Ontem Passos Coelho esteve na televisão. Hoje André Ventura já está na RTP Notícias. Aparentemente, quando alguém à direita aparece demasiado tempo no ecrã, como aconteceu também na semana passada, Ventura recebe uma notificação: “O seu tempo de antena está a ser usado por outro utilizador.”
Ontem, Passos Coelho deu uma entrevista na televisão, depois foram publicando excertos no X e, conforme as partes escolhidas, parecia ter dado várias. É uma bela maneira de multiplicar a presença pública sem sair da cadeira, já que basta deixar a seleção por conta dos admiradores.
Há quem se sinta órfão de Passos à direita, por não se rever nem em Montenegro nem em Ventura, e há quem ache que já teve o seu tempo. Uns viram nesta entrevista um sinal de regresso, outros uma forma de pressionar o Governo, outros ainda aproveitaram-na para legitimar André Ventura.
Foi este último uso que me chamou a atenção, a maneira como algumas contas próximas do Chega receberam a entrevista, com grande entusiasmo pelas partes que lhes dão jeito e bastante menos atenção às que exigem alguma coisa ao seu partido. Passos pode não ser candidato a nada, mas já há quem lhe tenha arranjado trabalho como fiador de Ventura.
Por ali, apareceu o Passos da imigração, o Passos que elogia Ventura e o Passos que critica Montenegro, todos homens de uma lucidez extraordinária, sobretudo quando dizem aquilo que já queríamos ouvir.
Depois apareceu um quarto Passos que falou da idade da reforma, mas esse parece ter tido problemas na distribuição. Nessa altura devem ter saído para ir buscar café. Disse ele: “Se as pessoas quiserem reformar mais cedo e quiserem aceitar uma reforma menor, isso talvez seja discutível e viável.” Quanto a reformarem-se bastante mais cedo e continuarem a receber o mesmo, considerou a ideia impraticável. Ora, caros apoiantes do Chega, também aplaudem esta parte ou estavam tão ocupados a publicar os elogios a Ventura que não repararam no problema de quem paga?
É que Passos não ficou por aí, acrescentou que “os partidos que não estão no governo têm sempre uma elasticidade maior” para fazer propostas e explicou que algumas não são para levar estritamente a sério, porque não foram apresentadas para ser executadas.
Traduzindo para quem só apanhou os melhores momentos: na oposição pode prometer-se com grande desenvoltura, mas no Governo é preciso fazer contas, escolher e responder pelas consequências. A elasticidade do discurso não estica o dinheiro. Quando aplaudem esta lucidez de Passos, percebem que ele também está a dizer isto ao Chega? Que entrar numa solução de governo significa aceitar responsabilidades, incluindo a desagradável possibilidade de explicar aos eleitores por que não se pode cumprir tudo aquilo que lhes foi prometido?
E o entusiasmo tem outros encantos, como uma publicação que garante que só Passos pode salvar Portugal! Ora isto é uma notícia suficientemente importante para ser comunicada a Ventura, antes de ele imprimir mais cartazes ou usarem o hashtag #salvarportugal
Já noutra publicação, destaca-se que Passos elogiou mais Ventura do que Montenegro, mas garante-se que não disputa o PSD porque sabe que perderia. Uma hospitalidade admirável: faça o favor de entrar, diga bem do nosso líder e não tire o casaco.
E Montenegro e o PSD também não recebem daqui um certificado de boa governação. Passos acusa-os de gerir o quotidiano, distribuir pequenas melhorias e esperar que a maioria absoluta apareça à sobremesa. É uma crítica que merece ser discutida, sobretudo por quem governa.
Mas o entendimento que Passos defende também precisa de explicação, e o pacote laboral ajuda a perceber porquê. Ventura chegou a anunciar uma vitória nas negociações, o PSD dava a aprovação por garantida e o Chega acabou a votar contra. Pode discordar-se daquele pacote, evidentemente, mas uma das exigências de Ventura era um compromisso do Governo com a descida da idade da reforma, precisamente a proposta que Passos considera impraticável naqueles termos. E aqui a pergunta também é para Passos, como lidaria ele com isto? Conseguiria convencer Ventura a abandonar essa exigência, proporia reformas antecipadas com pensões menores ou acabaria perante o mesmo bloqueio que encontrou Montenegro? Defender um entendimento como o que Passos propõe é uma coisa, mas explicar como se ultrapassa uma divergência destas já exige mais do que somar deputados.
Entre este episódio e o da eleição do presidente da Assembleia em 2024, há razões para perguntar de onde viria a confiança para quatro anos e quem estaria disposto a ceder em quê. Passos pode achar que o Chega precisa de ser testado nas suas propostas, mas convinha explicar o que faria se Ventura não gostasse do resultado. Antes de mandar fazer a mesa do Conselho de Ministros, talvez fosse prudente combinar quem paga a conta e quem fica até ao fim do jantar.
E a responsabilidade não se mede apenas nas contas, também se vê na maneira de fazer política. Hoje, Rita Matias e Madalena Cordeiro entraram nos estúdios da Rádio Universidade de Coimbra durante um debate para o qual o Chega tinha sido convidado a participar à distância, uma limitação que o partido contestava. A emissão acabou interrompida, o que é uma maneira curiosa de demonstrar disponibilidade para debater. Não sei o que Passos pensa deste episódio (podíamos falar de muitos mais), mas a pergunta também lhe cabe: é com esta maneira típica de atuar que espera construir um entendimento responsável de que falou? Aos admiradores que ontem lhe celebravam a lucidez, fica outra: essa exigência também vale para o comportamento do Chega ou só para os adversários? Entrar num estúdio é mais simples do que entrar numa solução de governo, embora em ambos convenha saber ouvir.
Portanto, não estou a contratar Passos para salvar o país, estou apenas a sugerir aos seus tão entusiasmados admiradores que o ouçam até ao fim. Querem usar o "prestígio" dele para dar crédito a Ventura, mas Passos também falou em sujeitar o Chega ao teste das suas propostas, numa parte da entrevista que merece tanta divulgação como os elogios.
Aplaudir o senhor é fácil, o difícil é continuar a aplaudir quando ele apresenta a conta.
Então esquece as minhas recomendações 😄
Tens claramente muita estrada nisto e ainda por cima experiência de dentro. Eu venho mais do lado do apaixonado que acompanha, lê e vê tudo o que pode. E sim, também gosto sempre de conversar com quem conhece a modalidade a fundo.
Mas já agora fechemos com Suzuka 89, porque aqui gostava mesmo da tua leitura. Dizes que o Senna nunca conseguiria fazer aquela curva à velocidade a que entrou. Pode ser. Mas olhando para estes dois ângulos do vídeo, também tenho muita dificuldade em perceber como é que o Prost faria a chicane naquela trajetória. Quando há o contacto, ele já está claramente a fechar para a direita e ainda estão antes do vértice.
Estas imagens tornam, para mim, bastante mais discutível a ideia de que foi apenas uma manobra desesperada do Senna que nunca poderia resultar. E umas voltas depois ele passa o Nannini precisamente naquele ponto, embora obviamente as circunstâncias não sejam exatamente as mesmas. A própria F1 recorda essa ultrapassagem como tendo sido feita no mesmo local do toque com Prost.
Olhando hoje para estes dois ângulos, continuas a interpretar o movimento do Prost apenas como a trajetória normal para fazer a chicane?
E depois há a polémica da desclassificação. No ano seguinte, como aparece no filme Senna, houve muito mais cuidado com a utilização da escapatória, precisamente para evitar situações perigosas de carros a tentarem voltar para trás com outros a chegar. E há também toda a questão Balestre, que não me parece assim tão fácil de despachar como “treta”.
Não estou a dizer que isso absolve o Senna de tudo nem que prove uma conspiração. Estou a dizer que a história me parece bem menos linear do que “tentou uma manobra impossível, foi corretamente desclassificado e acabou”.
E depois ainda veio a multa, a suspensão da superlicença e toda aquela guerra pública com Balestre, que acabou com Senna a ter de escrever uma carta para poder voltar a correr. Quase parece um daqueles episódios em que, além da pena, ainda é preciso mostrar arrependimento e prestar vénia perante quem manda. Isto até me faz lembrar uma coisa recente que aconteceu por cá. 😉
https://t.co/GBRysPkOBm
Verstappen precisou de dez tentativas para ganhar em Singapura. Antonelli, terceiro hoje, pode já ser campeão do mundo em Austin se Russell não terminar acima do 10.º lugar. A Fórmula 1 continua a provar que a experiência é importante, excepto quando aparece um miúdo com pressa. 🏎️🇮🇹
Sim, o TG184 era muito melhor do que às vezes se pinta e o chassis era bom. Aí concordo contigo.
Mas convém acrescentar duas coisas. O carro só tinha sido estreado na corrida anterior, em Dijon, e a Toleman não tinha acesso aos mesmos Michelin que as equipas da frente. Andava normalmente com especificações mais antigas.
Curiosamente, em Mónaco isso deixou de acontecer nos pneus de chuva, porque havia uma única especificação disponível. Foi provavelmente a primeira vez em que o Senna teve ali uma situação realmente nivelada em termos de pneus.
Portanto, sim, bom chassis. Mas ainda com motor claramente inferior e normalmente também com desvantagem nos pneus. É um bocado diferente de dizer simplesmente que ele tinha um ótimo carro. E tanto é que no ano seguinte saiu para a Lotus, porque aí sim tinha a perspetiva de passar para um projeto claramente mais competitivo.
No essencial, estou a gostar da conversa. Mas se não pararmos por aqui ainda vamos acabar a discutir o tamanho dos parafusos do MP4/4. 😄
Fui-te respondendo uma a uma nos intervalos do trabalho, mas deixemos alguma coisa para os próximos GPs. Se gostas mesmo tanto de F1, posso recomendar umas leituras e uns documentários bem fixes. E se tiveres uns para me dizer, agradeço-te tambem. 👊
Sem dúvida. Concordo que Mónaco ajuda muito quem vai à frente e que ultrapassar ali é dificílimo. O Piquet costumava dizer que andar no Mónaco era como tentar andar de bicicleta dentro de casa. Mas difícil não é impossível. Em 92, com a pista seca, o Senna passou o Patrese logo na primeira curva. E mesmo à chuva há exemplos. Em 84, o Mansell passou o Prost, o Senna passou o Lauda e o Lauda já tinha passado os Ferrari.
E depois há outra coisa. Uma coisa é ser difícil passar no Mónaco, outra é ser difícil passar o Senna. Juntas as duas e percebes melhor aquelas últimas voltas.
Se fores rever o vídeo, vê-se que ele não estava só a pôr o carro no meio. Ia antecipando onde o Mansell podia realmente atacar e colocava o McLaren precisamente nesses pontos. O FW14B era muito mais rápido naquele momento, vinha com pneus novos e apanhou-o num instante. Mas depois teve de passar um dos pilotos mais difíceis de ultrapassar, no circuito mais difícil para ultrapassar.
Portanto não lhe chamaria um feito heróico, mas também não reduziria aquilo a “bastava pôr o carro nos sítios certos”. É precisamente saber quais são esses sítios, antecipar o ataque e não cometer um erro com o Mansell colado atrás que faz parte da qualidade, para reconhecer que foi uma defesa extraordinária. Mónaco ajudava, claro, mas o resto vê-se nas imagens.
Se queres um feito heróico, então vê a primeira volta de Donington em 93. Aí tens o Senna na sua plenitude: chuva, dois Williams de outro planeta à frente, parte de 4.º, ainda cai para 5.º no arranque e acaba a primeira volta em 1.º depois de passar Schumacher, Wendlinger, Hill e Prost. E ainda há aquela loucura da volta mais rápida pela via das boxes. Na altura não havia limite de velocidade, ele atravessou-a sem parar e fez a volta mais rápida da corrida. Um corridão. E repara que na qualificação em seco os Williams deram deram cerca de segundo e meio a toda a gente. Depois no domingo começou a chover e fez-se história.
Sim, aí tens razão quanto ao John Walton. Fui confirmar e é dele que vem a versão de que a suspensão estaria perto de ceder, transmitida ao Nigel Steer.
Mas a fonte que encontro fala em não mais de cinco voltas, não numa certeza de 2 a 4. E o próprio Pat Symonds, depois de confirmada a fissura no carro, disse mais tarde que nunca saberiam se teria partido e que até suspeitava que, sem outro impacto daqueles, teria chegado ao fim.
Portanto havia dano sério, isso parece indiscutível. Que fosse certamente partir poucas voltas depois já continua a ser uma estimativa, não um facto. https://t.co/ltQWBmkmYu
Sim, também nessa formulação estamos mais próximos. Se o que queres dizer é que entre 85 e 94 o Senna teve sempre carros capazes de ganhar corridas, concordo. O que eu estava a distinguir era isso de ter sempre um carro verdadeiramente ao nível de lutar pelo título.
E em 91 também concordo contigo no essencial. O MP4/6 era um ótimo carro e muito mais fiável. O FW14 era muitas vezes mais rápido, mas a McLaren tinha o pacote mais sólido ao longo da época.
Portanto acho que aqui estamos mais a discutir a formulação do que o fundo da questão.
Aí acho que estamos outra vez a misturar duas coisas. O Prost fez claramente diferença em 1990, sobretudo pela inteligência em corrida e pela forma como trabalhava o carro. Mas o 641 também era um grande carro. Era um V12, tinha a caixa semiautomática com patilhas e em vários circuitos era fortíssimo. Ferrari e McLaren acabaram com seis vitórias cada, por isso não acho justo dizer que foi sobretudo o Prost e não o carro.
Onde concordo contigo é que o Honda tinha vantagem de potência e entrega, e a Ferrari teve problemas de fiabilidade.
E quanto a Suzuka, aí não tenho problema nenhum em dizer que não gostei do que o Senna fez. Percebo de onde vinha a revolta, porque ele sentia que 89 lhe tinha sido tirado e ficou furioso com a questão da pole no lado sujo da pista. Mais tarde ele próprio reconheceu porque fez aquilo. Mas perceber não é desculpar.
E a história também acabou por mostrar que o conflito com Balestre não era propriamente uma invenção do Senna. Anos depois, o próprio Balestre admitiu ter ajudado o Prost em 89.
Eu percebi e sei onde quiseste chegar e até concordo em grande parte contigo. Em 88 a fiabilidade já tinha melhorado muito e a regra do deitar pontos fora começava claramente a fazer menos sentido.
E sim, o Prost fez mais pontos brutos e foi mais regular. Se todos os resultados contassem, seria campeão.
Onde eu só não iria tão longe é no “merecia mais”. Isso já depende do critério. O Prost foi mais regular, o Senna ganhou mais corridas e os dois correram sabendo desde o início como o campeonato era pontuado. Mas no essencial estamos de acordo.
Stereossauro juntou “Estranha Forma de Vida”, da Amália, com Portishead. À primeira vista parece uma combinação improvável. Depois ouvimos e percebemos que a tristeza do fado e a melancolia de Bristol até têm mais pontos de contacto do que seria de esperar.
Pode-se gostar ou não. Mas não vejo grande sacrilégio em pôr músicas de épocas e mundos diferentes a conversar. Se nos soar bem, porque não?
Bom dia a todos 🌞
Fernando, eu não disse que Maidan não pode ser discutido nem que não houve ingerência externa. Só que esse não era o ponto. Se quiseres discutir Maidan, discutimos mas noutra altura. Mas também aí convém não fingir que só havia ingerência de um lado. A Rússia meteu-se durante anos na política ucraniana e apoiou quem lhe interessava. E sobre isso também não faltam vídeos, reportagens e documentários. Já vi bastante coisa sobre o assunto.
Mas chamar à invasão de 2022 uma simples “escalada” é uma maneira muito simpática de descrever um exército a entrar noutro país e a tentar tomar a capital. O que veio antes ajuda a perceber o contexto, mas não apaga isso. E depois há uma questão simples: se aceitarmos que um país mais forte pode invadir outro porque tem razões históricas ou políticas, então qualquer um passa a poder redesenhar fronteiras à sua maneira.
Quanto ao “totó”, já percebi. É a parte da conversa em que tens menos dificuldade em manter consistência.
Pelo que vou lendo aqui no X, já há mais gente a querer escolher o próximo presidente da Ucrânia do que ucranianos interessados em votar agora.
Entretanto fui ver o que pensam os próprios ucranianos e parece que conseguem fazer uma coisa que nas redes sociais se tornou quase impossível: confiar num presidente, desejar uma mudança e não querer eleições em plena guerra.
Todos podemos ter opiniões sobre Zelensky, mas o problema começa quando achamos que a nossa deve valer mais do que a dos próprios ucranianos, como Trump também parece achar. Talvez fosse boa ideia ouvi-los antes de escolhermos por eles. Até porque, tanto quanto sei, a soberania da Ucrânia também inclui o direito de escolher quem querem que seja o seu presidente. Já basta terem um vizinho que acha que pode fazer o que quer com a soberania deles.
Fernando, chamar “golpe” a 2014, meter 14 mil mortos no mesmo saco e depois transformar a invasão de 2022 numa simples “escalada” é um belo exercício de “embaralha e torna a dar”. Dizer que a invasão de 2022 foi “apenas uma escalada” também é uma maneira curiosa de descrever um país atravessar a fronteira com um exército e tentar tomar a capital de outro.
Se eu sou o totó por distinguir estas coisas, começo a achar que o insulto é o que tens de melhor para argumentar.
Rui, ele continua a ter proteção vitalícia dos serviços secretos. Pode viajar em voos comerciais e até já o fez, mas uma deslocação internacional de um ex-Presidente implica uma operação de segurança que um voo privado obviamente simplifica.
Mas nem percebo bem onde está a hipocrisia. Ele está a falar de igualdade de oportunidades e de não se sentir superior ao vizinho, não de toda a gente ter de viajar em classe económica.
Também tenho essa sensação, mas não sei bem o que te diga, Carlos. Parece-me que há vários interesses em enfraquecer a Europa, uns externos e outros internos, e nem sequer precisam de estar todos coordenados ou querer exatamente a mesma coisa.
A Rússia tem um interesse óbvio numa Europa mais dividida e menos capaz de agir em conjunto. Depois há forças políticas dentro da própria Europa que fazem carreira precisamente atacando a UE, e há também quem do outro lado do Atlântico pareça preferir negociar com países isolados do que com um bloco forte.
O que ainda tento perceber é até que ponto estamos perante uma coincidência de interesses ou algo mais organizado. Mas que há muita gente a ganhar com uma Europa mais fraca e fragmentada parece-me cada vez mais difícil de ignorar.
Essa dos pontos é verdade. O Prost fez mais pontos brutos do que o Senna em 88 e também em 89. Mas eu não chamaria ao “best 11” uma regra desatualizada como se fosse uma coisa meio esquecida no regulamento.
A regra dos descartes, que dizíamos “deitar pontos fora”, vinha praticamente desde o início da F1. Em 1950 já só contavam os quatro melhores resultados de sete corridas. Fazia sentido numa altura em que os carros avariavam imenso, nem todas as equipas faziam todas as provas e uma avaria podia destruir um campeonato. O sistema foi sendo adaptado ao longo dos anos mas a lógica manteve-se durante décadas.
Em 88 todos sabiam desde o início que só contavam os 11 melhores resultados. O Prost fez 105 pontos brutos contra 94 do Senna, mas com os descartes ficaram 87 para Prost e 90 para Senna. E o Senna ganhou 8 corridas contra 7.
Podemos discutir se nessa altura a regra já fazia menos sentido porque a fiabilidade tinha melhorado muito. Tanto que acabou por ser abolido a partir de 91. Mas era a regra do campeonato na altura, não uma coisa que apareceu para beneficiar o Senna.
E há uma ironia engraçada nisto tudo. Em Mónaco 84, quando a corrida foi interrompida, o Prost abrandou e parou junto à linha da meta antes da bandeira de xadrez, e o Senna chegou a passá-lo. Só que isso já foi depois da interrupção e a classificação recuou à volta anterior, por isso a vitória ficou para Prost. Como a corrida terminou antes dos 75% da distância, só foram atribuídos metade dos pontos e Prost recebeu 4,5. Acabou por perder o Mundial para Lauda por meio ponto. Se a corrida tivesse continuado, o Senna o passasse em condições normais e o Prost acabasse em segundo numa prova com pontuação completa, recebia 6 pontos. Ou seja, teria sido campeão.
Portanto há aqui uma ironia extraordinária. A interrupção que lhe deu a vitória no Mónaco pode ter-lhe custado o campeonato de 84, e quatro anos depois o sistema de descartes acabou por favorecer Senna em relação aos pontos brutos de Prost.
É por isso que tenho alguma dificuldade com o argumento de que em 88 o Prost “devia” ter sido campeão porque fez mais pontos no total. Devia, se as regras fossem outras. Mas eles correram sabendo desde o início quais eram as regras daquele campeonato.