não importa quantos anos de terapia eu faça
ou quantos medicamentos eu tome
o passado
sempre
dá um jeito
de me assombrar;
vil, assustador, doloroso.
[até hoje, é difícil dizer como que sinto.]
gosto de quando tua presença me acalma sem precisar dizer nada.
de quando o dia foi cheio demais,
mas teu sorriso no fim dele parece dizer: “já passou, vem cá”.
depois daquelas palavras
minha cabeça deu um nó;
que ironia
eu, cheia de certezas
e você, sem saber exatamente o que queria.
sua voz soou como um ruído naquele momento
e um arranhão abriu
aquela velha ferida
em meu peito.
— mais uma piada sem graça que a vida resolveu contar.
fico imaginando nós dois
nessa vida de burguês
morando num bairro tão lindo quanto esse
silencioso e cheio de árvores à volta.
a essa hora, provavelmente estaríamos juntos
à beira da janela, olhando a vista
no mesmo lugar de onde estou te escrevendo.
[o pensamento me cativa.]
nós conversamos por olhares
nosso silêncio diz tanto
eu e você, nos tocando
não precisa ter malícia, o afeto basta
mas se o tempo esfriar, nos esquentamos
um no outro.
te quero só pra mim,
te quero amar,
todos os dias.
e tem essa coisa que me sufoca
me prende na garganta, me engasga
meus olhos lacrimejam e eu preciso respirar fundo pra que ninguém perceba, pra que as lágrimas não sejam vistas;
tem essa coisa que me aperta o peito
que me causa desconfiança
e que me impede de relaxar.
eu vou te comer viva
vou devorar seus sonhos
vou fazer você desejar nunca ter nascido
você vai querer se matar;
vai rezar pra que não exista reencarnação
porque, se existir
você sabe que eu estarei lá.
você vai se perguntar se eu tenho amizade com o diabo
— e talvez eu tenha.
eu já não pego seu celular
não pergunto sobre seu trabalho
nem comento sobre seus afetos e desafetos
eu já procurei tanto e,
por isso,
me machuquei tanto.
["quanto menos eu sei, mais feliz eu sou."]