação abandonada. Aparece simplesmente como um sujeito de um movimento político dizendo que está de saco cheio.
E há muita gente de saco cheio também. Gente com 35, 45, 55 anos. Gente com empresa, folha de pagamento, boleto, contador, DARF, desconto do INSS, aluguel comercial, prestação, mãe aposentada, filho procurando emprego, supermercado e plano de saúde.
Gente com a sensação diária de que uma parte enorme do que produz sobe por um cano para Brasília e volta na forma de burocracia, escândalo, privilégio e sermão. Esse sujeito deveria reagir como? Com meditação transcendental?
E há ainda um preconceito mais profundo contra o Missão. Ele não nasceu do jeito como o Brasil aprendeu que um partido deve nascer. Não veio de um coronel com cinquenta prefeitos no bolso, de um sindicato com diretoria e máquina, de uma bancada religiosa, de uma universidade ou de um governador repartindo diretórios pelo interior.
Veio de gente que se encontrou na rua, depois na internet, transformou a indignação em movimento, participou de uma mobilização gigantesca pelo impeachment e conseguiu transformar aquela rede política em uma organização partidária. Isso provoca uma espécie de alergia à velha política brasileira.
Porque nós fomos ensinados a reconhecer como legítimo aquilo que já chega com gabinete, padrinho, sindicato, igreja, universidade, família tradicional ou dinheiro antigo. O sujeito que chega com um celular parece amador. Só que o celular virou o palanque.
O Missão tem, portanto, um defeito imperdoável: não nasceu de coronel, sindicato ou universidade. Nasceu de celular. Crime de lesa-política.
E aqui está, talvez, uma das maiores estupidezes dessa crítica ao MBL: tratar a utilização obsessiva das novas mídias como demonstração de infantilidade política, quando Lula e Bolsonaro dependem exatamente da mesma máquina. O velho também precisa do corte.
Lula passa por inaugurações, visitas, palcos, fábricas, cerimônias, abraços e discursos como um monarca republicano cortando fita pelo reino. Aquilo não existe apenas para as cinquenta pessoas diante dele. Existe para a câmera, para o vídeo, para o corte, para o WhatsApp, para o algoritmo.
Bolsonaro fez exatamente a mesma coisa com outra estética: live, cercadinho, entrevista improvisada, motocicleta, aeroporto, multidão, celular apontado para a própria cara. Por que o político do século XXI pode odiar a internet. Só não pode dispensá-la.
Renan faz isso com a vantagem e o problema de ser novo: como não possui a máquina, precisa transformar atenção em máquina. Cada debate vira cinquenta cortes. Cada confronto vira distribuição. Cada frase precisa sobreviver à televisão e renascer no celular.
Chamam isso de “fetiche por mídia” como se fosse um defeito. É quase como acusar Getúlio de gostar demais do rádio. Quando o velho usa o algoritmo, é estadista. Quando o novo usa, é adolescente. Lógica impecável, desde que você já esteja sentado à mesa.
Talvez porque o Brasil aceite muito melhor uma novidade tecnológica do que uma novidade política. O celular pode ser novo. O candidato, aparentemente, não.
Renan provavelmente não ganhará esta eleição. Pode nunca ganhar uma eleição presidencial. Pode desaparecer. O Missão pode chegar ao poder e produzir exatamente as contradições que hoje denuncia. Pode descobrir amigos, conveniências, covardias, cargos e todas as pequenas delícias pelas quais a República costuma converter moralistas.
Nada disso retira a legitimidade do fenômeno que existe agora. O poder terá tempo de fazer a autópsia deles. Guardemos os discursos. Depois de oito anos de governo, voltamos, abrimos a gaveta e vemos o que sobreviveu.
Hoje existe um eleitor que não quer Lula nem Bolsonaro. E esse eleitor observa duas estruturas políticas envelhecidas, vivendo da rejeição recíproca, enquanto qualquer coisa que tente germinar fora delas recebe imediatamente um diagnóstico psiquiátrico.
É raiva. É ressentimento. É radicalismo. É adolescência. É bolha. Curioso. Lula também já foi bolha. Bolsonaro também já foi bolha. Toda árvore, um dia, foi uma coisa ridícula que surgiu da terra.
O Brasil naturalizou tanto Lula e Bolsonaro que começou a tratá-los como fenômenos da natureza. Chove. Faz calor. Tem Lula. Tem Bolsonaro. Escolha o seu e cale a boca.
É aí que aparece essa curiosíssima definição brasileira de adulto. Quem é o adulto? É a elite do funcionalismo que recebe o imposto? É a elite financeira que ganha dos dois lados da política? É a elite urbana progressista que transforma conforto econômico em superioridade moral?
É quem vive perto do Estado, ensinando serenidade a quem financia o Estado? É quem se acostumou ao crime organizado, à corrupção e ao desperdício porque reconhecer a gravidade das coisas perturbaria demais a vida cotidiana? Quem é adulto: o que recebe ou o que paga?
Que maravilhoso conceito de maturidade. Adulto é sempre o outro. Adulto nunca é quem está pagando. Adulto é quem explica ao pagador por que ele não deve ficar nervoso.
Descobrimos o adulto brasileiro: aquele que paga o imposto, engole o escândalo e ainda pede desculpas por reclamar do barulho da festa a que não foi convidado. A indignação agora precisa de autorização moral. Sem carimbo, é adolescência.
Por isso talvez o problema não seja Renan estar indignado demais. Talvez nós estejamos indignados o bastante. Talvez tenhamos chegado ao ponto em que um homem levantar a voz diante de um sistema que considera absurdo parece mais escandaloso do que o próprio absurdo.
E é aí que começa uma espécie muito sofisticada de autoritarismo cultural. Não é preciso proibir a revolta. Basta ridicularizá-la. Não é preciso censurar a indignação. Basta chamá-la de infantil. Não é preciso mandar ninguém aceitar. Basta transformar resignação em sinal de inteligência.
Uma sociedade assim já não precisa necessariamente da repressão clássica. Desenvolveu um sistema nervoso coletivo que prefere a anestesia à convulsão, a resignação à desordem, a eutanásia moral ao incômodo de descobrir que talvez ainda houvesse alguma coisa pela qual valesse a pena levantar a voz.
Porque uma ditadura não se sustenta apenas por leis, tribunais, polícias ou protocolos. Ela se sustenta quando conquista o imaginário. Quando o cidadão passa a policiar espontaneamente a revolta do outro, reclamar vira falta de educação, obedecer vira maturidade e resignação vira bom senso.
A ditadura perfeita não é aquela em que todo mundo tem medo de falar.
É aquela em que todo mundo ainda pode falar, mas aprendeu a ter vergonha de estar indignado.
E talvez o Brasil esteja descobrindo uma nova definição de maturidade: ser adulto é sustentar a festa, não ser convidado e ainda pedir desculpas por reclamar do barulho.
@Papaidointer@kyllindo@republiqueBRA Se fosse real tinha feito exame de corpo de delito e teria prova incontestável do ocorrido. Pq será que não fez hein?
Sávio, você costuma ser uma pessoa inteligente e de muito bom senso quando analisa os políticos da velha política. Aqui, porém, acho que errou feio.
O que você chama de “adolescente indignado” é justamente o que muita gente está sentindo fora de Brasília.
Renan talvez seja hoje o candidato que melhor traduz o estado de espírito de uma parcela do país que não quer Lula nem Bolsonaro e olha para os dois como projetos que envelheceram, apodreceram e passaram a viver da rejeição recíproca.
Existe um brasileiro que paga DARF, vê o INSS descontado no contracheque, acompanha escândalos envolvendo dinheiro público, paga cada vez mais no supermercado, observa empresas fechando, teme perder o emprego e olha para Brasília como uma máquina caríssima que continua exigindo mais dele enquanto entrega cada vez menos.
Esse sujeito está indignado.
Por que Renan deveria falar disso sorrindo?
E essa história de que ele “só fala para a própria bolha” é uma análise curiosamente míope sobre como movimentos políticos crescem.
Em 1989, Lula também falava para uma bolha. Ela cresceu.
Durante anos, Bolsonaro falava para uma bolha. Ela cresceu até colocá-lo no Planalto.
Toda força política nova começa como bolha. Depois vem a eleição para descobrir se aquilo era apenas uma bolha ou uma onda.
O preconceito contra o MBL/Missão é tão grande que muita gente consegue reconhecer imediatamente a decadência das duas árvores velhas, mas se recusa até a olhar para alguma coisa nova germinando ao lado.
Pode não gostar do Renan. Pode achar o tom excessivo, arrogante, irritante.
Mas chamar de teatro uma indignação que milhões de brasileiros sentem todos os dias talvez diga menos sobre ele e mais sobre o quanto Brasília conseguiu normalizar o absurdo.
@Odlani1@renatajbarreto Juiz que solta esses caras tinha q responder como partícipe em eventual crime que eles venham a comete, de tão previsível que é.
@carl_sauro@renato_battista No Brasil relevante é a bosta ou o cocô, simplesmente pq tem os idolatras pra dar mais ibope pra eles. Triste demais o nível do eleitor brasileiro.
@AleLopesOliv@renato_battista O quê importa pra vcs? Atuação no senado? Não ser corrupto? Boas propostas? Certeza que não. Pra vcs importa só o sobrenome. 🐄
@mossadvoluntary@renato_battista Ahh tá, não é medo não… então pq ele não quer usar esse tempo para apresentar as suas próprias propostas?? Ganhar votos com isso? Viaja não, abobalhado.