Em poucas horas, três cenas diferentes atravessaram as redes sociais:
- “Meu tênis branco indo atender pacientes no cu do Maranhão”. Aluno de curso de medicina.
- “Nunca vi tanta gente feia por metro quadrado”. Brasileira em Mykonos, Grécia.
- E jovens, supostamente filhos de empresários, humilhando um garoto que vendia paçoca no semáforo em Mossoró.
Os episódios são diferentes, mas revelam a mesma doença: a transformação do privilégio em arrogância e da empatia em um entretenimento descartável, mas vil.
Existe algo profundamente perturbador em uma geração que aprendeu a registrar tudo, mas desaprendeu a enxergar o essencial: pessoas. O celular virou vitrine de status, palco de humilhação e instrumento de desumanização. O sofrimento alheio deixou de provocar desconforto e passou a render engajamento.
Talvez o problema mais grave não seja apenas a crueldade explícita, mas a naturalidade com que ela aparece. Como se humilhar pobres, trabalhadores ou pessoas comuns fosse apenas “piada”, “exagero da internet” ou “coisa de jovem”.
Não é. E nunca será.
Porque toda sociedade começa a adoecer quando o sucesso produz desprezo em vez de responsabilidade. Quando estudar medicina não desperta compaixão. Quando viajar o mundo não amplia horizontes, apenas infla o ego. E quando encontrar alguém vendendo paçoca no sinal desperta escárnio em vez de respeito.
No fim, o que aparece quando alguém acredita estar acima dos outros não é cidadania, nem humanidade. É apenas a forma mais covarde de miséria: a moral.
No fim, o que aparece quando alguém acredita estar acima dos outros é apenas miséria interior.