🇧🇷O Réquiem da Geração "Rumo ao Gexa"
Pertenço a uma geração de torcedores brasileiros que cresceu sendo feita de bucha de canhão da amargura dos mais velhos.
Se hoje há um exagero na retórica anti-saudosismo, é porque por 20 anos tivemos de tolerar o casamento curioso do avanço do “futebol moderno” elitista com baboseiras de velho tipo “geração playstation”.
Essa amargura atingiu principalmente a relação de uma parte grande do público com a Seleção Brasileira.
A turma de 94-06 venceu tanto e camuflou tanta coisa errada da cartolagem que deu corda a um rancor cuja crítica foi necessária em certos momentos (sobretudo no jornalismo que cobriu a Copa de 2014), mas que sufocou as tentativas de simpatia do pessoal da minha idade com a canarinha mesmo quando isso era algo absolutamente inocente e honesto.
Todos vimos a cooptação política que veio do caos das jornadas de junho em diante. “Não vai ter copa”, impeachment, Bolsonarismo etc.
Bem, fui concebido durante a campanha da Seleção na Copa de 2002 (obrigado, Ronaldo).
Nasci Pentacampeão.
Desde pequeno, fui instruído pelos meus pais a ler, escrever e torcer pelo meu país. É parte vital de quem sou.
Compreendo a raiva millenial contra a CBF. O que eu não aceito é a falta de respeito com a qual nós, que temos entre 19 e 27 anos, fomos tratados nesses 24 anos de jejum.
Uma arrogância vazia de propósito positivo. Gente que se sente superior por ter visto o Brasil campeão, por se importar apenas com o clube do coração.
Dessas pessoas, tenho pena.
Jamais sentirão a alegria que nós sentimos a cada golaço de um Vinícius Júnior, em cada surgimento de um Endrick, um Rayan.
Boa parte dos jogadores que estão nos representando nos EUA também não viu o Brasil ser campeão do mundo.
Estou certo de que há um ímpeto especial no coração de quem um dia também chorou pelo Brasil nessas 2 décadas e meia de jejum.
Um jogo de cada vez, nós alimentamos com eles a fantasia redentora de nosso sonho mundialista.
Nós, que quebramos a cara em 2006.
Nós, que nos permitimos acreditar no time cascudo de 2010.
Nós, as crianças irritantes da propaganda do Itaú, feitas de pivô na caricatura dos vexames de 2014; na prática, as maiores vítimas daquela palhaçada.
Nós, que engolimos sapo pra geração belga e que passamos os últimos 4 anos reclamando daqueles malditos 4 minutos contra a Croácia.
Sinto que nessa Copa, nossa geração teve trégua da parcela ranzinza da opinião pública e está, enfim, torcendo com a paixão que lhe foi negada na década passada.
A mudança no zeitgeist político contribuiu, mas talvez finalmente perder o status de favorito ao título tenha sido o fator principal.
Desde 2014 não via tanta rua pintada, tanta gente de verde, amarelo, azul e branco. Pessoas de todos os credos, ideologias, etnias, gêneros, entrando no clima da Copa.
É 2026 e cá estamos nós, os nem-tão-mais jovens, de novo.
A Geração Rumo Ao Hexa.
Iludidos por opção, com convicção. Sonhadores como sempre, porque sonhar é de graça e uma das melhores sensações que a vida nos permite.
Acreditando no título, mesmo com os desfalques e pesares do ciclo, porque somos brasileiros, amamos futebol e sabemos que, um dia, o mundo será nosso novamente.
Às favas com os exercícios idiotas sobre trocar Copa do Mundo por 3 pontos no campeonato estadual. Que se dane em quem o goleiro Weverton votará nas eleições de outubro.
A sexta estrela é o futuro e o futuro sempre chega.
Por que não chegar agora?
Por que não em Nova Iorque, acordar do pesadelo na cidade que não dorme e se redescobrir como realeza máxima do futebol?
Estou sonhando alto. Antes disso, há um organizado e qualificado Japão a se enfentar.
Passando dos samurais azuis, mais 4 adversários, incluindo algumas das melhores seleções do mundo.
Se vamos chegar lá ou não, não sei.
O que posso afirmar sem rodeios é que está sendo muito gostoso sair nas ruas e ver tanta gente da minha idade animada com a Copa do Mundo.
Com orgulho e com amor, seremos felizes novamente.