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Livres da polarização
Quem falará pelos 40% de brasileiros que não são petistas nem bolsonaristas, nem apoiam essas forças políticas populistas?
Roberto Freire, Eduardo Jorge, Gilberto Natalini e Augusto de Franco, O Estado de São Paulo (11/05/2024)
Há no Brasil de hoje dezenas de milhões de eleitores que não se sentem representados pelas forças que dominam a arena política. São esses – em boa parte – os que apoiam a democracia como um valor universal e que são contra toda sorte de preconceitos e discriminações. São os que acreditam na eficiência do Estado, mas defendem uma economia livre, querem aliar desenvolvimento e sustentabilidade, desejam empreender, mas precisam de apoio ou, quando menos, que não sejam atrapalhados, os que sabem que segurança é inteligência e a violência, irmã da desigualdade.
São os que não acham que um pouquinho de inflação faz bem, nem querem leis dos anos 1940 regulando o trabalho, como ficou patente com a decisão dos líderes governistas de abandonar o projeto com o qual o governo pretendia transformar em trabalhadores CLT os motoristas e entregadores de aplicativo. São os que não veem legitimidade em invasões e depredações de patrimônio público ou privado, sejam eles patrocinados pelo MST ou por partidários de golpes de Estado. São os que defendem, de forma intransigente, as liberdades de expressão, organização e manifestação de acordo com as regras do Estado Democrático de Direito.
Eles não estão nos extremos ou polos que viraram instrumento de análise da divisão a que o lulismo e o bolsonarismo submeteram a sociedade, ambos em busca do poder pelo poder. Eles não defendem, nem justificam, grupos terroristas como o Hamas, o Hezbollah, os Houthis e demais milícias do Oriente Médio que servem aos propósitos da teocracia iraniana e estão sendo usados pelas grandes autocracias do planeta contra os regimes democráticos – tampouco apoiam Nicolás Maduro, Vladimir Putin ou outros ditadores, de esquerda, de direita ou fundamentalistas religiosos.
Quem falará pelos cerca de 40% de brasileiros que não são petistas nem bolsonaristas, nem apoiam essas forças políticas populistas? Os partidos políticos falharam em interpretar os sentimentos, captar as aspirações e endereçar soluções para os problemas desse imenso contingente populacional. Os que não minguaram viraram satélites dos dois campos que alimentam a clivagem social e política brasileira. Não por outra razão, pesquisa recente do Datafolha mostra que aumentou a desconfiança da população dos partidos políticos. Os números, aliás, são alarmantes: só 43% confiam “um pouco”.
A construção de alternativas à polarização, portanto, terá de partir dos insatisfeitos com esse estado de coisas. E, nesse campo, há grande diversidade. De intelectuais a políticos, passando por jovens idealistas, professores, profissionais liberais, trabalhadores de chão de fábrica e de empresas de tecnologia, entregadores e motoristas de aplicativos, empresários, agricultores, artistas, sindicalistas, cientistas, enfim, pessoas comuns que querem viver, estudar, trabalhar, empreender, se divertir, amar e se congraçar com seus semelhantes sabendo que somente a democracia pode configurar ambientes pacíficos onde seus direitos políticos e suas liberdades civis sejam respeitados e valorizados.
Uma oposição democrática aos populismos, no governo ou fora dele, já existe no Brasil. Ela ainda é pequena e está dispersa, mas não crescerá por mágica nas eleições deste ano ou nas próximas. Isso só vai acontecer se as forças políticas democráticas começarem a se articular para influenciar de pronto a agenda nacional, resgatando o espaço público dos populismos de esquerda e direita que o sequestraram. Isso exige conversação livre e franca entre pessoas que não imaginam ter o monopólio da verdade e que estão abertas a ouvir e entender os pontos de vista do outro e, se necessário, a mudar seus próprios pontos de vista, seja em busca de convergência, seja porque alguém teve uma ideia melhor. Isso exige empenho contínuo, um exercício permanente de olhar para a frente, de pensar o País para além das disputas de poder.
Há muita gente disposta a isso, dentro e fora dos partidos, centristas, à esquerda ou à direita, nos mais diversos Estados. Gente cansada do destrutivo e paralisante “nós contra eles”. Gente que espera há anos por políticas que deram certo em outros lugares do mundo, independentemente da ideologia de seus idealizadores, mas que aqui são sabotadas pela polarização. Seja na educação, com a reforma do ensino médio, ou no saneamento básico, com o marco legal, para ficar em dois exemplos recentes de tentativa de retrocesso.
Que todos esses comecem a se conectar, virtual ou presencialmente, não importa se em grande ou pequeno número. O resultado desse esforço não será uma frente de pessoas que pensam igual, mas uma ecologia de diferenças coligadas. Não se articularão apenas para lançar candidatos, embora daí nascerão opções aos extremos, mas para congregar quem deseja trabalhar pela despolarização. Em nome dos milhões de brasileiros que almejam viver em um país melhor e estão fartos de quem lucra com a divisão da sociedade brasileira.
Roberto Freire é político e advogado, Eduardo Jorge e Gilberto Natalini são políticos e médicos, Augusto de Franco é político e escritor.
Nós definitivamente experimentamos no Brasil uma crise no noticiário.
Segundo o Reuters Institute, em 2015, 62% dos brasileiros confiavam na imprensa. Em 2023, esse número despencou para 43%.
É uma queda muito rápida em muito pouco tempo.
A Globo (TV Globo, GloboNews, G1) é a empresa de jornalismo com o maior índice de falta de confiança (31%). Quase um em cada três brasileiros não confia no trabalho do grupo.
A mesma pesquisa diz que 41% dos brasileiros evitam o consumo de notícias e de conteúdo jornalístico – um número acima da média mundial, de 36%.
Há um evidente aumento da falta de confiança do país com o trabalho da imprensa. E se dá para dizer que isso acontece, em parte, pelo aumento da polarização e da resistência que massas partidárias têm em encarar notícias que desagradam as suas visões ideológicas – e que há inúmeros jornalistas fundamentais para a saúde do debate público brasileiro – também dá pra sustentar que:
1) Parte dos nossos veículos não sabe ser transparente em relação às suas linhas editoriais, tentando esconder do público o fato que parte de seus repórteres, apresentadores e analistas possuem flagrantes predileções ideológicas, facilmente percebidas pela audiência;
2) Muitos dos nossos jornalistas se comportam como se monopolizassem a verdade e tivessem o direito de exigir credibilidade do público, adotando um tom professoral e autocentrado que apenas gera hostilidade da opinião pública;
3) Muitos dos nossos jornalistas se comportam como assessores de imprensa, dando às fontes – especialmente do universo político – um papel de protagonismo que se sobressai à própria apuração jornalística, como se, sozinho, um entrevistado, em off, garantisse a veracidade de uma notícia; e
4) Muitos dos nossos colunistas produzem conteúdos de péssima qualidade, contratados em nome de uma pretensa diversidade de opinião que, mal conduzida, atinge frontalmente a credibilidade da imprensa profissional.
Tudo isso contribui para gerar antipatia e desconfiança.
E quando há descrédito com os profissionais que são pagos para apurar notícias, e um incremento das técnicas e do alcance da propaganda política nas redes sociais, há proliferação de notícias falsas. E não dá pra jogar pra debaixo do tapete esse problema.
Uma sociedade bem informada tem mais recursos disponíveis para tomar melhores decisões, tanto nas urnas quanto na vida cotidiana. Essa é a razão por que 1) o trabalho da imprensa é tão importante, 2) as fake news são tão prejudiciais.
A industrialização do boato é um câncer que corrói o debate público. E os partidos e movimentos políticos têm grande responsabilidade sobre isso.
Só que não dá pra negar que nós também vivemos uma crise no combate a essa indústria.
Segundo uma pesquisa do PoderData, o STF – o principal encarregado em combater notícias falsas no país – terminou 2023 avaliado positivamente por apenas 19% dos brasileiros. Mesmo entre os petistas, a avaliação positiva está em 25%.
Em todas as pesquisas de opinião, menos de 1/3 do país aprova o Supremo Tribunal Federal.
As nossas instituições parecem convencidas de que só uma parcela do debate público é capaz de produzir notícias falsas. Mas ela conseguiu ir além disso: criou um ambiente generalizado de autocensura.
Se é positivo combater calúnia, difamação e desinformação, é extremamente prejudicial estabelecer um ambiente onde o crime de pensamento é justificado em nome de uma falsa proteção à democracia. E as nossas instituições parecem dedicadas a jogar o bebê fora junto com a água do banho.
É a tempestade perfeita.
If you want to see the poor remain poor, generation after generation, just keep the standards low in their schools and make excuses for their academic shortcomings and personal misbehavior. But please don't congratulate yourself on your compassion.
Price of protesting in #Iran: Nika Shakarami, 17 years old, joined the #MahsaAmini protests on Sep. 20, on Sep 30 her body was delivered dead to her parents from Kharizak jail…then authorities stole body to block the funeral. What she was fighting for: