quando eu morava no interior, tinha um vizinho que saía bem cedinho pra varrer as folhas da calçada.
quando terminava de varrer a frente da casa dele, ia varrer a frente da casa dos outros.
o quarteirão onde ele morava era o mais limpo do bairro.
eu, quando saía cedinho pra correr, passava por ele me perguntando “por que esse véio não tá dormindo na cama quentinha, uma hora dessas?”
aí eu me mudei pra uma casa com quintal.
um quintalzão.
com um pé de abacate gigantesco que faz uma bagunça colossal.
peguei a vassoura e comecei a varrer.
uns minutos juntando folhas secas com a pá e eu desvendei todo o mistério do senhorzinho:
é terapia.
o tempo passa mais devagar.
por alguns minutos, a única coisa que importa é juntar folhas e pequenos galhos com a pá.
o céu é tão azul.
ipês rosas são absurdos de lindos.
o sol muda a cor de tudo que ele toca.
há joaninhas que não são vermelhas.
e ouvir o vento me lembrou Fernando Pessoa, que disse “às vezes ouço passar o vento. e, só de ouvir passar o vento, vale a pena ter nascido”
terminado de varrer o quintal, quase que abri o portão e fui varrer a rua também.
como meu antigo vizinho fazia.
há mundos que só são descobertos quando a gente troca o celular pelo cabo da vassoura