Todos lembram de Roseana Sarney, ninguém lembra de Ana Clara
Às 6h50 da manhã de uma segunda-feira, 6 de janeiro de 2014, Ana Clara Santos Sousa, uma menina pobre da periferia, morreu em São Luís. Tinha seis anos. Durante quase três dias, seu pequeno corpo lutou contra uma das formas mais brutais de trauma que um ser humano pode sofrer: ela foi incendiada viva e o fogo queimou 95% de sua pele. Queimaduras extensas provocam uma dor lancinante. O calor destrói tecidos e agride terminações nervosas, enquanto as áreas ao redor das lesões permanecem extremamente sensíveis ao menor toque, à pressão e ao movimento. A pele, nossa primeira barreira contra o mundo, transforma-se no próprio lugar da mais intensa dor. Até procedimentos indispensáveis, como limpar as feridas, trocar curativos ou movimentar o corpo, podem exigir analgesia forte. Ana Clara precisou ser sedada e respirar com a ajuda de aparelhos na UTI. Durante quase três dias, médicos tentaram manter viva uma menina cujo corpo havia sido devastado. Naquela segunda-feira, ela não resistiu.
Ana Clara foi uma das muitas vítimas do governo Roseana Sarney, um dos mais corruptos da história do Maranhão. Sua morte foi o desfecho mais cruel de uma crise que o Estado já não conseguia conter dentro de Pedrinhas porque, na ânsia de sequestrar os cofres públicos, eles corromperam até o sistema de segurança.
O governo havia perdido o controle do complexo penitenciário, onde facções disputavam poder, presos eram assassinados e criminosos conseguiam comandar ações do lado de fora das celas. Quando a polícia entrou no presídio para tentar retomar o controle, lideranças criminosas ordenaram ataques nas ruas de São Luís. Mandaram incendiar ônibus e espalhar terror pela cidade. Uma dessas ordens chegou ao ônibus em que estavam Ana Clara, sua mãe e sua irmã de um ano. O horror que havia crescido atrás dos muros de Pedrinhas alcançou as ruas de São Luís.
Desmoralizado, o grupo de Roseana Sarney foi atropelado nas eleições daquele mesmo ano. Roseana decidiu, ela própria, se enterrar politicamente ao renunciar ao governo antes do fim do mandato e não entregar o cargo ao sucessor. Um fim melancólico para quem havia governado o Maranhão por quatro mandatos. Relembro Ana Clara porque hoje Roseana Sarney lidera todas as pesquisas para o Senado do Maranhão, com ampla vantagem sobre os adversários.
Para mim, isso é chocante. É inadmissível que alguém com a biografia política de Roseana e de sua família esteja novamente no topo de uma disputa eleitoral no estado. Não importa que 90% dos eleitores ainda não tenham decidido de fato em quem votar, nem que Roseana seja lembrada muito mais por ser conhecida do que necessariamente pela preferência consolidada do eleitorado. Roseana não deveria sequer estar numa lista de candidaturas ao Senado, muito menos liderá-la. O mais assustador é perceber que, doze anos depois, o Maranhão ainda prestigia e reconhece esta senhora. Eu prefiro lembrar de Ana Clara.
Desde que o Twitter passou a se chamar X eu perdi o tesão desse site. Xandão contribuiu e agora eu passo dias sem lembrar que ele existe.
Terá sido eu curada?
"Jesus era um refugiado palestino. Não me fale sobre abrir espaço para Jesus no coração se você não consegue abrir espaço para os palestinos"
Pastor Andy Oliver